Pedra da Gávea: a trilha mais desafiadora do Rio de Janeiro

Tempo de leitura: 11 minutos

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A Pedra da Gávea sempre esteve entre aquelas trilhas que eu sabia que, em algum momento da vida, precisaria fazer. Não pela fama, não apenas pela vista. Mas porque existe uma espécie de respeito coletivo em torno dela que é difícil de explicar. Toda pessoa que já subiu fala da montanha de um jeito diferente — com uma mistura de orgulho e cautela que você não encontra em outros lugares. Agora eu entendo perfeitamente o motivo.

Chegamos cedo, por volta das oito da manhã, no final da Estrada do Sorimã, onde fica a entrada do setor do Parque Nacional da Tijuca que dá acesso à Pedra da Gávea e à Pedra Bonita. Antes de iniciar, fui encontrar o Michel Nicolai — meu guia naquele dia — no Ponto da Meire, um daqueles apoios de trilha que parecem simples mas fazem toda a diferença numa jornada longa. Ali tem banheiro, espaço pra tomar café da manhã e algumas vagas para estacionar. Como era dia de semana e eu estava cedo, não tive problema nenhum. Mas ouvi de outros trilheiros que no fim de semana estacionar por ali vira quase uma segunda aventura antes da trilha em si.

Depois de assinar a entrada do parque, começamos.

O início engana. A subida já é constante desde os primeiros metros, mas acontece protegida pela mata da Floresta da Tijuca — um corredor verde, úmido, abafado, que amortece tanto o esforço quanto a percepção de onde você está indo. O chão é formado por pedras antigas, assentadas há décadas, provavelmente do tempo em que aquela região servia de acesso para propriedades rurais e estruturas da montanha que poucos sabem que existiram. O Michel ia comentando sobre isso durante a caminhada: em alguns pontos, é possível ver ruínas escondidas entre as raízes, vestígios de um passado que a mata foi engolindo devagar e que quase ninguém repara.

Logo surgiu a primeira bifurcação importante: um caminho segue para a Cachoeira do Sorimã; o outro sobe em direção ao cume. Decidimos guardar a cachoeira para a volta. Seguimos montanha acima.

Pouco depois, uma segunda divisão — desta vez entre as variantes técnicas da montanha. Um dos caminhos levava para a Garganta do Céu, travessia mais exposta e menos frequentada. O outro seguia pela rota clássica, passando pela Carrasqueira. Ficamos no tradicional.

A trilha foi mudando de personalidade aos poucos, como se a montanha estivesse nos testando antes de mostrar o que realmente tinha.

Passamos pela Pedra do Navio, uma formação rochosa enorme que cria uma espécie de abrigo natural no meio da floresta — um desses lugares que te fazem parar só pra olhar. Depois viemos parar na Geladeira, e o nome não poderia ser mais preciso. A mata fecha, a temperatura cai alguns graus de repente e um pequeno córrego desce pela encosta. Depois do calor da subida, aquilo é quase medicinal. Molhamos o rosto, os braços, bebemos água e ficamos alguns minutos ali sem pressa nenhuma.

Até aquele ponto, apesar do esforço físico, ainda era — tecnicamente — “uma trilha pesada”.

A partir dali, a Pedra da Gávea começa a mostrar quem ela é de verdade.

A inclinação aumenta. Aparecem correntes fixadas na rocha, tábuas de madeira em alguns pontos críticos e trechos em que caminhar deixa de ser uma opção. Você usa as mãos o tempo inteiro. O corpo precisa pensar a cada apoio: onde colocar o pé, onde agarrar, o quanto confiar naquele galho ou naquela raiz que está ali há anos mas que ainda assim você olha duas vezes antes de usar.

Antes da parte mais exposta da montanha, chegamos à Praça da Bandeira — um largo famoso que conecta também a trilha da Pedra Bonita e funciona como ponto clássico de descanso. Paramos ali pra comer e hidratar. O nome carrega história: era o ponto de encontro dos antigos grupos de montanhistas que usavam aquele espaço antes da subida final. Faz sentido quando você está ali — o lugar tem uma certa quietude que não se explica só pela sombra ou pelo vento.

