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A Floresta Encantada em Alter do Chão é um passeio de canoa pelo Igarapé Cuicuera, um igapó (ou floresta alagada amazônica) localizado a 3 km do centro da vila, às margens do Lago Verde. Durante o inverno amazônico (janeiro a julho), as águas do Rio Tapajós sobem e inundam a mata, criando um labirinto de árvores submersas, reflexos espelhados e um silêncio que poucos lugares no Brasil conseguem oferecer. Na seca, o passeio continua, só que a pé, pela floresta já sem água. Nos dois casos, você sai de lá encantado.
Neste guia, a gente conta tudo sobre a Floresta Encantada: o que é o igapó, como funciona o passeio, quanto custa, qual a melhor época para ir e o que dá para ver por lá (e o que não dá, porque informação honesta também conta). Além disso, trazemos nossa experiência real, com família e criança pequena, em julho de 2024.
O que é a Floresta Encantada e por que esse nome
Floresta Encantada, Floresta do Caranazal ou Igarapé Cuicuera?
Os três nomes se referem ao mesmo lugar, e cada um conta uma parte da história.
Igarapé Cuicuera é o nome original do canal que atravessa a floresta. “Cuicuera” vem do tupi e significa “areia fina”, uma referência à textura do fundo do rio naquela região. É o nome geográfico oficial, o que aparece nos mapas.
Floresta do Caranazal é o nome da comunidade ribeirinha que existe ali. Caranazal vem dos coqueiros da espécie caraná que crescem abundantemente no local. É por lá que ficam os canoeiros e o Restaurante Caranazal, ponto de partida alternativo para o passeio.
Floresta Encantada é o nome turístico, e também o mais bonito. Surgiu dos próprios visitantes, que saíam do passeio sem conseguir descrever o que tinham visto com palavras comuns, e acabou sendo adotado pelos moradores. O local foi identificado como atrativo turístico há cerca de dez anos, e desde então o nome pegou de vez.
A lenda por trás do nome encantado
Existe mais de uma história para explicar o nome, e todas circulam entre os moradores do Caranazal.
A mais contada diz que os índios entravam na floresta alagada para pescar e alguns nunca voltavam. Não morriam: “ficavam encantados”, aprisionados por uma beleza tão grande que perdiam a vontade de sair. Outros dizem que os espíritos da floresta (Iara, a sereia dos rios; o Curupira, protetor da mata; e a Cobra Grande) habitam esse igapó até hoje, e que o silêncio que você ouve lá dentro não é ausência de som, mas presença deles.
Superstição ou não, tem algo no lugar que desafia descrição. Quando o motor da canoa para e só se ouve o remo rasgando a água, é difícil não sentir que você entrou em outro tempo.
O que é igapó e por que o Tapajós cria um dos mais bonitos

Igapó é um tipo de floresta amazônica alagada, adaptada a longos períodos de inundação: algumas espécies ficam submersas por até dez meses por ano. O nome vem do tupi antigo e significa “raízes d’água”. É um dos três tipos de vegetação amazônica, ao lado da mata de várzea e da mata de terra firme. Os igapós cobrem cerca de 300.000 km² da bacia amazônica e são habitat crucial para espécies endêmicas, como tambaqui, tracajás, ariranhas e dezenas de aves que só vivem nesses ambientes alagados.
O que torna o igapó do Cuicuera especialmente bonito é o tipo de água que o alimenta. O Rio Tapajós é um rio de águas claras, diferente dos rios de água preta (como o Negro) ou de água branca (como o Amazonas). Essa clareza cria reflexos precisos na superfície: cada árvore submersa aparece espelhada com nitidez, como se houvesse uma segunda floresta crescendo para baixo. A National Geographic Brasil já descreveu o igapó como “a floresta feita de água”, e dentro do Cuicuera essa definição faz todo sentido.
Sobre Alter do Chão

