Terceiro dia em Alter do Chão (PA): Canal do Jari

Tempo de leitura: 9 minutos

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Nós acordamos cedo, ainda meio grogues da energia acumulada dos dois primeiros dias, mas com muita expectativa para o terceiro dia em Alter do Chão. Às 7h30 estávamos na pousada, reunindo as mochilas, preparando a garrafinha de água, protetor solar e repelente — itens que já tinham virado parte da nossa “essência” na viagem — e descemos para o café da manhã. Nesse momento, envoltos pela calmaria da vila ribeirinha, parecia que todo mundo já começava a sintonizar no ritmo amazônico.

Enquanto comíamos, o Nicolas estava entretido com umas pedrinhas perto do chão da pousada — até que, distraído, caiu numa vala estreita e arranhou os dois lados do rosto. Teve machucadinhos que nos arrancaram um susto: limpamos, aplicamos o que tínhamos — alguns curativos básicos — e, apesar de ele estar assustado, seguiu firme. A rotina de quem viaja com criança: pequenos desvios, adaptações, mas a determinação de seguir o passeio no coração.

Logo cedo, às 8h50, deixamos a pousada e caminhamos até a orla de Alter até o ponto de embarque — o mesmo que usamos no dia anterior. Lá encontramos o restante do grupo, já animado. Subimos no barco — era uma embarcação típica de turismo fluvial — e zarpamos rio adentro, pelo Tapajós, por uns 40 minutos de navegação calma, com horizonte que alternava entre mata, igarapés e pequenas comunidades ribeirinhas.

Nossa primeira parada foi a Trilha das Preguiças. Ao descer do barco, fomos recepcionados por macacos-de-mão-amarela — ágeis, curiosos, já acostumados com visitantes. Eles vinham aos poucos, se aproximando com uma mescla de timidez e audácia. Entramos numa pequena loja de artesanato perto do local de saída da trilha para aguardar nossa guia, Rosângela, que viria nos acompanhar com sua experiência local.

Rosângela começou contando sobre a fauna e a flora ao redor: falou de espécies de árvores centenárias, de fungos, de lianas que se entrelaçam sobre galhos e cipós, e de como em outras épocas do ano aquela trilha é navegável de canoa — mas que, por conta da pouca chuva deste mês, o canal secou antes do previsto, tornando-se uma trilha a pé. Somos gratos pelo esforço dos guias que se adaptam às condições naturais.

Durante a caminhada silenciosa, sentimos a floresta falar: o canto dos pássaros — tucanos, martins-pescadores, garças distantes — se misturava ao farfalhar das folhas. Vimos árvores frondosas, algumas com troncos largos, outras cobertas por bromélias e orquídeas discretas. Quase conseguimos imaginar uma preguiça ali, pendurada entre galhos, mas ela parece que dormiu em protesto — nenhuma apareceu. Brincamos dizendo que “elas ficaram com preguiça de aparecer”.

Quando finalizamos a trilha, pagamos a taxa local de R$ 30 por pessoa (prática comum em roteiros locais para conservação) e alguns macaquinhos ainda vieram interagir mais: pulavam nos ombros, espiavam caprichosamente nossas câmeras e bolsas. Foi uma entrega de si da natureza, um momento de alta doação entre ser humano e mata.

Retornamos ao barco e seguimos para o Canal do Jari — um braço de água mais fechado, de navegação mais lenta, margeado por palafitas, árvores alagadas e paisagens que parecem de livro de ecologia. Observamos palafitas ao longo do percurso, comunidades ribeirinhas que criavam gado nas margens, estabelecimentos locais e até pequenas roças de hortaliças nas encostas. Tudo ali parece existir em harmonia — delicada, mas concreta.

Chegamos ao local conhecido como Jardim de Vitória-régias da Dona Dulce. Havia menos vitórias-régias do que esperávamos — o guia explicou que ela plantou poucas neste ano, e muitas foram devoradas por peixes-boi que circulam por aquelas águas rasas. A própria fragilidade da planta aquática, combinada à fauna local, faz desse jardim um ecossistema vulnerável.

Ainda assim, ficamos impressionados com as poucas flores que restaram — pétalas delicadas flutuando sobre a lâmina d’água, em meio a folhas largas e verdes. Foi nesse momento que a equipe do passeio nos ofertou uma degustação local elaborada com partes da vitória-régia: brownie, rabanada, chips e outras iguarias preparadas com criatividade amazônica. O sabor surpreendeu: leve, floral, distinto. Também custou R$ 30 por pessoa, valor que consideramos justo para essa imersão sensorial.

Seguimos navegando de volta pelo Tapajós até quase Santarém. Quando avistamos o porto e a cidade, o cenário urbano se misturou ao natural: torres, galpões, a vida humana se encontrando com o rio. Nos aproximamos do ponto do Encontro das Águas — aquele fenômeno fascinante em que as águas escuras do Amazonas e as águas mais claras do Tapajós coexistem sem se misturar imediatamente, por diferenças de densidade, velocidade e pH.

