Trilha do Cânion Jatobá: o que fazer em Vila Bela da Santíssima Trindade (MT)

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O café da manhã no Hotel da Vila era simples. Bem simples, na verdade. Pão, manteiga, café preto. A gente comeu sem reclamar porque o dia que vinha pela frente pedia energia, não sofisticação. Eram quase 7h30 quando saímos, e já dava pra sentir aquele calor seco do Mato Grosso se instalando no ar. O destino era o Cânion do Jatobá.

Vila Bela da Santíssima Trindade tem esse nome comprido que impressiona antes mesmo de você chegar. Foi ela a primeira capital do estado, fundada no século XVIII às margens do Guaporé, na fronteira com a Bolívia. Portugueses, africanos escravizados e indígenas deixaram ali uma mistura cultural que até hoje se sente nas festas, na comida, na forma como os moradores falam sobre o lugar. É uma cidade que parece menor do que é, mas que carrega mais história do que a maioria das cidades brasileiras mais conhecidas.

E escondido nos fundos dessa história toda, está o Parque Estadual Serra Ricardo Franco, com seus 158 mil hectares de cerrado e amazônia se encontrando. O cânion fica dentro do parque, a cerca de 20 quilômetros do centro da cidade, e sem guia não tem acesso. A trilha de ida e volta não passa de 4,5 quilômetros, mas o que ela entrega não é proporcional ao esforço.

Logo no começo, o terreno é tranquilo. Vegetação ao redor, som de pássaros, aquela sombra das árvores que faz qualquer manhã parecer suportável. Conforme a gente avançava, o córrego foi aparecendo ao lado do caminho, e com ele a transparência da água que já chamava atenção antes de qualquer coisa mais dramática acontecer. Em alguns pontos rasos, dava pra enxergar pequenos peixes passando devagar, alheios à nossa presença. Esse tipo de detalhe, aparentemente sem importância, diz muita coisa sobre o quanto aquele lugar ainda está intacto.

Quando o cânion apareceu de verdade, a gente parou. Não foi uma parada planejada. Simplesmente parou. O corredor se abria entre paredões de rocha escurecida pela umidade, e lá embaixo a água tinha aquele azul que não faz muito sentido fora de foto de lagoa grega. Mas estava ali, real, em pleno interior do Mato Grosso. O cânion tem cerca de 230 metros de extensão e pode chegar a 8 metros de profundidade nos pontos mais fundos. A água que cavou tudo aquilo ao longo de milhões de anos ainda escorre pelo mesmo caminho, fria e cristalina, sem pressa.

O sol não estava batendo diretamente quando chegamos. Teria deixado tudo ainda mais absurdo de bonito, mas mesmo sem essa luz perfeita, a coloração azul já era forte o suficiente pra fazer a gente ficar parado na beira por um tempo sem falar nada. Entrar na água foi a decisão mais óbvia do dia.

Dentro do cânion, a experiência é outra coisa. Não é só nadar. É andar entre paredes de rocha que ficam próximas o suficiente pra você sentir a frieza delas no ombro quando passa. É mergulhar e abrir os olhos e conseguir enxergar tudo com clareza. Em alguns trechos, a profundidade assusta um pouco à primeira vista, mas a visibilidade é tão boa que a ansiedade passa rápido. Avançamos uns 100 metros nadando, pelo corredor natural, até encontrar uma pequena queda d’água no fundo.

A gente sabe que dava pra continuar. Outros visitantes de um grupo à frente foram além, subindo pelo leito do córrego em direção à Cachoeira do Jatobá, que fica mais acima e tem 248 metros de queda vertical, a maior do estado. Optamos por voltar. Não por cansaço, mas porque o dia ainda tinha mais.

No retorno, a parada obrigatória foi no Poço das Noivas. A lenda local é direta: solteiro que mergulha ali encontra amor. Quem já é casado sai com o relacionamento fortalecido. A gente não ia arriscar ignorar isso. Então entrou, mergulhou, e ficou um tempo flutuando naquela piscina natural de água azulada que, quando o sol bate, deve ser uma das coisas mais bonitas do parque.

Foi nessa parada que o dia ganhou um capítulo inesperado. A gente estava na água quando o som começou. Um farfalhar que veio dos paredões antes das aves aparecerem. De repente, milhares de andorinhas saíram das fendas das rochas ao mesmo tempo, enchendo o céu com um movimento que não tem nome fácil. Elas voavam em círculos largos, passavam baixo, subiam, desciam. O barulho era constante mas não era barulho de caos, era barulho de coisa viva. A gente ficou parado na água, olhando pra cima, sem pensar em câmera.

Há registros de que as andorinhas nidificam nas paredes do cânion e essa saída em bando é um comportamento natural, mas saber disso não diminui nada. Quando acontece diante da gente, é diferente de qualquer coisa que a gente leu antes.

O almoço foi no Restaurante da Meire, que a galera de Vila Bela já indica de olho fechado. Depois do cânion, faz todo sentido, é o tipo de lugar que fecha bem qualquer roteiro pelo interior do Mato Grosso. Lugar simples, mesa de formica, TV ligada no canto. Pedimos costela de tambaqui. Veio com macarrão, feijão e o que mais a cozinha tinha de bom naquele dia. Tomamos suco de cajá e de graviola, os dois em jarras. Pagamos uns R$40 por pessoa, cheios.

O cânion do Jatobá é um daqueles lugares que ainda não descobriram que são famosos. Por enquanto, quem vai ainda encontra o silêncio, o espaço e aquela sensação de ter chegado antes da multidão. Isso é raro. E tem prazo de validade.

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