Trilha da Cachoeira do Jatobá: o que fazer em Vila Bela da Santíssima Trindade (MT)

Tempo de leitura: 6 minutos

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Acordei sabendo que o dia ia ser pesado. Não era um pressentimento, era certeza: a trilha até a Cachoeira do Jatobá tem reputação, e ela não é de graça.

Saímos da pousada às 7h30 da manhã. O sol ainda estava baixo, a temperatura ainda suportável, e a gente aproveitou cada minuto disso porque sabia que não ia durar. Vinte quilômetros de estrada de terra depois, o carro parou na entrada do Vale das Cachoeiras. Era 8h30, e a trilha começava ali.

Nos primeiros metros já ficou claro o que ia acontecer. A subida é íngreme desde o começo, sem aquele trecho de aquecimento que a gente fica esperando e que nunca aparece. A mata fecha em cima, o chão é irregular, e o calor que o Mato Grosso guarda para quem visita nessa época do ano começa a cobrar o pedágio cedo. Faz sentido, na verdade. Estamos subindo a Serra Ricardo Franco, um planalto sedimentar que beira os 600 metros de altitude e que funciona como a espinha dorsal de tudo o que se vê aqui. O parque que leva seu nome tem mais de 160 mil hectares, e a Cachoeira do Jatobá fica guardada no interior desse território.

Com uns três quilômetros de caminhada, chegamos ao primeiro mirante. Dali de cima, a Cachoeira dos Macacos aparece emoldurada entre paredes de arenito laranja. Estávamos em época de seca, então o volume de água estava baixo, mas isso não tirava a força da cena. A queda tem uns 85 metros e desemboca num cânion que a gente enxerga lá embaixo como se fosse um sulco na terra. Parou todo mundo. Ninguém falou nada por um tempo.

Um pouco mais à frente, a trilha passa por outro ponto de vista, dessa vez por cima da mesma cachoeira. Ver a queda d’água de cima muda completamente a perspectiva. O que era imponente de frente vira imensidão quando você está em cima, olhando para o abismo de onde ela vem. Aqui o cânion abre, a vegetação de cerrado toma conta do entorno e o sol bate sem pedir licença.

A trilha segue por esse trecho mais aberto. O arenito embaixo dos pés tem um tom que vai do amarelo queimado ao vermelho, dependendo da hora do dia e do ângulo da luz. É o mesmo tipo de formação que encontramos em outras cachoeiras de arenito do Mato Grosso, mas aqui a escala é outra. A vegetação típica do cerrado que cobre esse platô é baixa, retorcida, cheia de peculiaridades. Não é a floresta fechada da subida. Aqui o horizonte abre, o vento aparece, e foi nessa abertura que a Cachoeira do Jatobá apareceu pela primeira vez.

Não tem como preparar alguém para esse momento. A cachoeira tem 252 metros de altura e é a maior do Mato Grosso. No papel, esse número não significa muito. De frente para ela, significa tudo. A água parte de um ponto lá em cima que parece inatingível e some antes de chegar à base, pulverizada pela altura, pela distância. O paredão de arenito que serve de suporte para essa queda tem uma cor que muda conforme a luz. E bem na borda do cânion, onde a água encontra o vazio, a gente ficou parado por um tempo que não soubemos medir.

O que tornou aquele momento ainda mais estranho e bonito foi o que estava acontecendo bem abaixo dos nossos pés: andorinhas. Dezenas delas, voando dentro do cânion, circundando a queda d’água em trajetórias que pareciam ensaiadas. Elas não tinham medo do vazio. Pelo contrário, usavam as correntes de ar criadas pela queda para acelerar, girar, subir. Ficamos ali assistindo até a gente ter certeza que havia gravado aquela cena direitinho.

Seguimos até o topo. Chegar no topo de uma cachoeira de 252 metros não parece algo que a gente faz numa trilha de um dia. Mas é justamente o que acontece aqui. O rio que alimenta a Jatobá passa tranquilo, quase doméstico, por entre as pedras planas do platô. A água é clara e rasa. Parece inofensiva. Alguns metros à frente, ela simplesmente some. Dá aquela vertigem de olhar para o bico de uma faca.

Logo ali, onde o rio ainda é calmo, tem uma piscina natural. A água estava fria. Depois de quatro horas de caminhada, calor e subida, entrar ali foi uma das melhores sensações do dia. A gente ficou um tempo descansando, comendo, olhando para as bordas do platô, tentando entender o quanto de coisa havia ficado pra trás.

Na volta, o guia nos levou por um trajeto diferente. A descida pela encosta sul da serra revela cachoeiras que não aparecem no caminho da ida, e cada uma delas teria sido suficiente para ser a atração principal de qualquer outro dia.

A Cachoeira do Escorrega foi a primeira. A água desliza por lajes de pedra polidas e cria um escorregador natural que termina numa piscina funda, mais de sete metros, com água escura de tão limpa. Depois veio a Cachoeira da Esmeralda. O nome é o menos inventivo que eles poderiam ter escolhido, mas é o que descreve: a água tem uma cor verde-azulada que não parece real, daquelas que a gente já viu em cachoeiras com água azul espalhadas pelo Brasil mas que sempre surpreende quando aparece ao vivo. A queda é grande. O silêncio ao redor é quase absoluto.

A última foi a Cachoeira do Cristal. Mais calma, menor, diferente das outras. Depois de horas de emoção e movimento, ela chegou no momento certo. A gente sentou nas pedras, deixou a água correr ao lado, e ficou quieto por um tempo antes de levantar e completar a descida.

O carro estava no estacionamento quando finalmente chegamos. Sete horas e quarenta minutos de trilha. Doze quilômetros, quase 430 metros de desnível acumulado. Cansados de uma forma que vai mais fundo que a musculatura.

De volta à orla de Vila Bela, pedimos peixe pintado ao molho branco. Não tinha como ser diferente. A cidade fica às margens do Rio Guaporé, e o pintado é um dos peixes mais nobres que essa bacia produz. Comemos devagar, sem conversar muito. Às vezes o melhor jeito de processar um dia é deixando ele assentar em silêncio. Vila Bela tem mais desses dias para dar — como a Dolina Água Milagrosa, outro atrativo da região que guarda surpresas de uma natureza completamente diferente.

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