Paramos por um tempo nesse ponto. Alguns do grupo aproveitaram para se banhar nas águas — sentir a diferença de textura, coloração e temperatura entre os rios foi curioso. Mesmo tendo ficado só alguns minutos, foi um momento contemplativo: observar as duas correntes paralelas, correr pelos remansos, refletir sobre esse gigante da natureza.

Depois, voltamos até a orla de Santarém, paramos em frente ao mercado de peixes — local movimentado onde pescadores arremessavam iscas ligadas a cordas para atrair botos que buscam alimento. Vimos vários tentando capturar aquela “isca viva” — espetáculo curioso e instigante da interface entre cidade, rio e vida silvestre.

Em seguida, navegamos até a Praia do Ararirá — relativamente próxima de Santarém. Segundo o guia, costuma ser bastante cheia, mas naquele dia estava deserta, serena. Nicolas se esbaldou nas águas calmas e brincou na areia enquanto tentávamos operar o drone — mas desistimos: a proximidade do aeroporto tornava a operação arriscada.

Quando a fome bateu forte, paramos na Casa do Saulo. O restaurante é “chique diferente” — combina ambientação ribeirinha com bom padrão, elevado para a realidade local. Pedimos petiscos regionais. A conta saiu por R$ 112, valor que refletiu a localização, o ambiente e a origem dos ingredientes. No restaurante havia piscina (liberada para clientes), parquinho infantil, vistas para o rio e até instalações de hotelaria. Aproveitamos para descansar, organizar fotos e curtir a calmaria. Essa pausa foi essencial para recuperar fôlego — o calor amazônico consome energia rápido.

Voltamos ao barco às 16h para seguir o roteiro da tarde. Paramos na Praia do Tapari, que solícita nos ofereceu águas tranquilas. Nicolas se soltou: com o colete salva-vidas, ficou nadando com alegria, exigindo que ficássemos um pouco mais. A água serena parecia um convite: nos permitimos uns 25 minutos ali, sem pressa, deixando o tempo fluir.

Apesar do plano inicial de parar em Ponta de Pedras — uma praia famosa e charmosa — decidimos apenas fazer uma passagem panorâmica. Ela estava mais cheia do que esperávamos, e queríamos um momento mais reservado. Então seguimos.

A última parada oficial foi na Praia do Cururu — chamada assim por causa da presença de muitos sapos cururus ali. Chegamos cedo, o que nos permitiu ficar longe do burburinho da ponta, onde um grupo animado fazia música alta. Preferimos nos posicionar mais para dentro, onde o silêncio se impunha. Banho de rio, conversa mansa e contemplação serviram de prelúdio para o pôr do sol.

O espetáculo foi mágico: o céu se tingiu de dourado e laranja, o reflexo se estendeu sobre as águas calmas e as margens pareciam silhuetas pintadas. A brisa fresca e o calor que ainda restava se resignaram em equilíbrio.

De volta ao centro, sabores amazônicos e boa noite

Às 19h desembarcamos no centro de Alter do Chão. Sentimos que a viagem já corria para um encerramento do dia longo, mas queríamos prolongar a experiência. Caminhamos por ruas rústicas, iluminadas discretamente, até as barraquinhas de comida local. Jantamos maniçoba — prato denso amazônico que lembrou um “feijão especial” para o Nicolas — salpicão leve e experimentamos tacacá, que não caiu tão bem para nosso paladar, mas que valeu pela ousadia. A conta: R$ 21.

Ainda tínhamos ânimo para sobremesa: fomos ao Boto (uma sorveteria local cool). Escolhemos sabores típicos como cumaru e castanha (castafeu) e, por R$ 20 um pote médio, conseguimos dividir bem entre nós. Sorvete amazônico que conforta.

Voltamos para a pousada e fizemos um mingau para o Nicolas — uma das razões de termos escolhido aquela hospedagem era justamente a presença de cozinha, que nos dá autonomia para cuidar da alimentação dele. Ele jantou, dormiu de leve, e nós — ainda com o sabor do dia nos sentidos — nos preparamos para cair no sono.

Esse terceiro dia nos mostrou uma Amazônia que se revela devagar: por entre trilhas silenciosas, reflexos aquáticos, cardápios insólitos e encontros com fauna curiosa. Foi um dia denso, com muitos deslocamentos, paradas, emoções e adaptações — afinal, nem sempre tudo sai exatamente como no roteiro ideal. Mas justamente nas pequenas variações — na quantidade de vitórias-régias, na ausência de preguiças, nas decisões de parar ou não em praias superlotadas — mora a magia de uma viagem real.

Reconhecemos que muitos dos roteiros pelo Canal do Jari são vendidos como excursões de cerca de 8 horas, saindo de Alter do Chão, com possibilidade de observar macacos, pássaros, iguanas, jacarés e até preguiças.

Também vimos que o passeio é considerado um dos mais procurados na região — “vale a pena” dizem muitos blogs e guias — justamente pela imersão em natureza e comunidades ribeirinhas.

O Encontro das Águas, por sua vez, é cartão-postal de Santarém, visível a partir da margem e também em passeios de barco.

Sentimos que esse dia é daqueles para marcar no mapa da memória: não pela exaustão, mas pela amplitude de sentidos que foram explorados. Dormimos exaustos, no entanto satisfeitos: amanhã há mais.

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