Trilha do Santuário das Araras (Estância Favo de Mel): o que fazer em Barra do Garças (MT)

Tempo de leitura: 6 minutos

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O interior do Brasil ainda guarda lugares que parecem ter saído de outro filme, paisagens que a gente só acredita depois de ver com os próprios olhos. Foi exatamente essa a sensação quando chegamos ao Santuário das Araras, escondido dentro da Estância Favo de Mel, em Barra do Garças.

Mas antes de chegar lá, o dia já tinha começado de um jeito especial. Acordamos às 5h da manhã (sim, 5h, sem dó nenhuma) porque queríamos ver o sol nascer às margens do Rio Araguaia. Fomos para os fundos da pousada e, mesmo com as árvores cortando boa parte da vista, deu pra acompanhar os primeiros raios pintando o céu. Um aquecimento gentil pro que estava por vir.

Depois do café, a engrenagem entrou em ação rápido: aquele seria, sem exagero, o dia mais puxado da viagem inteira. Por volta das 6h30 já estávamos na estrada, com lanche e água garantidos.

Barra do Garças fica no leste de Mato Grosso, praticamente na fronteira com Goiás, cercada pelos rios Araguaia e Garças. E é dali que se abre a porta para a Serra do Roncador, mais de 700 km de extensão de formações de arenito, cavernas, nascentes e cânions que parecem ter sido esculpidos a dedo. O nome “Roncador” vem de um fenômeno real: em certos pontos da serra, dá pra ouvir um som parecido com um ronco, causado pelo ar e pela água circulando dentro das galerias subterrâneas. A região também é famosa pelas águas em tons de azul turquesa e verde esmeralda, quase impossível de explicar só com palavras.

Foram cerca de duas horas até a Estância Favo de Mel, uma propriedade que conseguiu organizar bem o ecoturismo sem perder a essência. Tem recepção, banheiros, área de refeições, opção de camping, e o detalhe que faz toda diferença depois de um dia de trilha: dá pra reservar o almoço com antecedência. Fizemos isso assim que chegamos.

De lá, ainda fomos de van até o início da trilha. A propriedade tem bastante movimento, mas como os atrativos são vários, o pessoal se espalha bem. Assim que pegamos o caminho, ficou claro por que as trilhas só podem ser feitas com guia: o trajeto até é visível em boa parte, mas sem sinalização. Sem o guia, seria fácil se perder em algum ponto.

Logo nos primeiros quilômetros já cruzamos alguns riachos, exigindo atenção pra não escorregar. A trilha é classificada como moderada a difícil, com cerca de 11 a 12 km de ida e volta, mas na prática não achamos tão pesada assim. Muito trecho plano, intercalado com subidas e descidas, e só duas delas realmente cansativas. O que pega mesmo é o sol: em vários pontos caminhamos sob calor forte, e ali chapéu, protetor solar e roupa com proteção UV deixam de ser detalhe e passam a ser sobrevivência.

Aos poucos o cenário foi mudando, e de longe já conseguíamos ver o cânion nos esperando (dava até pra acelerar o passo só de ver aquilo lá na frente). Com cerca de 4 km, chegamos na primeira parada: a Cachoeira Samambaia, um poço verde esmeralda com uma queda de cerca de 30 metros e água gelada na medida certa. Banho, descanso, lanche, e seguimos.

Dali em diante a trilha muda de ritmo. A gente sobe pelo próprio leito do rio, pisando em pedra e às vezes dentro da água mesmo. Depois de mais ou menos 1 km nesse esquema, finalmente chegamos ao Santuário das Araras.

E não tem muito jeito de descrever aquele momento sem parecer clichê, mas vou tentar. A primeira coisa que pega o olhar é o azul da água, um azul vivo, quase artificial. Mas o que realmente impressiona é o conjunto: o cânion enorme, com paredões de mais de 100 metros, a vegetação ao redor e um silêncio cortado só pelos sons do Cerrado.

A água, pra nossa surpresa, não estava tão gelada quanto esperávamos, mesmo sem sol direto naquele horário. A guia explicou que isso muda a partir de setembro, quando o sol passa a iluminar mais o fundo do cânion. Tem até uma pequena queda d’água ali que parece um chuveirinho e sai bem mais quente, um contraste curioso com o resto do poço.

Explorando um pouco, dava pra notar áreas rasas com uma areia branquinha e outras bem profundas, que são justamente as responsáveis pelo azul mais intenso. E no meio dessa água transparente, mais uma surpresa: duas tartarugas nadando tranquilas. Ficamos ali tentando entender como aquelas duas tinham ido parar num lugar tão isolado.

Já perto da hora de ir, veio o momento que resume o dia inteiro. As araras vermelhas começaram a sobrevoar o cânion, cada vez mais perto, indo de um lado pro outro. Não é exagero dizer que aquilo é o motivo do nome do lugar, e olhar pra cima e ver aquelas aves enormes cruzando o céu dentro daquele paredão é uma cena que fica.

A guia Aline, aliás, contou uma curiosidade boa: o lugar era conhecido antigamente como “Boqueirão das Araras”. O nome mudou depois que uma equipe do Globo Repórter visitou e alguém comentou que aquilo parecia um verdadeiro santuário. E o nome ficou.

Na volta, pegamos um trecho diferente, mais alto, rente à parede do cânion. Em um ponto, paramos numa fenda na rocha de onde saía água e um som estranho: o famoso “ronco” da Serra do Roncador, causado pelo ar e pela água circulando dentro do arenito. Ouvir aquilo ali, depois de já ter lido sobre o fenômeno, foi um daqueles momentos de “ah, então é isso mesmo”.

Terminamos a trilha por volta das 16h15, com o corpo já avisando que tinha sido um dia e tanto. De volta à estância, o almoço (ou melhor, o “almojanta”) já estava esperando: macarrão, feijão, costela, aipim e farofa. Simples e exatamente o que a gente precisava.

Voltamos pra Barra do Garças, ainda demos um pulo no mercado pra organizar o dia seguinte, e quando chegamos na pousada não teve segredo: banho e cama. Foi, sem dúvida, um dos dias mais intensos e mais bonitos da viagem toda.

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