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Acordamos cedo com o som distante do vento mexendo nas palhas das árvores e a expectativa do que viria. Começamos o dia com uma caminhada pela Trilha do Tamandaré, uma trilha curta porém cheia de significado — é um trecho do Parque Estadual de Itaúnas que leva à Casa do Tamandaré, a única construção da antiga vila que não foi soterrada pelas dunas.
Com fome, voltamos ao vilarejo fomos ao Restaurante da Dona Thereza. Pedimos com calma, conversamos, rimos do tanto que a gente ia pedir. Quando a comida chegou, ficou claro: valeu cada centavo. Porções generosas, sabor caseiro bem equilibrado, aquele “quebra-galho” perfeito para quem quer recarregar sem exageros. Saímos de lá satisfeitos, com energia pra seguir o dia.
De volta à pousada, fizemos uma parada rápida para abastecer nossa garrafinha com água fresca e deixar algumas coisas — protetor solar, chapéu, mochila — prontas para o passeio de canoa. Era como preparar o quartel general antes de entrar em missão.
Antes de irmos ao encontro do guia, cruzamos até a praça central da vila para ver de dia o que só tínhamos visto à noite: a Igreja de São Sebastião e o famoso tronco de pequi-vinagreiro, que tem cerca de 200 anos e é um dos símbolos de Itaúnas. O tronco enorme se destaca entre as construções modestas ao redor, como uma lembrança viva do tempo que passou, memória marcada nas ruas de areia da vila. A igreja, simples, mas com charme rústico, completa o cenário calmo da praça.
Ver aquilo sob a luz diurna nos deu uma sensação diferente: a rusticidade se une à força da história local. Aliás, toda Itaúnas parece carregada dessas camadas: natureza, memória, cultura. E sabíamos que nosso próximo passo nos levaria a essa interseção entre rio e história.
Logo em seguida, encontramos o guia e caminhamos até a margem do rio onde a canoa nos aguardava. O céu estava limpo, com poucas nuvens; o sol brilhava gentilmente, anunciando que estávamos bem no limiar entre o calor leve e o frescor da água.
Assim que nos acomodamos na canoa, com os remos prontos, partimos. Começamos subindo o Rio Itaúnas, ou melhor: seguindo contra a correnteza, deslizando entre margens cobertas de vegetação ribeirinha, encostas suaves e renques de árvores baixas alternando com vegetação de restinga. O rio, aqui, parecia uma veia tranquila da natureza, conectando ecossistemas.
É bom lembrar: o rio Itaúnas nasce na divisa entre o Espírito Santo e Minas Gerais e vai até sua foz em Conceição da Barra. Ao longo de parte de seu trecho ele atravessa o Parque Estadual de Itaúnas, unidade de conservação que protege dunas, manguezais, alagados e mata atlântica do litoral norte capixaba. Essa condição faz do rio um espaço rico para ecoturismo, especialmente por meio de remadas guiadas.
Durante o percurso, o guia nos explicou sobre a fauna local (aves de mangue, jacus, garças) e sobre a flora que se adaptou ao ambiente ribeirinho. A água calma refletia o céu e as árvores, laminando o cenário — às vezes víamos peixes nadando perto da superfície ou pequenas garças escuras se movendo nas margens. A sensação era de flutuar entre silêncios pontuados por cantos de pássaros ou o farfalhar das folhas.
Quando chegamos à Ilha Domingos, pensamos em parar para um mergulho refrescante. Ilha Domingos é uma pequena ilha dentro do rio, uma “bolsinha” de terra surgida na calha, muitos passeios param lá para banhos, piqueniques, contemplação. Porém, decidimos seguir o percurso, motivados pela curiosidade de ver até onde esse rio nos levaria.
O ritmo da canoa era pulsado: remadas sincronizadas, momentos de silêncio para contemplar, explicações do guia e aquele delicioso balanço que envolve o corpo. A cada curva, surgia uma nova paisagem: ramos de árvores estendidos sobre o leito, sombras, clareiras, trechos de sol nas águas. Em silêncio, quase em transe, sentimos a presença intensa da natureza ao redor.
Estávamos nos aproximando da confluência com o Rio Angelim, ponto em que os passeios fazem uma incursão terrestre (trilha) ou de retorno. Nosso plano inicial era desembarcar e fazer uma trilha por Angelim antes de voltar. Mas o tempo mudou rápido, como quem vira a página do céu.
Em apenas vinte minutos, nuvens densas e carregadas cobriram o céu. Trovoadas começaram a ecoar no horizonte, o vento ficou mais ameaçador. O guia fez sinal: melhor voltar. Estávamos já bem próximos do ponto de retorno, então decidimos voltar. Foi decisão acertada: pouco depois, caiu uma chuva torrencial, com raios e descargas elétricas, ou seja, nadar não era uma opção segura.
Quando a chuva começou, nós pegamos os remos com força e descemos o rio o mais rápido que podíamos. Foi adrenalina pura: remar em meio ao aguaceiro, entre o breu e o eco dos trovões, com a preocupação de manter a estabilidade da canoa. Mas também foi emocionante: sentir a força do tempo, a urgência da natureza em lembrar quem comanda.
Conseguimos chegar à margem antes de o temporal se intensificar demais. Graças à nossa decisão e ao guia atento, não nos arriscamos. Foi o tipo de episódio que se torna história viva: não foi só o passeio idealizado, mas aquele tempero imprevisível que marca a memória.
Voltamos à pousada ensopados, cansados, sujos de poeira da trilha e respingo de rio. Tomamos o banho mais delicioso e saímos renovados, prontos para curtir a noite. Para jantar, fomos de Restaurante Xique Xique. Escolhemos com cuidado: queríamos algo especial para encerrar o dia. Pedimos uma moqueca capixaba de banana (versão leve, saborosa) e um risoto de limão com picanha suína (combinação ousada, mas surpreendente). Para acompanhar: soda italiana de framboesa — refrescante, doce na medida certa. Pagamos R$ 157 no total, e podemos dizer que foi a melhor refeição até então: cada garfada teve textura, sabor e leveza.
Com o estômago feliz, fomos dar um pulinho no Forró da Padaria. Tocou pé de serra, mesas ao ar livre, vozes, sanfona. Dançamos um pouco, porque o Nicolas já começou a bocejar e pedir pra ir embora. Então encerramos com sorrisos e passos lentos.
Voltamos à pousada, calmos, e nos preparamos para dormir. Tínhamos esgotado o momento sem exagero: aventuras, imprevistos, boas comidas e música.
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