Tempo de leitura: 7 minutos
Cinco da manhã, ainda escuro, e o despertador tocou com aquela crueldade específica de quando você mesmo pediu pra colocar cedo. A van sairia às seis. A Fazenda Recanto da Serra fica a mais de uma hora de Barra do Garças, e a gente já sabia disso. Tínhamos feito o mesmo caminho alguns dias antes, na trilha da Cachoeira Azul. Mas era domingo, e domingo na fazenda enchia. Não tinha margem.
Tomamos café ainda sonolentos, pegamos os lanches que tínhamos separado na noite anterior e embarcamos com aquele friozinho que o Cerrado faz questão de lembrar que existe, mesmo em plena temporada quente.
Barra do Garças fica no leste do Mato Grosso, na divisa com Goiás, e tem aquela sensação de cidade que ainda não caiu no roteiro de ninguém, o que é, ao mesmo tempo, o maior problema e o maior charme dela. Parte do que a cerca é resultado direto da Serra do Roncador, um chapadão que se estende para o norte e carrega nos paredões, nas nascentes e nos cânions tudo que o turismo brasileiro insiste em ignorar. A Serra tem um nome que assusta um pouco: “roncador” vem do ronco que o vento faz ao passar pelas formações rochosas, e carrega uma história que assustou exploradores durante décadas. Quando o coronel inglês Percy Fawcett desapareceu nessa região em 1925, buscando uma cidade perdida que chamou de Z, o lugar entrou no imaginário do mistério e ficou por lá. Hoje a Serra abriga algumas das cachoeiras mais bonitas do Centro-Oeste, e a gente estava prestes a entrar em mais uma delas.
A Fazenda Recanto da Serra tem mais de catorze atrativos naturais dentro da propriedade. É o tipo de lugar que você não termina numa visita só, e eles sabem disso. A operação é controlada: entrada apenas com guia credenciado, transporte interno de van, grupos divididos por trilha. Quando chegamos, o lugar já estava movimentado, mas a divisão funcionou. Nossa turma para o Complexo Azul das Águas ficou em cerca de quinze pessoas, um número que, na prática, fez toda a diferença.
O acquatrekking começou a valer a pena antes mesmo de entrar na água.
Logo no começo da trilha, uma bifurcação. À esquerda, a descida para a Cachoeira Perdida. À direita, o caminho para o Complexo. A gente foi para a direita e decidiu guardar a Perdida para o final: foi a melhor decisão do dia. Quinze minutos de caminhada, nova bifurcação, e o guia deu a opção: descer direto para o Poço Azul ou subir até o ponto mais alto da serra antes. A gente subiu.
A subida não tem moleza. O terreno fica exposto ao sol num momento em que o sol ainda tem disposição para irritar, e o esforço aparece nas pernas e no peito. Mas quando o chão nivela e começa a ceder para a descida, o Cerrado se abre lá embaixo numa panorâmica que faz o esforço parecer uma piada de mau gosto (no bom sentido). Paredões, mata verde, o horizonte do Centro-Oeste se estendendo em silêncio. A gente parou, respirou, ficou em silêncio por um tempo. Às vezes o Cerrado faz isso: para tudo sem pedir licença.
Como o grupo seguinte ainda ocupava o Poço Azul, o guia nos levou para um poço um pouco mais acima, sem nome oficial, sem ninguém. Água azul cristalina, um poço generoso e uma queda pequena no canto que jogava água em pressão certinha nas costas. Hidromassagem natural é pouco para descrever. Ficamos ali uns trinta minutos sem pressa nenhuma, e quando finalmente seguimos em frente, já estávamos meio que recarregados para o que vinha.
O Poço Azul tem uma característica que confunde quem nunca viu: ele parece raso. A transparência da água é tão absurda que o fundo aparece mesmo nos pontos mais profundos, criando aquela ilusão óptica de “cabe de pé” quando na verdade você vai desaparecer lá embaixo. Foi a transparência que deu confiança para os saltos: alguns das pedras mais baixas, um ou dois de pontos mais altos, todos com OK do guia, todos com a sensação de cair dentro de algo que parecia um aquário gigante. O Poço Azul marca o topo da Cachoeira Azul, a grande queda de quarenta e cinco metros que vimos no dia anterior a partir de baixo. Daqui de cima, o cânion se abre lá embaixo como uma fenda no mundo.