Alter do Chão é um distrito de Santarém, no oeste do Pará, a cerca de 34 km do centro da cidade. Com pouco mais de cinco mil habitantes, ruas de chão batido e restaurantes simples na beira da praça, a vila não impressiona à primeira vista. Mas quando você chega à beira do Rio Tapajós e vê o azul-turquesa da água contrastando com a areia branca, aí você entende o apelido: Caribe Amazônico.
Em 2009, o jornal britânico The Guardian elegeu Alter do Chão como uma das praias mais bonitas do Brasil e a melhor praia de água doce do mundo. Não foi à toa: o Tapajós é um dos poucos grandes rios amazônicos com águas claras, o que cria uma transparência que a maioria das pessoas não espera encontrar no meio da floresta tropical.
O ritmo das águas: seca e cheia no Tapajós
A coisa mais importante que você precisa saber sobre Alter do Chão é que a paisagem muda completamente dependendo da época do ano, e isso vale especialmente para a Floresta Encantada.
| Período | Estação | O que acontece com a Floresta Encantada | Para quem é |
| Janeiro a julho | Cheia (inverno amazônico) | Igapó formado, passeio de canoa disponível | Quem quer a experiência clássica |
| Março a maio | Pico da cheia | Igapó no máximo, nível mais alto, imersão total | A melhor época para o passeio de canoa |
| Agosto | Transição | Nível baixando, canoa ainda possível (confirmar) | Quem pode ajustar datas |
| Setembro a dezembro | Seca (verão amazônico) | Floresta sem água, passeio a pé disponível | Alta temporada das praias + trilha na mata |
Na seca, as praias estão no auge: Ilha do Amor, Praia do Cajueiro e Praia do CAT, tudo visível e acessível. A Floresta Encantada muda de formato: sem água, o passeio vira uma caminhada pela mata do Caranazal, com a possibilidade de banho no igarapé. Diferente, mas vale.
Sobre o Lago Verde

O Lago Verde é a lagoa que separa a Ilha do Amor da orla de Alter do Chão. Formado pelas águas do Tapajós que contornam a vila, tem aquele tom esmeralda que explica o nome, especialmente quando o sol bate em certo ângulo no começo da tarde.
O Lago Verde e a Floresta Encantada estão diretamente conectados. Para quem vai de barco saindo da ACFA, o percurso passa pelo lago antes de entrar no canal do Igarapé Cuicuera: você navega por ele por alguns minutos até chegar na entrada da floresta, onde o motor é desligado e a canoa assume o comando.
Na seca, o Lago Verde encolhe e as margens revelam faixas de areia. Na cheia, ele se expande e parte da mata ao redor fica alagada, e você já começa a sentir o clima de igapó antes mesmo de chegar na Floresta Encantada propriamente dita. Quem quiser explorar o lago por conta própria pode alugar caiaque ou stand-up paddle no centrinho.
Ficha técnica do passeio da Floresta Encantada
| Dado | Informação |
| Localização | Igarapé Cuicuera, Caranazal (3 km do centro de Alter do Chão) |
| Ponto de embarque principal | ACFA, orla de Alter do Chão |
| Ponto de embarque alternativo | Restaurante Caranazal (acesso direto ao igapó) |
| Passeio de 30 min | R$ 70 por canoa (até 4 pessoas), sem parada na praia |
| Passeio de 1 hora | R$ 100 por canoa (até 4 pessoas), com parada e banho na praia |
| Guia | Incluso no valor da canoa |
| Pagamento | Dinheiro vivo ou PIX (sinal fraco, leve dinheiro) |
| Época (canoa) | Janeiro a julho; agosto em transição (confirmar) |
| Época (a pé) | Agosto a dezembro (seca) |
| Horário do Restaurante Caranazal | 9h às 17h, todos os dias |
| Preços verificados em | Julho de 2024 |
O valor é cobrado por canoa, não por pessoa. Isso significa que quatro pessoas dividindo saem a R$ 17,50 cada (30 min) ou R$ 25 cada (1 hora). Se você vai sozinho ou a dois, pergunte ao canoeiro se dá para juntar com outros visitantes: costumam facilitar.
Como chegar na Floresta Encantada em Alter do Chão
De barco saindo da ACFA
A forma mais comum, especialmente para quem vai em passeio organizado. A ACFA (Associação dos Condutores Fluviais de Alter do Chão) fica na orla principal de Alter, no começo da Praia do CAT. É de lá que saem os barcos para a maioria dos passeios da região.
Do cais da ACFA, uma embarcação motorizada navega pelo Lago Verde por cerca de 15 minutos até a entrada do Igarapé Cuicuera. Na entrada do canal, o motor é obrigatoriamente desligado: nenhum barco motorizado pode entrar no igapó, tanto por preservação do ambiente quanto para garantir o silêncio que faz parte da experiência. Você desce do barco e embarca numa canoa de madeira conduzida a remo pelo guia local.
Essa também é a opção mais fácil de combinar com outros passeios do dia, já que os barqueiros normalmente montam roteiros que incluem a Floresta Encantada, a Praia da Valéria e a Ilha do Amor num único trajeto.
Por conta própria até o Restaurante Caranazal
Se você preferir ir direto ao ponto de partida da canoa, sem passar pelo barco motorizado, o Restaurante Caranazal é a alternativa. Fica a cerca de 3 km do centrinho de Alter do Chão, o que dá uns 10 minutos de táxi ou mototáxi.
As opções de transporte saindo do centrinho:
- Táxi: R$ 30 por trecho, menos de 10 minutos
- Mototáxi: R$ 10 por trecho, menos de 10 minutos
- Bicicleta alugada: R$ 30 por dia inteiro, cerca de 20 minutos de pedalada
- A pé: uns 40 minutos, possível, mas com o calor amazônico que bate em Alter, considere as outras opções
No restaurante, você avisa a um dos garçons que quer fazer o passeio e ele chama o guia. Uma dica que funciona bem: faça o pedido do almoço antes de entrar na floresta. Assim a comida fica pronta quando você volta. O restaurante funciona todos os dias das 9h às 17h e tem cardápio regional: galinha caipira, peixe assado, caldeirada e camarão.
O percurso trecho a trecho: o que esperar dentro do igapó
A largada e o silêncio de quando o motor para

