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O café da manhã no Hotel da Vila foi mais caprichado do que o necessário para o que nos esperava: uma trilha plana de dois quilômetros e meio. Mas era o último dia, e a gente queria começar bem. Fora que, com as pernas ainda marcadas pelos dias anteriores em Vila Bela, qualquer carboidrato extra era bem-vindo.
Saímos cedo. O sol já batia de lado na estrada de terra quando deixamos a cidade para trás, seguindo pelos mesmos quinze quilômetros que já havíamos percorrido outras vezes durante a semana, rumo ao entroncamento das trilhas. O acesso é o mesmo da Trilha da Poaia, mas pela parte de baixo. Uma placa na ponte indica a direção. Quem conhece, passa direto. Quem não conhece, para, olha, confirma, e segue.
Vila Bela da Santíssima Trindade fica no extremo oeste do Mato Grosso, quase encostada na fronteira com a Bolívia. Foi a primeira capital do estado, fundada no século XVIII pelo primeiro governador da Capitania de Mato Grosso, Dom Antônio Rolim de Moura, num ponto estratégico às margens do Rio Guaporé. Durante décadas foi o centro político e administrativo de tudo aquilo, e depois foi esquecida junto com o ouro que havia mobilizado tantos interesses. Hoje, quem chega de fora costuma se surpreender com a cidade: a maioria dos moradores descende de escravizados africanos, e isso se manifesta na arquitetura, na culinária, nas festas, na língua. Há uma sensação estranha e bonita de estar num lugar que parece ter guardado tempo de forma deliberada.
A natureza ao redor não é diferente. A serra no fundo, o Parque Estadual Serra Ricardo Franco, guarda centenas de cachoeiras espalhadas por um ecótono que mistura cerrado, pantanal e Amazônia num raio de poucos quilômetros. A Cachoeira dos Namorados é a mais acessível de todas, e por isso a mais visitada. Não que “acessível” signifique fácil de chegar de qualquer lugar do Brasil. Significa que, uma vez em Vila Bela, você consegue chegar lá sem precisar de guia, sem custo de acesso e sem equipamento específico.
A trilha começa na margem do rio. Logo nos primeiros metros, já ficou claro o que seria o ritmo do percurso: caminhar um pouco, atravessar o rio, caminhar mais, atravessar de novo. O terreno é quase plano ao longo dos dois quilômetros e meio, e as travessias não têm profundidade preocupante, mas molham. Era só aceitar isso desde o começo. A gente aceitou.
A água do rio tem aquele tom verde escuro que aparece em sombra, mas quando bate luz vira um espelho cor de esmeralda. O som de fundo nunca some: é constante, baixo, ora mais forte quando a corredeira aperta, ora quase sussurro quando o leito abre. A mata fecha nas margens. Os pássaros existem, mas nenhum de nós soube nomear nenhum. O chão, em boa parte do percurso, alterna entre cascalho miúdo e pedras maiores que pedem atenção nos passos.
Chegamos na cachoeira sem ter percebido direito que estávamos chegando. Ela aparece depois de uma curva, e o efeito é de alguém mudando o volume do som de repente. De longe já dá pra ouvir o impacto da queda. De perto, os setenta metros de paredão de arenito fazem a escala humana ficar ridícula. A água despenca com força, mas o poço que ela forma é amplo e calmo, o que cria uma combinação incomum: o barulho e o impacto ali em cima, a tranquilidade da piscina embaixo.
Entramos sem muita cerimônia. A temperatura da água é a mesma que acompanha qualquer cachoeira de serra, aquele frio que empurra o coração para cima e logo normaliza. Fomos nadando devagar em direção à queda, sem pressa, lendo o fundo. A profundidade aumenta conforme você se aproxima. Na beira do poço, dá pé. No meio, não dá mais.
A decisão de nadar até atrás foi coletiva e não muito planejada. Alguém disse “vamos ver o que tem lá” e a gente foi. O que tem é uma espécie de caverna rasa esculpida pela erosão ao longo de séculos, um recuo na rocha onde a água não cai mas o respingo alcança tudo. A visão de dentro é diferente de qualquer coisa que consigo descrever sem soar exagerado: a cortina d’água fechando o mundo de fora, a rocha úmida no teto, o barulho amplificado pela pedra, o cheiro de mineral e umidade misturados. Ficamos lá mais tempo do que necessário. Não havia pressa.
Na volta, pegamos a bifurcação para a Cascatinha. O nome sugere algo pequeno, e os quarenta e cinco metros de queda jogam fora essa expectativa. O poço abaixo tem uma tonalidade diferente da cachoeira principal, um azul mais fechado que vira verde conforme a tarde avança e o ângulo da luz muda. O detalhe curioso que alguém percebeu: perto da queda, a água estava mais quente. É a exposição ao sol batendo nos paredões ao longo do dia. Ficamos mais um tempo ali antes de retomar o caminho de volta.
O retorno foi mais rápido, como sempre é. As pedras já eram conhecidas, as travessias já tinham rota. Mas no caminho de volta também apareceram as coisas que a gente preferia não ver: algumas latas esquecidas perto de uma das piscinas, uma caixa de som jogando funk numa travessia onde não havia mais ninguém do grupo. São lugares que ainda dependem muito de quem passa. Quando o acesso é livre e não há fiscal nem taxa nem estrutura, o lugar fica à mercê do bom senso coletivo, que é, como se sabe, uma aposta.
Chegamos de volta ao carro com os pés molhados e a fome acertando na conta do café da manhã. Voltamos para o Hotel da Vila, tomamos banho, arrumamos as malas devagar. Não havia mais nada para fazer em Vila Bela, o que é uma frase que carrega alguma tristeza quando você a pensa direito.
A viagem de volta para Cuiabá levou em torno de nove horas. A estrada cruza Pontes e Lacerda, depois desce para Cáceres, depois entra nas planícies até a capital. É uma estrada que cansa não pelo trânsito, mas pela extensão. Quem planeja explorar mais o Mato Grosso vai precisar aceitar esse ritmo como parte da viagem. Chegamos à madrugada. O voo saía às duas e cinquenta e cinco, com destino ao Rio.
Se pudesse mudar uma coisa, teria incluído uma noite em Cuiabá antes do embarque. Mas às nove e vinte da manhã, quando o avião cruzou a costa, o cansaço já havia perdido o argumento.
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