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Nosso sétimo dia em Alter do Chão foi marcado por uma imersão profunda — não apenas na mata e nas águas, mas também nos saberes ancestrais e na conexão humana. Foi um dia de turismo de cura, de trocas silenciosas e de emoção. Vamos relatar tudo como vivemos, do nascer ao dormir, para que vocês sintam um pouco desse encanto junto com a gente.
Acordamos ainda com a brisa leve da noite amazônica invadindo a pousada. Tomamos um café da manhã farto — pão caseiro, suco, frutas da região — como quem se prepara para algo mais do que um simples passeio. Sabíamos que o dia seria especial.
Logo cedo, fomos ao cais para encontrar nosso grupo: outro casal com seu filho, quase da idade do Nicolas. A leve ansiedade de quem vai conhecer algo profundo já começou a se acomodar no corpo — há expectativa, mas também aquela sensação de entrega.
A partir do Rio Tapajós navegamos cerca de 1h30 até alcançarmos a Costa do Macaco, já no Rio Arapiuns. O rio estava calmo, refletindo o céu e a vegetação ao redor, e a viagem fluiu lenta e segura — um prelúdio sutil para o que viria.
Ao chegarmos à margem, fomos recebidos pelos moradores locais. Eles nos guiaram até a Trilha do Breu Branco, nome que homenageia uma árvore abundante naquelas matas. A trilha tem cerca de 950 metros — e embora não seja longa, exigiu nosso ritmo delicado.
Parte do percurso era “fechado”, mas não densamente embaraçada — a mata não estava altíssima, o que gerou calor e umidade, abafando o ambiente. Caminhamos com calma, apreciando o cheiro úmido da terra, os verdes intensos das folhas, o canto distante de pequenos pássaros. Em aproximadamente 38 minutos chegamos ao fim da trilha, desafiando subidas e descidas e revezando o passo: por vezes carregando o Nicolas no colo, outras deixando-o andar por conta própria.
No fim do trajeto, havia uma canoa nos esperando. Em silêncio, embarcamos para um passeio leve pelo Lago Azul — deslizamos sobre águas claras e tranquilas, sob uma luz dourada que parecia favorecer a contemplação.
Ali chegamos a uma prainha discreta, ideal para banho. Foi um momento de pausa, de entrega ao elemento água.
Chegando à prainha, a guia convidou a Samara para começar a ritual de cura local. Primeiro veio a puxada de mãe — uma massagem longa de cerca de 40 minutos, feita com óleo extraído das plantas da floresta. Eles são feitos com óleos extraídos localmente (como óleo de piquiá, entre outros) e seguidos de banho de ervas, que é mantido como segredo pelas moradoras, mas que expõe identidade cultural. Essa técnica tradicional, mantida pelas comunidades ribeirinhas como um saber ancestral, costuma ser valorizada como uma forma de aliviar tensões físicas e energéticas.
Depois dessa fase corporal, veio o chá de segredo, preparado com ervas próprias da região, seguido de banho de ervas medicinais — finalizando com água do rio, que simboliza uma espécie de purificação. Enquanto isso, eu ficava com o Nicolas, brincando na água, observando pequenos peixinhos passarem e sentindo o calor suave do sol que ainda insistia em nos acompanhar. E, depois, chegou a minha vez de passar pelo ritual.
Esse momento de cura parecia suspender o tempo. As mãos firmes e ao mesmo tempo gentis da guia, o aroma das folhas, o frescor do rio: tudo conspirava para nos colocar em presença, no momento.
Esses rituais fazem parte da proposta do Turismo de Cura da região da Costa do Macaco, praticados por moradoras como Nete e Elenira nas comunidades às margens do Arapiuns.
Depois da cura, seguimos em mais trilha pelos bosques, aproximadamente 40 minutos, até chegarmos à Comunidade Arimum. Era visível o cuidado local: uma mesa posta com carinho, pratos caseiros e cores da Amazônia em cada detalhe.