O passeio começa no ponto onde o barco ancora e a canoa assume. É um momento específico, muito fácil de identificar: você está no Lago Verde, o motor cessa, e de repente só existe o som da água batendo levemente no casco. O guia pega o remo, a canoa começa a se mover, e você entra no canal.
Não é dramático. É sutil. Mas essa troca do som do motor pelo som do remo é o primeiro sinal de que algo diferente vai acontecer.
O labirinto de árvores submersas

Dentro do igapó, o canal se estreita. As árvores aparecem dos dois lados: algumas com os troncos completamente submersos, emergindo só a partir da copa; outras com a base visível e o tronco entrando na água alguns metros acima do chão. A canoa navega devagar, às vezes roçando levemente nos troncos. Em certos trechos, o guia precisa inclinar o barco para passar.
O reflexo das árvores na água calma cria um efeito de espelho que as fotos tentam capturar mas raramente conseguem transmitir de verdade, porque no lugar você também sente a umidade, o cheiro de terra molhada e o arrepio leve do frescor que a copa das árvores cria.
Os guias experientes vão apontando as espécies ao longo do caminho: bromélias penduradas nos galhos, orquídeas discretas, cipós entrelaçados. Alguns canoeiros do Restaurante Caranazal têm placas identificando árvores e seus usos medicinais, e se o seu guia for de lá, vai ter histórias para cada espécie.
A parada na praia (passeio de 1 hora)

