Quinto dia em Alter do Chão (PA): Floresta Nacional do Tapajós (FLONA)

Tempo de leitura: 9 minutos

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Despertamos um pouco mais tarde do que de costume — um cochilo que quase nos fez perder o horário. Mas a atmosfera tranquila de Alter do Chão permitiu que a manhã fosse suave. Tomamos nosso café na pousada, entre pães frescos, frutas regionais e aquele café forte que só o Norte sabe preparar. Em seguida, saímos direto para a orla, ansiosos para encontrar o grupo e dar início ao nosso quinto dia de descobertas.

Ao chegarmos à beira do rio, fomos recebidos por um clima pesado. O passeio de noite que havíamos planejado — a chamada Piracaia — havia sido cancelado. A justificativa, que parecia saída de uma novela amazônica, era de fato verdadeira: o guia relatou que um amigo dele, também guia local, morreu eletrocutado no dia anterior, e o falecimento abalou várias operações de turismo local. A notícia fez com que outros passeios também fossem cancelados ou suspensos por empatia, reverência ou simplesmente por falta de pessoal.

Esse início incerto deu ainda mais peso à escolha de hoje: mergulharmos na Floresta Nacional dos Tapajós (Flona), mais precisamente no trecho da Comunidade Jamaraquá, uma unidade de conservação com mais de 527 mil hectares, abrangendo municípios como Belterra.

Navegamos por pouco mais de uma hora pelo Rio Tapajós até chegar à Comunidade Jamaraquá. Esse é o ponto de partida clássico para os passeios que adentram a Flona Jamaraquá, dentro da Floresta Nacional do Tapajós.

Logo na chegada, fomos receber orientações: tivemos de escolher o almoço que seria servido no retorno, assinar o controle de acesso à unidade de conservação e encontrar nosso guia local. Para essa trilha, tornou-se obrigatório o uso de condutor local (guia autorizado), e nos informaram que o custo era de cerca de R$ 200 — valor a ser dividido entre até cinco pessoas.

O Nicolas estava bem inquieto nesse momento, e a ansiedade dele se espalhou entre nós. Então, já prevendo que essa parte inicial poderia ser mais difícil, respiramos fundo e tentamos contornar os ânimos com empatia, conversas e distrações.

A trilha que percorremos tinha extensão de 9,1 km, e o tempo estimado para concluí-la era de cerca de 4 horas. É comum nos roteiros da Flona Jamaraquá encontrarmos essa estrutura: longa caminhada, natureza densa e paradas para interpretação ambiental.

Nas placas que encontramos no percurso, estava indicado dificuldade moderada a difícil, por causa de subidas pontuais. Mas da nossa perspectiva, mais com a vivência do percurso do que pelas placas, grande parte do trajeto era relativamente plana ou com ondulações suaves. Os trechos técnicos eram raros — o maior desafio acabou sendo administrar o Nicolas no colo em várias partes do caminho.

Logo nos primeiros quilômetros, passamos por mata secundária, onde já se sentia calor, umidade e o ar pesado. Sentíamos o suor escorrer enquanto adentrávamos nesse trecho. Mas, conforme avançamos, entramos na mata primária: ali, tudo muda. O ar fica mais fresco, as sombras se fecham, e o silêncio da floresta — interrompido apenas por cantos de pássaros, insetos e o ranger ocasional de galhos — toma conta. Guias costumam destacar essa transição como uma das mais marcantes do percurso.

Durante a caminhada, fomos apresentando a diversas espécies nativas — o pequi azedo, cipó alho, quinino, entre outras. Aprendemos sobre seus usos medicinais, curiosidades e resistência na mata. Também cruzamos com formigas tapibas — cuja função curiosa, segundo o guia, é servir como repelente natural: colocamos a mão no formigueiro e depois esfregamos a pele, sentindo o efeito protetor.

No meio do caminho, o Nicolas cada vez mais pedia pela Samara. Em certas subidas, ele veio no meu colo — parte do caminho assim ficou mais lento. Mas o guia nos ajudou bastante com recursos lúdicos: usou uma flauta de bambu para distrair ou ambientar, fez com que interagíssemos com as árvores ou borboletas no entorno. Ele permitiu que Nicolas carregasse um galho leve em certa parte, para que ele se sentisse parte da trilha.

Também tivemos um momento de diversão espontânea: paramos em um trecho onde se estendiam cipós, e fizemos uma brincadeira estilo “Tarzan” — nos pendurando nas lianas, tentando deslizar no meio da mata. Com o Nicolas no colo, a tarefa ficou mais complexa, mas ele riu, se agarrou e percebeu que a aventura estava rolando ali, ali mesmo.

Quando já havíamos percorrido cerca de 4,5 km, chegamos até a Sumaúma — uma árvore gigante, reverenciada pela comunidade local como símbolo da floresta. Segundo nosso guia, essa árvore tem algo entre 300 e 400 anos de idade, e pode ultrapassar 50 metros de altura. Ele disse que, para abraçá-la completamente, seriam necessárias 25 pessoas abraçadas de mãos dadas. Também comentou que algumas partes da sua base lembram cabeças de elefante — uma imagem poética que nos encantou.

