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O despertador tocou às 04h50. Não aquele alarme que a gente ouve dormindo por uns três minutos antes de apertar soneca. Esse foi o tipo de despertar que a gente já esperava, que já tinha programado antes mesmo de deitar, sabendo que a estrada ia ser longa e que o dia exigia começar cedo de verdade.
A ideia era sair do Hotel Hits Pantanal, em Cuiabá, às 05h30 em ponto. Não saímos. O guia avisou que ia atrasar, e no fim acabou sendo bom, porque o café do hotel só liberava a partir das seis. Aproveitamos o tempo sem pressa nenhuma, com aquela calma específica de quem ainda não sabe exatamente o que vai encontrar no dia. Quando fomos finalmente botar o pé lá fora, a porta do carro recusou fechar. Não trancou, não emperrou. Simplesmente não fechou. Ficamos ali alguns minutos, entre o improviso e um leve desespero, até que outro guia da agência apareceu e resolveu o problema. Pegamos estrada depois das sete.
Cáceres apareceu lá pelas onze da manhã. A cidade fica às margens do Rio Paraguai, a cerca de 234 quilômetros de Cuiabá, e carrega um peso histórico que o centro ainda deixa transparecer. É conhecida como “Princesinha do Paraguai” e funciona como uma das portas de entrada para o Pantanal mato-grossense. Paramos na orla. Tinha uma igrejinha, mesas na calçada, o ritmo lento de interior que desacelera qualquer pessoa apressada. Almoçamos num buffet a quilo, comida caseira sem firula nenhuma, daquelas que fazem bem depois de horas sentado dentro de carro. E comemos sorvete, porque sim.
O objetivo do dia ficava a cerca de 25 quilômetros dali, pela MT-343, sentido Barra do Bugres. Dos últimos oito quilômetros, nada era asfalto.
A Dolina Água Milagrosa é uma formação geológica que nasceu do colapso lento de rochas calcárias cársicas ao longo de milênios. O solo foi cedendo, a rocha dissolvendo por dentro, até que um dia simplesmente abriu. O resultado é uma cratera cercada por paredões de quase 200 metros de altura, no fundo da qual existe uma lagoa alimentada pelo lençol freático. O espelho d’água tem cerca de 50 metros de largura. A profundidade, ninguém sabe. Mergulhadores profissionais já chegaram a mais de 180 metros sem encontrar o fundo, e há registros de uma medição em 1998 que alcançou 220 metros, ainda sem resultado. Isso por si só já cria um tipo de peso no ar.
Chegamos, fizemos o ritual básico: banheiro, água, colete salva-vidas, que é obrigatório para todo mundo que entra na água. Depois, subimos numa espécie de charrete puxada por trator, que levou a gente por um trecho mais acidentado até o início da trilha. São 850 metros caminhando pela mata nativa, terreno leve, sem exigência técnica nenhuma. A exigência vem no final.
A escadaria tem 157 degraus de madeira, irregular, íngreme, e desce direto para dentro da formação. Não tem como preparar quem ainda não foi para o que acontece conforme a gente desce. O céu vai ficando menor, os paredões vão chegando mais perto dos dois lados, e em algum momento a pessoa percebe que está completamente dentro da terra, cercada por rocha em todos os ângulos. Lá embaixo, quieto, o azul.
A cor da água no período de seca, entre maio e setembro, é o tipo de azul que parece editado, e a gente já visitou bastante poço e cachoeira de água azul pelo Brasil para saber que essa comparação não é forçada. Turquesa na superfície, mais escuro conforme a luz some lá embaixo. O sol bate direto na dolina pelo período da manhã, e quem chega cedo o suficiente vê feixes de luz descendo pela água como se viessem do interior, não de cima. A gente não chegou cedo o suficiente para isso. Mesmo assim, o que tinha lá era difícil de descrever sem soar exagerado.
Entramos.
A água é fria, limpa, e a visibilidade embaixo impressiona. Conseguimos ver com clareza até uns 15 metros, troncos submersos, pequenos peixes movendo devagar. Sabendo que abaixo disso tinha mais 165, 200 metros, ou talvez mais, o negócio fica estranho de um jeito bom. Existe um momento específico, flutuando com o colete no meio daquela cratera, olhando para os paredões ao redor e para o azul embaixo, em que o silêncio tem outra textura. Não é ausência de som. É presença de algo que a gente não consegue nomear direito.
Não falta história para preencher esse vazio. O guia contou que na época da escravidão, pessoas que fugiam das fazendas da região buscavam refúgio ali. Lavavam os ferimentos na água, que segundo o relato cicatrizava mais rápido. Com o tempo o lugar foi ficando conhecido como Água Milagrosa. Outros falam em propriedades medicinais. Outros em portal para outra dimensão. Em 2013, um casal se casou debaixo d’água ali dentro, com reportagem no Fantástico. É o tipo de lugar que coleciona histórias assim, porque a realidade física já é estranha o suficiente para fazer qualquer coisa parecer possível.
Tem SUP disponível para quem quiser explorar o espaço com mais calma, sem mergulhar o tempo todo. É uma forma diferente de entender a dimensão do lugar, chegando nos cantos, observando os paredões de outro ângulo.
A subida fez jus à reputação. Os 157 degraus que descemos com empolgação cobraram a conta no retorno. Pernas pesadas, calor acumulado, aquele tipo de cansaço que vai chegando devagar e de repente já está em todo lugar. Foi, sem mentira, mais puxado do que muitas trilhas que já fizemos, incluindo a Cachoeira Azul, em Barra do Garças, que também tem lá a sua subida. Mas quando chegamos lá em cima, com o céu aberto de volta e os pés de volta no mundo normal, a sensação era de quem tinha feito algo que valia a pena ser difícil.
Trocamos de roupa, bebemos água, respiramos.
A estrada seguiu pela BR-174 até Vila Bela da Santíssima Trindade. Chegamos perto das 21 horas. Cansados do tipo que já não tem palavra certa pra descrever, mas com a cabeça cheia de imagem de um azul que não parecia de verdade, no fundo de uma cratera no meio do Mato Grosso, onde ninguém jamais chegou ao fundo.
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