Quem escolhe o passeio de 1 hora chega a uma praia de areia fina no final do canal. As águas ali são cristalinas, dá pra ver o fundo. Tem uma estrutura rústica de madeira para pular na água, mas preste atenção: dependendo do nível do rio, a profundidade varia. Quando fomos, estava possível pular, mas o fundo ficava próximo em alguns trechos, então tome cuidado.
O tempo na praia é de uns 20 a 30 minutos antes de refazer o caminho de canoa de volta. Use bem: o banho é gostoso, a água é limpa, e o entorno ainda está impregnado do clima do igapó.
O que dá para ver: fauna real e fauna improvável
Honestidade em primeiro lugar: a Floresta Encantada não é um zoológico. A fauna existe, mas exige paciência, silêncio e sorte.
O que dá para ver com frequência:
- Iguanas: as mais fáceis de avistar, normalmente nas árvores às margens do canal. A gente viu uma cair direto na água e nadar ao nosso lado por alguns minutos antes de subir de volta para a árvore
- Macacos: aparecem com regularidade nas margens, especialmente de manhã cedo
- Aves: tucanos, martins-pescadores, garças, araras. O gavião-real frequenta igapós para caçar, e a cigana (ave icônica das florestas alagadas amazônicas) aparece com frequência
O que aparece raramente:
- Preguiças: o roteiro anuncia, mas na prática aparecem muito pouco. Se aparecer, é bônus, não vá contando com isso
- Ariranhas: possíveis no Lago Verde e nos arredores, mas não dentro do canal fechado
- Botos: ficam nas águas abertas do Tapajós, não no igapó estreito
A Floresta Encantada funciona na seca?
Sim, e esse é um dos pontos que quase todo blog sobre Alter do Chão erra.
A maioria dos artigos na internet diz que a Floresta Encantada “só funciona na cheia”. Não é verdade. Na seca, quando o igapó perde a água, o passeio continua, só que a pé, pela floresta do Caranazal.
O percurso a pé atravessa a mata sem água, e você vê a floresta por outro ângulo: o chão, as raízes, a vegetação baixa que caracteriza o igapó (arbustos, cipós, musgos, orquídeas). A densidade da copa cria sombra generosa, o que torna a caminhada suportável mesmo no calor amazônico. No final do trajeto, ainda é possível tomar banho no igarapé: a água continua lá, só o nível que baixa.
É uma experiência diferente da canoa, sem dúvida. Mas é válida, especialmente para quem vai entre agosto e dezembro, exatamente a alta temporada das praias de Alter do Chão. Você não precisa escolher entre praias e Floresta Encantada.
Se você vai nessa época, ligue ou mande mensagem para o Restaurante Caranazal antes de ir para confirmar a disponibilidade e o formato do passeio.
Melhor época para visitar a Floresta Encantada
| Época | Condição da Floresta | Clima | Recomendação |
| Janeiro a fevereiro | Cheia chegando | Quente e chuvoso | Canoa disponível, menos movimento |
| Março a maio | Pico da cheia | Quente e úmido | Melhor época para o igapó |
| Junho a julho | Cheia descendo | Quente, chuvas reduzindo | Boa época para o passeio |
| Agosto | Transição | Quente, seca começando | Confirmar disponibilidade da canoa |
| Setembro a dezembro | Seca, passeio a pé | Quente e seco (30 a 35°C) | Alta temporada das praias + trilha na mata |
A melhor época para o passeio de canoa clássico é entre março e maio, no pico da cheia, quando o nível da água está mais alto e o igapó fica mais impressionante. Em contrapartida, essa é a baixa temporada de Alter do Chão: menos turistas, preços menores e, sim, praias submersas.
Se você vai em setembro (alta temporada, Festival do Sairé), as praias estão no auge, e a Floresta Encantada ainda vai valer a visita, mas no formato a pé pela mata.
Dicas práticas para aproveitar melhor a Floresta Encantada

O que levar na mochila
- Dinheiro vivo ou PIX: o sinal de celular é fraco no Caranazal. Leve o valor já separado, não dá para depender de maquininha
- Protetor solar biodegradável: use o convencional fora da água; dentro do rio, só o biodegradável. O ecossistema do Tapajós agradece
- Repelente: a umidade do igapó é terreno fértil para insetos, especialmente no começo e no fim do dia
- Garrafa d’água: a remada não é longa, mas o calor amazônico cobra hidratação constante
- Câmera ou celular com proteção impermeável: a canoa balança, a umidade é alta e a tentação de fotografar é constante
- Roupa de secagem rápida: você vai molhar no banho da praia (passeio de 1 hora) e de respingo dentro da canoa
Vale contratar guia?
A canoa já inclui um condutor local, esse é o guia. Não é necessário contratar nada adicional.
A qualidade do passeio, porém, varia bastante dependendo de quem está remando. Guias experientes contam histórias, identificam fauna, explicam espécies e transformam 30 minutos numa aula de ecologia amazônica. Quem pega um condutor mais jovem e quieto acaba com um passeio mais silencioso: bonito, mas menos rico. A beleza do lugar compensa qualquer coisa, mas se tiver como perguntar antes de embarcar quem vai ser o condutor, vale tentar.
Dicas para famílias com crianças pequenas

A Floresta Encantada é ótima para crianças: o passeio de canoa é suave, sem correnteza, e a experiência visual segura a atenção de crianças de 3, 4 anos em diante.
Para bebês e crianças bem pequenas, o desafio é maior. A canoa é estreita e não tem muito espaço para movimentação. Leve uma canga dobrada para criar um assento mais confortável, tenha snacks à mão para as horas de inquietação, e não hesite em pedir ao guia para pausar em algum ponto mais aberto se a criança precisar respirar. O colete salva-vidas é recomendado: pergunte ao organizador se está disponível ou leve o seu.
Como encaixar a Floresta Encantada no roteiro do dia
Floresta Encantada + Ilha do Amor + Serra da Piraoca (dia completo)

