Vila Bela da Santíssima Trindade (MT): o que fazer em 5 dias

Tempo de leitura: 10 minutos

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Saímos de Cuiabá de madrugada, com o carro frio e o céu ainda fechado. O tipo de saída que a gente só faz quando sabe que o destino pede isso. Qualquer hora mais civilizada seria desperdiçada na estrada.

 

A viagem até Vila Bela da Santíssima Trindade são mais de 500 quilômetros de Cuiabá, cruzando o Mato Grosso em direção ao extremo oeste, bem perto da fronteira com a Bolívia. A estrada já é uma aula de escala: o estado é imenso, e quem vem de leste vai percebendo como a paisagem vai mudando conforme avança — quem conhece a Lagoa Azul de Primavera do Leste sabe que o Mato Grosso guarda surpresas ao longo do caminho, não só no destino final. A cidade tem nome comprido por razão: foi a primeira capital do estado, fundada pelos portugueses no século XVIII quando o ouro do Rio Guaporé chamou atenção da coroa. Sobrou história por lá. Sobrou mais ainda natureza.

Mas antes de chegar lá, a estrada já cobrou pedágio em forma de experiência.

Dia 1 — A dolina que não tem fundo

A porta do carro resolveu dar problema logo no começo da viagem. Não vou detalhar, mas foi o tipo de imprevisto que faz a gente questionar, por uns dez minutos, se vale mesmo sair de casa. Vale.

Paramos em Cáceres para almoçar. A cidade fica às margens do Rio Paraguai e tem aquele ritmo de interior que desacelera qualquer um: comida caseira, calor úmido, ninguém com pressa. Ficamos mais tempo do que o planejado, como sempre acontece quando a comida é boa de verdade.

Dali, seguimos até o ponto que mudou o tom da viagem inteira.

A Dolina Água Milagrosa fica a 25 quilômetros de Cáceres, dentro de uma fazenda particular, encravada entre as serras do Bebedouro e do Morro Grande. Uma dolina, para quem nunca ouviu falar, é uma cratera formada pelo colapso de cavernas de calcário ao longo de milênios. O teto desaba, o buraco aparece e, dependendo da geologia local, enche de água. No caso dessa aqui, encheu de um azul que não parece real — e o Mato Grosso tem esse costume de reservar esse tipo de surpresa para quem vai longe o suficiente.

O acesso é um percurso de cerca de 850 metros de trilha até o ponto onde começa a escadaria. Mais de 150 degraus descendo direto para o interior da cratera. Em compensação, lá de baixo a gente se depara com paredões de quase 200 metros de altura ao redor, e no centro, esse lago azul-turquesa, sem fundo descoberto, com visibilidade de até 60 metros nos meses de seca.

Mergulhadores já chegaram a 182, 183 metros de profundidade com cilindro. Ninguém encontrou o fundo ainda.

Entramos na água. A temperatura era de uma água subterrânea, fria sem ser gelada, com a clareza de um aquário. Conseguíamos ver troncos submersos e peixes se movendo metros abaixo de nós, e ainda assim o fundo não aparecia. É um negócio que mexe com a cabeça: você flutua numa coluna de água sem fim e não sabe o que tem lá no escuro.

A história do nome vem de escravos fugidos das fazendas da região no século XIX. A lenda conta que eles lavavam as feridas nessa água e cicatrizavam. Daí o “milagrosa”. Até hoje há quem vá buscar a água em garrafas.

A subida de volta foi pesada. Mais de 150 degraus carregando as pernas cansadas do dia. Mas chegamos em cima com aquela sensação de ter visto algo que a maioria das pessoas não sabe que existe.

Chegamos a Vila Bela já à noite. Cansaço total. Dormimos bem.

Dia 2 — O cânion com andorinhas

Saímos cedo para o parque. O Parque Estadual Serra Ricardo Franco tem 158 mil hectares e fica na zona de transição entre Cerrado e Amazônia, com um pedaço de Pantanal também no mix. É uma das unidades de conservação mais importantes do estado, e a visitação ainda é feita de forma bem rústica: sem infraestrutura exagerada, sem sinalização excessiva, com guia obrigatório.

A trilha até o Cânion do Jatobá começa tranquila, com a vegetação fechando dos dois lados e um silêncio que só lugares assim têm. O som da água começa a aparecer antes da imagem. A gente fica tentando adivinhar o tamanho pelo barulho, e erra pra baixo toda vez.

O cânion é daqueles lugares que você entra, literalmente. Não tem um mirante, não tem uma plataforma. Você caminha dentro da água, nada nos trechos mais fundos, vai passando pelas paredes de rocha com as mãos. Quem já fez o Cânion do Cipó em Barra do Garças vai reconhecer essa lógica de imersão — mas o Jatobá tem uma escala diferente. Seguimos nadando por cerca de 100 metros até uma pequena queda, e na volta passamos pelo Poço das Noivas, que tem uma lenda local envolvendo amor garantido para casais que mergulham juntos. A lenda é simpática, o poço é bonito.

O momento que não estava no roteiro foi no meio do retorno.