A comunidade de Arimum é uma das vilas ribeirinhas que vêm se abrindo para esse tipo de turismo cultural e de cura. Embora ainda mantida como ponto mais reservado que outras comunidades mais frequentadas, Arimum faz parte dessa rede de trocas e acolhimento.
O almoço foi generoso e essencial: arroz, macarrão, feijão, farofa, vinagrete… e para elevar, peixe (surubim, tambaqui) e galinha caipira. Bebemos suco de acerola, suco de limão — sabores frescos que pareciam preparados para lavar o paladar. Enquanto nos servíamos, os moradores entoaram uma canção dedicada a nós, e sentimos esse momento como estético e também profundamente afetivo.
Após o almoço, nos entregamos ao descanso: redes, sussurros do rio, silêncio confortável. Logo, fomos ao igarapé próximo. A água estava morna por cima — aquecida pelo sol — e gelada por baixo — como se fosse uma dança térmica. O Nicolas adorou: entrou e saiu, submergiu, riu. E então nos ofereceram uma fruta local chamada miri — doce, suave, desconhecida para nós até então — que devoramos com curiosidade e prazer.
Esse tipo de recepção pela comunidade de Arimum já é prática presente no turismo comunitário da região, que busca valorizar costumes locais e promover trocas culturais com visitantes.
Após o banho, fomos conduzidos à oficina de artesanato local. Primeiro nos mostraram como preparam a palha de tucumã, uma matéria-prima amazônica que exige delicadeza e técnica. Em seguida, nos ensinaram o processo de tingimento usando pigmentos naturais, elementos vegetais, sais e calor controlado.
Fizeram demonstrações dos movimentos exatos — curvas, dobras, amarrações — para que pudéssemos criar arte com nossas mãos. A Samara se aventurou com afinco; eu — mais focado no Nicolas — acompanhei de forma mais leve, mostrando-lhe as galinhas que circulavam, apontando macacos que apareciam nas árvores próximas.
Cada gesto parecia ter peso: estávamos tocando cultura viva, não um espetáculo encenado. Era prática transmitida de geração a geração, aqui, ali, entre os ribeirinhos.
Esse tipo de oficina compõe o roteiro oficial de Turismo de Cura da Pérola Ecotour — após o artesanato, algumas versões do roteiro ainda incluem a farinhada — mas isso depende da programação do dia.
Com a oficina encerrada, embarcamos novamente no barco e navegamos por cerca de 1 hora rumo à Ponta do Cururu, ponto conhecido por oferecer vistas incríveis do pôr do sol. Como era fim de semana, o local estava mais movimentado — barcos tocando música, casais, famílias — mas ainda assim o espetáculo natural se impôs.
Ficamos ali, com vista privilegiada, e o Nicolas se esbaldou na água enquanto o céu tingia-se de laranja e dourado. Em cada segundo, o sol parecia desacelerar, permitindo que víssemos as cores evoluindo — no reflexo da água, nas nuvens altas, nas margens distantes.
Esse momento é quase obrigatório nos roteiros de Alter: o pôr do sol no Tapajós ou no Arapiuns é parte da liturgia amazônica, uma cena contemplativa que nos conferiu sentidos mais amplos.
Terminada a navegação, voltamos à vila de Alter, chegamos à pousada, tomamos banho e nos arrumamos para sair à noite.
Para jantar, escolhemos o Ty Comedoria, restaurante local com identidade amazônica forte. Pedimos uma coxinha de frango com jambu e geleia de abacaxi com pimenta — fusão regional que surpreende — e também nhoque de banana-da-terra. Acompanhamos tudo com um refrigerante de maracujá feito por eles — um toque autoral.
Depois, fomos à sorveteria Boto, referência local em sorvetes amazônicos. Escolhemos os sabores Pérola do Tapajós e Cupuaçu com brigadeiro — sorvetes cremosos, intensos, que pareciam trazer o sabor da floresta e do rio numa casquinha.
Voltamos para a pousada exaustos, mas felizes. Juntos, adormecemos — eu, sem querer me desfazer do dia, até dormi com meus óculos, junto ao Nicolas.
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