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A gente chegou em Cuiabá quase meia-noite, com o celular mostrando uma hora a menos do que o esperado e aquela desorientação típica de quem vem do Rio e esquece que Mato Grosso tem fuso diferente. Foi o aviso de que a viagem já estava pedindo atenção antes mesmo de começar. O transfer do hotel nos esperava, o que salvou a noite. Mochila no chão, cama. O quarto cabia a equipe toda com espaço sobrando. Às 5h30 a gente estava de pé no escuro, descendo pro café com aquela resignação calma de quem sabe que o dia vai ser longo.
A proposta era pegar a estrada até Barra do Garças com uma parada no caminho. Uma lagoa. Diziam que era bonita. A gente ouvia esse tipo de descrição com certa reserva.
O trecho inicial da BR já contextualiza o Mato Grosso sem rodeios: soja e milho e algodão abrindo dos dois lados numa escala que impressiona. O estado é o maior produtor de soja do Brasil, e isso deixa de ser informação abstrata quando você atravessa essa paisagem dentro de uma van num dia de sol forte. O movimento de carretas é constante, dois acidentes graves na estrada nesse mesmo dia foram o lembrete de que o trajeto pede respeito. A gente foi chegando em Primavera do Leste por volta das 11h30.
A Lagoa Azul fica uns 33 km fora da cidade, numa fazenda privada às margens do Rio das Mortes. O nome do rio já incomoda um pouco, e o contraste que ele oferece logo adiante faz sentido demais. A cor da lagoa impressiona antes mesmo de entrar na água: um azul turquesa estável, sem sol direto, sem filtro. Do alto, com o drone, a cena ficava ainda mais estranha. Dava pra ver com clareza as manchas mais claras no fundo, nascentes subaquáticas que brotam de dentro da pedra e mantêm a lagoa abastecida e transparente o ano inteiro. O azul tem explicação científica, o calcário do solo em contato com a luz faz a mágica, mas quando você está ali dentro com o snorkel, a explicação some. O fundo tem entre dois e três metros e cada centímetro é visível: plantas que a gente não saberia nomear, peixes que não se importam com presença humana, e, no momento que ficou mais na memória, algumas tartarugas passando devagar como se aquele fosse o lugar mais calmo do mundo.
Uma pequena trilha leva a uma ponte onde dá pra ver os dois ao mesmo tempo: o azul e o marrom do Rio da Morte, lado a lado, sem se misturar. A lagoa fica num nível mais alto, o que impede a mistura na maior parte do ano. A gente ficou ali olhando pra esse contraste por um tempo. Parece coisa de fotomontagem.
Depois de algumas horas, seguimos viagem com mais de 200 km pela frente. Chegamos à pousada já à noite, exaustos, mas com aquela sensação de que a viagem já tinha entregado coisa boa antes de chegar ao destino principal.
Barra do Garças fica no leste de Mato Grosso, na divisa com Goiás, na confluência dos rios Araguaia e Garças. É porta de entrada para a Serra do Roncador, uma cadeia montanhosa que se estende por cerca de 800 km até o Pará, funcionando como divisor de águas entre o Araguaia e o Xingu. O nome já diz algo sobre o lugar: o vento passando pelos paredões rochosos verticais durante a noite produz um som grave, como um ronco profundo que ecoa pela paisagem. Os Xavante, povo indígena que habita a região há séculos, consideram a serra território sagrado dos Tsa’re’wa, seres espirituais que guiariam e protegeriam o povo. Para quem vem de fora, a região carrega ainda a sombra de Percy Fawcett, o explorador britânico que partiu em 1925 em busca de uma cidade perdida nas matas de Mato Grosso e nunca mais voltou. Há uma estátua dele em Barra. O desaparecimento permanece sem explicação.
Não é à toa que a cidade tem uma relação especial com o mistério.
No segundo dia, seguimos até a Fazenda Recanto da Serra, base para os passeios na Serra do Roncador. A trilha até a Cachoeira Azul começa tranquila, com trechos de mata e caminhada ao lado do rio, que já entrega a cor do que está por vir: aquela transparência que não parece real mas é. Em determinado ponto da caminhada, o rio some entre pedras e a trilha sobe levemente. Quando a vegetação abre, a cachoeira aparece lá embaixo.
Não tinha mais ninguém.