Milhares de andorinhas começaram a sair pelas fendas das paredes do cânion. Não foi uma ou duas pássaros voando na direção errada. Foi uma nuvem de andorinhas saindo em revoada, passando baixo sobre a água, virando ao redor. Ninguém falou nada por um tempo. É um daqueles espetáculos que a natureza coloca na frente da gente sem avisar, e que a câmera nunca capta direito.

Almoço de comida caseira, conversa com o guia sobre o parque, tarde parada.

Dia 3 — A trilha que entrega demais

A Trilha da Poaia começa com uma subida que faz a gente questionar as próprias escolhas. Essa frase soa clichê, mas é uma descrição literal do que acontece: inclinação alta, chão irregular, calor, e o pensamento de “por que não fui de barco no Rio Guaporé hoje”.

Mas logo veio o mirante da Cascata dos Namorados. Visão aberta, o rio serpenteando lá embaixo, e uma queda d’água impressionante formando névoa sobre o leito. Ficamos mais tempo do que devia ali.

Depois disso, o dia virou outro. Descemos até o leito do rio e começamos a caminhar dentro d’água, passando por poços que iam aparecendo um atrás do outro. Cada um com uma cor diferente, uma profundidade diferente, uma temperatura diferente. O tipo de roteiro que não tem como antecipar porque a natureza foi generosa demais naquele vale.

O ponto alto foi o Poço da Poaia. Água azul-esverdeada, uma queda caindo num ângulo que iluminava tudo, e borboletas voando em volta. Vou deixar assim: foi um dos momentos mais bonitos de toda a viagem.

Voltamos com as pernas pesadas e chegamos à orla do Rio Guaporé no final da tarde, a tempo de pegar um pôr do sol absurdo. Sem drama, sem preparação. O céu simplesmente foi ficando laranja e a gente estava lá.

Dia 4 — A cachoeira mais alta do estado

O quarto dia foi o mais difícil. Não existe forma mais honesta de dizer.

A trilha até a Cachoeira do Jatobá tem cerca de 12 quilômetros e começa com uma subida que deixa claro logo de cara que o dia vai ser sério. Passamos pelo mirante da Cachoeira dos Macacos no caminho, e aí a gente para, respira e continua.

A Cachoeira do Jatobá é a mais alta do Mato Grosso. São mais de 250 metros de queda vertical, despencando sobre um paredão avermelhado de metassedimentos do Pré-Cambriano, que segundo os geólogos têm mais de 600 milhões de anos. O estado guarda cachoeiras assim escondidas em cantos que a maioria dos roteiros turísticos nunca chega — a Cachoeira Azul de Barra do Garças é outro exemplo desse mesmo Mato Grosso que ainda não foi descoberto. Quando você está na base olhando pra cima, esse número faz sentido de um jeito que a escola nunca conseguiu explicar.

Subimos até o topo, onde existe uma piscina natural alimentada pelo próprio rio antes da queda. Mergulhamos ali depois de horas de caminhada. O contraste entre o esforço e a água parada naquele lugar é uma das sensações mais precisas que a viagem deu.

Na volta, ainda passamos pela Cachoeira da Esmeralda e pela do Cristal, cada uma com sua própria escala de cor e barulho. Foram quase oito horas de trilha. Chegamos de volta com o corpo completamente destruído e sem nenhum arrependimento.

Dia 5 — A cascata atrás da cortina

O último dia pediu um ritmo diferente. A Trilha da Cascata dos Namorados tem cerca de 5 quilômetros, várias travessias de rio e um tom mais contemplativo que os dias anteriores. É o tipo de trilha que você faz sem querer chegar rápido.

A cascata tem cerca de 70 metros de queda. Chegamos, olhamos, entramos na água e então fizemos o que parecia ser a coisa óbvia a fazer: nadamos até atrás da queda.

Ali, com a rocha nas costas e a cortina de água na frente, é difícil articular o que acontece. Não é euforia, não é exatamente paz. É mais aquela sensação de estar num lugar que existe independente de você, e você teve o privilégio de aparecer por um momento.

Na volta, ainda passamos pela Cascatinha, que com o nome diminutivo pode enganar mas não decepcionou.

Depois disso, hotel, banho, estrada. Horas de viagem, voo de madrugada, Rio de Janeiro de manhã.

Vila Bela da Santíssima Trindade não é um destino fácil. Não é um destino rápido. Não tem aeroporto perto, não tem resort na entrada do parque, não tem muito sinal de celular nas trilhas. O que tem é uma quantidade absurda de natureza que ainda não foi domesticada, uma cidade com quase 300 anos de história e uma cadência de viagem que obriga a gente a prestar atenção no que está acontecendo.

Cinco dias depois, ainda é difícil colocar em perspectiva. Mas a memória que fica mais forte é a das andorinhas saindo do cânion sem avisar. Aquela cena não estava no roteiro. Não estava em nenhum post, em nenhuma resenha, em nenhuma expectativa. Foi só a natureza sendo natureza. E talvez seja exatamente isso.

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