Continuamos até o Mirante da Laje.

A mata se abre parcialmente e o Rio de Janeiro começa a aparecer aos poucos entre as formações rochosas. É a primeira recompensa visual da trilha, e ela já é considerável — mas ainda não é nada perto do que está por vir.

A verdadeira mudança acontece quando você chega na Carrasqueira.

Eu já fiz muitas trilhas na vida. Muitas mesmo. Já encarei escalaminhadas, travessias longas, montanhas com reputação difícil. Mas honestamente: a Carrasqueira foi uma das experiências mais psicológicas que já vivi num percurso de trilha. E acho importante dizer isso com todas as letras, porque muita gente na internet tenta simplificar demais esse trecho — e isso me parece um erro.

Ali existe uma via de escalada técnica usada por escaladores com equipamento completo. Logo ao lado fica o trecho onde trilheiros sobem usando apenas os apoios naturais da rocha, o que ficou popularmente conhecido como “a Carrasqueira”. O problema não é a dificuldade física em si. É a exposição. Você já está muito alto na montanha, e o vazio atrás de você é permanente, constante, sem pausa. Em vários momentos a sensação é de que qualquer descuido pequeno pode virar um problema que não tem como desfazer.

E aí entrou uma variável que eu não esperava com tanta força.

Talvez há alguns anos eu encarasse aquilo como adrenalina pura. Hoje foi diferente. Hoje eu tenho um filho pequeno. A Samara está grávida. Existe responsabilidade. Existe quem me espera voltar. E em vários trechos da Carrasqueira, enquanto buscava o próximo apoio na rocha, eu pensava não só em mim — mas em quem está do outro lado dessa história.

Mesmo com experiência em trilha, aquilo mexeu comigo de um jeito que eu não estava completamente preparado.

O Michel foi fundamental naquela hora. Ia indicando exatamente onde colocar o pé, como movimentar o corpo, qual linha seguir na rocha, como distribuir o peso. Ao nosso lado, algumas pessoas subiam com corda — e eu entendi perfeitamente quem faz essa escolha. Não é fraqueza. É consciência.

A Carrasqueira não é brincadeira.

Depois dela, a trilha segue por grandes lajes expostas, praticamente sem sombra, com o sol batendo direto. O calor aumenta bastante. E é nessa parte que passamos pelo Portal de Agartha — um dos pontos mais curiosos da Pedra da Gávea, ligado às histórias místicas que cercam a montanha há séculos. Existem teorias sobre inscrições antigas na rocha, lendas envolvendo civilizações perdidas e interpretações esotéricas sobre a energia do lugar. A ciência atribui as marcas visíveis na pedra à erosão natural — mas isso nunca foi suficiente para frear a imaginação popular, e honestamente, numa montanha com essa presença, a gente entende.

Depois de muito esforço, chegamos à parte superior.

Ali se abrem diferentes possibilidades de roteiro. A Pedra da Gávea “completa” inclui variantes técnicas como a Garganta do Céu, o Pico dos Quatro e a Orelha do Imperador — onde fica o tradicional livro de assinaturas dos montanhistas. Nossa ideia inicial era fazer o percurso completo, com descida por uma variante diferente. Mas naquele momento meu corpo já sinalizava claramente que não era hora de empurrar mais. E isso também faz parte da montanha: saber ler os sinais. Decidimos seguir pela rota clássica, sem culpa.

Fomos em direção à Cabeça do Imperador. Para chegar até lá, ainda foi preciso descer uma parede inclinada com correntes — bastante vertical, exigindo confiança total no próprio peso. Você projeta o corpo para trás e controla a descida pelos braços. Ao pé dessa descida, uma grande fenda na rocha se abre com vista para a Barra da Tijuca. E dali seguimos para o topo de verdade.

Os 844 metros de altitude.