A queda tem cerca de 45 metros e despenca dentro de um cânion de paredes escuras, formando um poço de água azul turquesa no fundo. A acústica do cânion amplifica o som da água de um jeito que preenche tudo, não deixa espaço pra pensamento paralelo. A gente nadou até perto da queda, sentiu a força da água empurrando de volta, ficou rodando no poço por mais de duas horas sem nenhuma pressa de sair. Foi facilmente uma das cachoeiras mais bonitas que a gente já viu no Brasil.
O terceiro dia começou com nascer do sol no Rio Araguaia, que justifica acordar cedo sem reclamação. Depois seguimos para a Estância Favo de Mel, propriedade que serve de base para o passeio até o Santuário das Araras.
A trilha tem cerca de 12 km no total. Boa parte em campo aberto, sol batendo forte, pouca sombra. No meio do percurso, a Cachoeira da Samambaia aparece como um intervalo verde num dia de muito calor, um poço esmeralda perfeito pra recarregar antes de continuar.
Quando a gente chegou no Santuário, o impacto foi diferente dos anteriores. Não é só a água azul intensa dentro do cânion. É o silêncio que vem primeiro, e depois o movimento. As araras começaram a aparecer aos poucos, voando de uma parede à outra do cânion, cada vez mais próximas. São araras-canindé, azuis e amarelas, que nidificam nas fendas dos paredões e usam o cânion como corredor de voo. Não dá pra prever o momento exato, não dá pra marcar no roteiro. Aparece e pronto. A gente ficou parado vendo aquilo por muito mais tempo do que estava no plano.
O quarto dia voltamos à Fazenda Recanto da Serra para o Complexo Azul das Águas. Aqui a proposta era outra: não contemplação, mas acquatrekking dentro do cânion. Isso significa nadar contra corrente, subir em pedras com corda, passar por trechos estreitos onde o cânion fecha quase que completamente. O Poço Azul, um dos pontos do percurso, tem uma profundidade que a gente não conseguiu calcular de cima. A água some numa transparência que aprofunda o azul até um tom escuro. O Poço da Conquista vem logo depois, com dinâmica diferente. A Cachoeira Esmeralda fecha o percurso dentro do cânion com uma cor que o nome descreve bem.
No final da tarde, ainda no mesmo dia, seguimos até a Cachoeira Perdida. O cenário lembra o Santuário das Araras em forma, mas com caráter diferente: uma grande queda dominando o ambiente, água gelada mesmo no calor, vento constante subindo pelo cânion. Um clima mais bruto, menos acolhedor. Que foi exatamente o que a gente queria naquele momento.
O quinto dia foi o que mais pareceu exploração de verdade. A trilha até o Cânion do Cipó tem pouca sinalização, trechos longos em pedras escorregadias, exposição ao sol sem muito abrigo. Não é tecnicamente difícil, mas exige atenção constante. A recompensa aparece quando o cânion se abre: paredes de rocha de cada lado, água azul cristalina no fundo, e silêncio quase absoluto exceto pelo som da água.
A gente entrou no cânion nadando. O percurso dentro da água leva até a Cachoeira dos Amigos, com cerca de 40 metros. No caminho tem uma escada de ferro fixada na rocha, saltos, trechos onde a adrenalina aparece sem aviso prévio. Foi o dia mais completo em termos de aventura física. A gente saiu de lá com aquela mistura de cansaço e euforia que é difícil de reproduzir em outro contexto.
O último dia foi reservado para a Trilha da Bateia, parte baixa. Uma trilha mais leve depois de tudo que veio antes, mas não por isso sem surpresas. Começa no cerrado aberto, com aquela vegetação torta e resistente do Mato Grosso, e vai entrando gradualmente em mata ciliar, onde a sombra chega e o calor cai. Seguimos margeando o rio até as primeiras cachoeiras.
A Cachoeira das Furnas foi a primeira parada: um cânion com queda de cerca de 40 metros, visualmente limpa, bonita. A Jatobá veio depois, com mais personalidade. Água com mais força, poço mais profundo, vento subindo com intensidade. O drone voou, a gente mergulhou uma última vez. Ficou claro que era o encerramento certo.
Seis dias. Cada um com personalidade diferente, cada atrativo com um caráter próprio que a gente não esperava encontrar com tanta consistência num raio geográfico tão pequeno. Barra do Garças não é um destino de um ponto só. É um acúmulo de experiências que se empilham de um jeito que cansa e satisfaz ao mesmo tempo. A gente saiu de lá com a certeza de que o Brasil ainda guarda lugares que operam fora do radar, e que às vezes vale muito mais a pena ir atrás deles do que repetir o mesmo destino famoso pela décima vez.
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