Depois dos saltos, os coletes. O acquatrekking começa de fato aqui: nadar rio acima contra a corrente, sair da água para escalar pedras com ajuda de cordas, voltar para a água, avançar pelo cânion com as paredes de rocha cada vez mais próximas dos dois lados. A parte que chamam de Portal é onde o cânion afunila: paredes altas, luz entrando em ângulo, o som da água amplificado pelo estreitamento. Um visual que parece calculado demais para ser natural, mas é.
Do Portal, seguimos até o Poço da Conquista. A água aqui muda de tom: não é mais o azul do Poço principal, mas um verde mais escuro, mais profundo, com uma queda de dois metros entrando pela lateral. Subimos por uma escada de pedra ao lado da queda e chegamos à Cachoeira Esmeralda. O nome é preciso: verde intenso, poço amplo, um tronco caído atravessando a cena de um lado para o outro com aquela elegância involuntária das coisas que a natureza improvisa. Ficamos mais tempo do que o planejado.
Na volta, paramos de novo no Poço Azul para o lanche. Pés para fora d’água, comida nas mãos, silêncio em volta. Esse tipo de pausa que só existe quando você está longe suficiente de qualquer coisa.
Depois do lanche, de volta à bifurcação. Era hora da Cachoeira Perdida.
A descida para ela é diferente do resto da trilha. Pedras soltas, trecho escorregadio, passo mais cuidadoso. Cruzamos o rio e seguimos por cerca de oitocentos metros pulando de pedra em pedra, sem dificuldade técnica real, mas com a atenção toda ligada. Uma distração e o tombo é certo. É aquele tipo de trecho que te mantém completamente presente sem você perceber.
A Cachoeira Perdida não avisa que chegou. A vegetação abre, os paredões aparecem fechando o espaço ao redor, e ali está ela: uma grande queda d’água dominando um anfiteatro de rocha que parece construído para isolar o som do mundo externo. Não bate sol direto em nenhum horário, e a queda gera um vento constante que derruba a temperatura de forma imediata, física, quase agressiva. Depois de um dia inteiro exposto, aquele vento foi o melhor abraço possível.
As araras apareceram sem anunciar. De um lado para o outro do cânion, cada vez mais baixas, completamente indiferentes à nossa presença. O cenário nos lembrou o Santuário das Araras (um dos lugares mais impressionantes da viagem, na Estância Favo de Mel), mas com uma energia diferente. O Santuário é grandioso e aberto. A Cachoeira Perdida é fechada, concentrada, íntima de um jeito que parece que ela não foi feita pra ser visitada. O nome faz sentido de uma forma que você entende só quando está lá.
A água era a mais gelada de tudo que mergulhamos em Barra do Garças. Entramos assim mesmo. Alternamos mergulhos e contemplação por uns trinta minutos, e saímos com aquela leveza estranha de quem passou o dia inteiro fazendo esforço físico mas se sente, de alguma forma, descansado.
Na saída da fazenda, pedimos para parar no Restaurante Kanoas, à beira do rio. Comida farta, atendimento rápido, preço justo, exatamente o que o corpo pedia. Voltamos para a pousada sem falar muito. Tem dias que se explicam melhor em silêncio.
Confira o vídeo:
MEU BLOG: https://www.vamostrilhar.com.br
MINHAS REDES SOCIAIS:
Instagram – http://www.instagram.com/vamostrilhar
Facebook – http://www.facebook.com/vamostrilhar
Pinterest – https://www.pinterest.com/vamostrilhar
Tiktok – https://www.tiktok.com/@vamostrilhar
SE INSCREVE AQUI NO CANAL: http://bit.ly/24Q5stg