A Pedra da Gávea é considerada um dos maiores monólitos litorâneos do planeta — uma formação gigantesca de granito e gnaisse que cai quase verticalmente em direção ao oceano. Olhando de baixo, a pedra final do cume parece simples. Mas minhas pernas já não eram as mesmas do início da manhã. Existe um pequeno vão antes dela e eu optei por não arriscar. O Michel montou uma segurança com corda. Subi assim.

Quando alcancei o topo, não veio euforia.

Veio contemplação.

O Rio de Janeiro inteiro parecia se abrir abaixo dos meus pés num silêncio que não combinava com o esforço que custou chegar ali. Aquele tipo de silêncio que só algumas montanhas sabem produzir.

Depois fomos até a Cadeirinha — talvez o ponto mais fotografado da Gávea, onde você senta literalmente na beira do abismo. É bonito, sem dúvida. Mas também é extremamente exposto, e eu fiz com bastante cautela. Logo abaixo dali fica uma das saídas de rapel mais famosas do Rio, com cerca de 150 metros de parede. Só observar já impressiona.

Voltamos em direção ao Platô.

A vista naquele dia estava absurda. São Conrado, Barra da Tijuca, Morro Dois Irmãos, grande parte da Floresta da Tijuca, a Serra dos Órgãos e, no horizonte, Ilha Grande. A visibilidade estava perfeita. É, na minha opinião, a vista mais bonita entre todas as trilhas da cidade do Rio de Janeiro. Ficamos um bom tempo ali, gravando, fotografando, simplesmente olhando. Em algum momento, um rapaz de outro grupo pediu a namorada em casamento bem perto de onde estávamos. Todo mundo ao redor vibrou junto como se fossem conhecidos de anos. Foi uma daquelas cenas espontâneas que ninguém planeja mas que acabam ficando tão gravadas na memória quanto o próprio cume.

Mas ainda faltava descer.

E foi na descida que meu sofrimento começou de verdade.

Logo nos primeiros metros bati o dedão do pé esquerdo numa pedra. A unha foi ficando roxa ali mesmo, e a partir daí cada passo passou a cobrar um preço. Minha bota não ajudou muito nas descidas mais inclinadas. Se existe um conselho que eu daria a qualquer pessoa que pretende fazer a Pedra da Gávea, é simples: escolha muito bem o calçado. Não é detalhe. É a diferença entre descer caminhando e descer sofrendo.

Na Carrasqueira, em vez de descer escalaminhando, o Michel montou o equipamento e fizemos um rapel pela parede da montanha. Descer verticalmente assim, com a floresta lá embaixo se abrindo em perspectiva e a dimensão real da pedra se revelando ao seu lado, é uma experiência completamente diferente de subir pelo mesmo ponto. Vale muito.

Depois do rapel, continuamos até o Paredão — mais um trecho exposto usado para as fotos clássicas da trilha, com um visual que compensa o frio na barriga — e seguimos descendo pelo mesmo caminho da subida até chegar novamente à bifurcação da Cachoeira do Sorimã.

E ali eu resolvi encerrar o dia da única forma que fazia sentido.

Entrei na água gelada sem pensar duas vezes.

Depois de horas de calor, poeira, esforço físico e um dedão roxo, aquele banho tinha qualidade terapêutica. Enquanto descansávamos, vários macacos-prego circulavam pela mata ao redor, ocupados com jaca caída no chão, completamente alheios à nossa presença. Um daqueles momentos simples que acabam ficando tão marcados na memória quanto o próprio cume.

No total, foram cerca de oito horas de trilha. Feitas com calma, sem pressa, respeitando cada trecho da montanha e o ritmo do nosso dia.

Saí da Pedra da Gávea diferente do que entrei. Não foi apenas uma trilha bonita. Não foi apenas uma conquista física. Foi uma montanha que me fez pensar sobre coragem, sobre responsabilidade, sobre maturidade, sobre onde ficam os limites — e sobre o quanto esses limites mudam conforme a vida vai crescendo ao nosso redor.

Talvez seja exatamente isso que torna a Gávea inesquecível. Ela não te deixa subir no piloto automático. Em algum ponto do caminho, ela te obriga a pensar.

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