Nosso grupo se aproximou: tiramos fotos, fizemos orações e abraços simbólicos à árvore. O Nicolas adorava explorar a base, tocar suas raízes, sentir a rugosidade, arriscar um abraço. Emocionante ver como uma árvore pode tocar uma criança.

Poucos metros depois da Sumaúma encontramos um mirante com vista panorâmica da reserva e do Rio Tapajós. Ali, havia uma casa de apoio, usada por quem deseja pernoitar no interior da Flona. O guia comentou que, dali, se consegue um pôr do sol lindo — alguns roteiros de pernoite fazem a tal “Piracaia” justamente ali. A estrutura do local é modesta, mas afetiva: redes, local para fazer comida, banheiro rústico, comodidades simples para quem quer dormir sob a mata.

Com cerca de 6 km percorridos, chegamos a um trecho encantador: o Igarapé do Paulo. Ali, as águas são cristalinas, frias, e o verde da mata reflete nas margens, dando um tom esverdeado à água. É ponto alto do passeio para bons mergulhos e sensação de imersão total.

Existem dois pontos de entrada: um mais fundo, que exige certo cuidado; e outro rasinho, ideal para quem quer ir devagarinho. A proposta é que, se você nadar no trecho mais fundo, seguindo o fluxo, acaba chegando ao trecho rasinho em seguida — o percurso vira uma brincadeira aquática.

O guia nos disse que é permitido beber a água direto do igarapé (mas recomendam captar água acima da área de banho, mais afastado das margens). Também comentou que a nascente, que lembra um “fervedouro”, está a 4–5 km acima do ponto onde paramos — para chegar lá, seria necessário pernoitar, pois a trilha é mais difícil.

Nós mergulhamos, rimos, experimentamos a água fria como um descanso para corpo e mente. Foi o alívio perfeito para o calor amazônico.

Por volta de 14h, iniciamos a volta. Ainda restavam cerca de 3 km a percorrer, e o guia estimava algo em torno de uma hora de caminhada restante. A saída veio com uma subida que, para quem fez o percurso até ali, parecia desafiadora. Nesse momento, o Nicolas dormiu no canguru — trouxe alívio para nossos ombros por boa parte da subida.

Seguimos sem muitas pausas: era como se cada passo representasse a saudade que já se instalava. Quando chegamos à comunidade, olhamos para o relógio: a trilha total nos marcou 11,45 km percorridos em 4h28 (contando do momento que começamos, sem pausas prolongadas).

Com fome e alegria, paramos para almoçar na própria comunidade. Escolhemos tambaqui — prato bastante comum e apreciado na região amazônica. A refeição foi generosa, saborosa, e nossa melhor até então. O valor foi de R$ 50 por pessoa. Pedimos também uma jarra grande de suco de taperebá para dividir.

Enquanto almoçávamos, o rio lá fora murmurava e as sombras das árvores nos abraçavam. Conversávamos sobre o que acabáramos de viver, fotografias, resenhas mentais — aquele momento era uma celebração da vida e da Flona.

Depois do almoço, voltamos ao barco. O guia nos avisou: o vento havia aumentando, e as ondas estavam mais fortes. Optamos por uma parada estratégica na Praia do Maguari (a mesma que visitamos no dia anterior), para aguardar o vento diminuir e deixar o corpo digerir. Do outro lado do rio era possível vislumbrar trechos de chuva — nuvens escuras e densas que pareciam preparar uma tempestade discreta. Tomamos banho de rio, ficamos conversando e esperançando, e após uns vinte minutos retomamos o percurso.

Então veio a emoção: por quase uma hora inteira o barco bateu forte nas águas agitadas. Estivemos quase o tempo todo ensopados, as ondas batendo no casco e espirrando para dentro. Foi um trecho radical da viagem de retorno — uma mistura de adrenalina, risos e “me segura aí”.

Chegamos de volta à Ponta do Muretá, mas dessa vez escolhemos ficar do lado oposto para contemplar um ângulo novo do pôr do sol. Entramos na água, o Nicolas brincou na areia, voei o drone para capturar a cena lá de cima, e o Leandro, companheiro de rota, dedilhou algumas músicas no ukulele enquanto o sol se despedia no horizonte. Um cenário de cinema, sem exageros.

Depois, voltamos ao ponto de embarque, encerramos o passeio e rumamos para a pousada. Tomamos banho, descansamos por um instante, e nos arrumamos para sair ao centrinho de Alter — porque a noite pedia movimento, cultura e sabor.

Desde quinta-feira, o centrinho de Alter já estava mais vibrante: barraquinhas abertas nas ruas, restaurantes com mesas na calçada, mais vida e gente nas esquinas. Para o jantar optamos por uma barraca chamada Égua. Pedimos um salpicão com arroz e experimentamos vatapá de frango. Para surpresa nossa, o Nicolas gostou bastante (às vezes ele rejeita texturas novas).

Depois do jantar, fomos prestigiar o tradicional show de chorinho que acontece toda sexta-feira, há doze anos, na vila. Pagamos R$ 10 de couvert artístico por pessoa, e o espetáculo superou expectativas: músicos locais tocando com alma, sambas, choros e risos compartilhados. O Nicolas, embalado pela música, ficou encantado por um tempo — até que o cansaço o venceu, e ele adormeceu nos braços. Voltamos tranquilamente para a pousada, embalados pela lembrança do dia intenso e pleno.

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