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Este foi um dia que encapsulou tudo o que o Jalapão tem de mais mágico: águas translúcidas, paisagens que desafiam a imaginação e a sensação de que estamos em um lugar onde a natureza ainda dita as regras.
Acordamos às 7h, mais tarde que nos dias anteriores, e o silêncio na pousada já nos indicava que estávamos entre os últimos a partir. Enquanto tomávamos nosso café da manhã, rodeados pelo cerrado que se estendia além das janelas, sentimos uma calma peculiar — como se o Jalapão nos sussurrasse que o dia reservava surpresas em ritmo próprio.
Saimos às 8h em direção à Cachoeira do Formiga, mas não sem antes uma parada estratégica na Cabana da Jane, um pequeno comércio local que é um verdadeiro tesouro para levar lembranças autênticas do Jalapão. Jane, uma artesã da região, vende desde capas de almofadas feitas com capim dourado — símbolo do Tocantins — até biojóias e cerâmicas inspiradas na cultura local. Foi impossível resistir a alguns presentes, sabendo que cada peça carrega histórias de comunidades quilombolas e artesãos que mantêm viva a tradição.
Após 1h de estrada, chegamos à Formiga. A fama do lugar é justa: sua água azul-turquesa, resultado dos minerais dissolvidos, parece ter sido pintada à mão. Mas confesso que ficamos surpresos com a estrutura atual. Há decks de madeira circundando o poço principal, banheiros limpos e até Wi-Fi (sim, tecnologia no meio do cerrado!). A trilha de 100 metros, antes um simples caminho de terra, agora é acessível e segura, ideal para famílias.
A cachoeira estava movimentada, mas isso não nos impediu de mergulhar de cabeça na experiência. Enquanto Nicolas, nosso pequeno aventureiro de 3 anos, preferiu ficar no colo, receoso com a correnteza, eu e Heitor nos entregamos ao poço principal. A água, com até 3 metros de profundidade em alguns pontos, nos envolvia como um abraço gelado e revigorante. Nadamos até a queda d’água, onde a força do impacto massageava os ombros, e nos equilibramos no tronco que divide o poço — um ponto perfeito para fotos épicas.
Enquanto Samara e Sophia relaxavam nos decks, aproveitei para pilotar o drone. As imagens aéreas revelaram um contraste fascinante: o azul intenso da Formiga cercado pelo cerrado árido, como um oásis clandestino. A presença de outros visitantes não atrapalhou; pelo contrário, havia uma cumplicidade silenciosa entre todos, como se compartilhássemos um segredo precioso.
Após um almoço simples, porém saboroso, no restaurante local — com direito a guariroba (um palmito amargo típico) e frango caipira —, seguimos para o Fervedouro Beija Flor. Originalmente, o plano era visitar o Alecrim, mas nosso guia, João, um tocantinense que conhece cada centímetro do Jalapão como a palma da mão, nos convenceu a mudar o roteiro. E que sorte a nossa!
O Beija Flor é um dos fervedouros mais novos da região, descoberto há poucos anos e ainda pouco frequentado. A trilha de acesso, curta e sombreada, nos levou a um cenário de filme: um poço circular de água tão azul que parecia iluminado por dentro. A força do aquífero, que jorra das profundezas do solo, nos mantinha boiando sem esforço — a magia dos fervedouros, onde a pressão da água impede que os pés toquem o fundo, não importa o quanto você tente.
Com limite de 10 pessoas e apenas 20 minutos por grupo, tivemos a rara oportunidade de desfrutar do local quase sozinhos. Nicolas, embalado pelo balanço da água e pelas cantigas que entoávamos, quase adormeceu em meus braços. Enquanto isso, o drone capturou imagens de cima que mostravam o fervedouro como um olho azul incandescente no meio da vegetação.
Um detalhe curioso: os fervedouros do Jalapão são alimentados pelo aquífero Urucuia, uma das maiores reservas de água doce do Brasil, e sua formação geológica única explica a pressão que cria o efeito de “fervedura”. É um ecossistema frágil, e ver a estrutura organizada do Beija Flor — com controle de visitantes e horários — nos encheu de esperança de que o turismo aqui pode ser sustentável.
O próximo destino nos exigiu paciência: mais de 1h de estrada de terra, entre paisagens que alternavam entre chapadões rochosos e veredas úmidas. Mas cada minuto valeu ao chegarmos ao Fervedouro Bela Vista. Se o Beija Flor era íntimo, o Bela Vista é monumental — com 15 metros de diâmetro e profundidade estimada em 80 metros, é o maior fervedouro da região.
A surpresa foi a coloração da água: um verde-esmeralda, diferente do azul habitual, resultado das chuvas recentes que trouxeram sedimentos das partes mais altas. A nova torre de observação, com cerca de 5 metros de altura, permitiu uma vista panorâmica impressionante. De cima, o fervedouro parecia uma joia bruta incrustada na terra, cercada por buritis que dançavam ao vento.
Enquanto voava o drone, quase fui “atacado” por andorinhas — o Guia explicou que elas nidificam nas proximidades e são protetoras ferrenhas de seu território. Foi um lembrete divertido de que, por mais que o Jalapão se abra ao turismo, a vida selvagem ainda manda aqui.
O dia ainda não havia terminado. Chegamos à Pousada e Fervedouro Por Enquanto, nosso destino final, já no crepúsculo. O lugar, que já foi um simples ponto de apoio, hoje surpreende com chalés rústicos e uma piscina natural. Mas o grande destaque é o fervedouro anexo à pousada, que resolveu nos presentear com um espetáculo noturno.
Enquanto Samara e Sophia cuidavam de Nicolas (que, digamos, teve um “acidente” digno de qualquer viagem com crianças), eu e Heitor mergulhamos no poço iluminado por refletores subaquáticos. A água ganhou tons de azul neon, e as bolhas que surgiam do fundo pareciam estrelas cintilantes. Quando ficamos sozinhos, chamamos as meninas para um mergulho rápido — nadar à noite em um fervedouro, sob um céu que começava a revelar suas primeiras estrelas, foi uma experiência quase transcendental.
O jantar na pousada foi um momento para celebrar: experimentamos caranha, peixe de água doce parecido com a piranha, servido com arroz de pequi e farofa de banana. Apesar das espinhas, o sabor marcante nos conectou ainda mais à culinária do cerrado.
Antes de dormir, decidi arriscar um voo noturno com o drone sobre o fervedouro. As luzes da pousada refletiam na água como um espelho quebrado, criando um efeito surreal. Enquanto as imagens eram capturadas, pensei em como o Jalapão consegue ser ao mesmo tempo cru e acolhedor, desafiador e generoso.
Hoje entendemos por que esse lugar atrai viajantes em busca do inexplorado. Cada fervedouro, cada cachoeira, carrega uma personalidade única, e a presença de estruturas como Wi-Fi e decks não diminui sua essência — pelo contrário, mostra que é possível conciliar preservação e acesso.
Ao arrumarmos as malas para o próximo dia, já sentimos saudades do que ainda nem partiu. O Jalapão tem essa contradição: mesmo com tanto ainda por ver, cada momento parece um tesouro efêmero. Amanhã, novos desafios nos aguardam, mas hoje, ao adormecer ao som dos grilos e do vento balançando os buritis, levamos conosco a certeza de que estamos vivendo dias que ficarão gravados não apenas nas fotos, mas na alma.
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