Esse é o roteiro clássico do segundo dia em Alter do Chão, e funciona muito bem se você tiver energia.
- Manhã (9h às 12h): saída da ACFA, passeio de 1 hora no igapó da Floresta Encantada + praia, retorno ao barco
- Meio-dia (12h às 14h30): Ilha do Amor, almoço com os pés na água. O filé de pirarucu serve bem para dois e custa em torno de R$ 100. Reserve mesa cedo nos fins de semana de alta temporada
- Tarde (15h30 às 17h30): Trilha da Serra da Piraoca, a entrada fica na extremidade da Ilha do Amor. São cerca de 2 km com um trecho final íngreme de 110 metros. No topo, vista 360° do Tapajós, do Lago Verde e de toda a ilha lá embaixo. Use tênis, não chinelo (a gente aprendeu isso da forma difícil, de chinelo mesmo, com o Nicolas no colo)
- Fim de tarde (17h30): pôr do sol do topo ou de volta na beira do Tapajós. Retornar ao centrinho por barco (R$ 20) ou catraia (R$ 5)
Floresta Encantada + Canal do Jari (variação mais imersiva)
Para quem quer mais floresta e menos praia, o Canal do Jari é a combinação perfeita com a Floresta Encantada. Os dois passeios têm clima similar (navegação lenta, mata fechada, comunidades ribeirinhas) e juntos formam um dia inteiro de imersão amazônica. No Canal do Jari você ainda vai ao Jardim de Vitórias-Régias da Dona Dulce e, se quiser, até o Encontro das Águas entre o Tapajós e o Amazonas. Um dia pesado, mas dos que ficam na memória.
Como foi nossa experiência na Floresta Encantada

Fomos em julho de 2024, ainda dentro do período de cheia, mas já com o rio começando a baixar. As malas tinham sido extraviadas pela companhia aérea no primeiro dia em Alter do Chão (outro assunto), então estávamos de chinelo e sem roupa de banho própria quando chegamos na ACFA.
O barco saiu por volta das 10h. Durante a navegação pelo Lago Verde, o guia foi fazendo uma aula descontraída sobre os igapós, as espécies de árvores que ficam submersas e os animais que habitam as margens. O Nicolas, que tinha quase 2 anos, ficou hipnotizado olhando a água, uma das poucas vezes que ficou quieto por mais de cinco minutos seguidos naquela viagem.

Navegamos até o Igarapé Cuicuera, que significa areia fina, recebendo uma aula sobre a região, sua fauna e flora. Ao chegarmos, aproveitamos para tomar banho, enquanto esperávamos a nossa canoa chegar, já que para adentrar nos igapós não pode barco motorizado. Podíamos escolher entre o passeio de 30 minutos, que custava 70 reais e não parava na praia ou o de 1 hora, que custou 100 reais. Esse foi o escolhido, além de todo trajeto pelo igapó, também ficamos um bom tempo na praia.

Começamos o passeio de canoa, sendo guiados pelo Jair. Ele nos levou por dentro de um verdadeiro labirinto que são igapós. Durante os 20 minutos de trajeto até a praia, passamos por uma área com várias arvores submersas, passando rente aos troncos, às vezes até dando umas batidinhas neles. O caminho inteiro é bem contemplativo, com cenário lindos que se formam, principalmente com os raios solares entrando e batendo na água.

Ao chegarmos na praia, colocamos nossos pertences em uma das mesas e já fomos aproveitar para mergulhar. Nela existe uma estrutura para pular para água. Devia ter um pouco mais de 2 metros. Aproveitei pra pular algumas vezes, mas não estava tão fundo nesta época, então algumas vezes encostei no chão.

Estávamos no rio nadando e de repente um bicho pulou da árvore e começou a nadar perto da gente. Pensamos que era uma ariranha, já que pensei ter visto uma nos igapós. Na verdade era uma iguana, fomos a acompanhando até ela subir na árvore.
Voltamos para a canoa para voltar ao Igarapé e finalizar nosso passeio. Logo que começamos a entrar no igapó, não estava achando meus óculos. Voltamos para procurá-lo e ele estava dentro d’água. Conseguimos achar por sorte e pela água ser super cristalina. Voltamos todo trajeto e pegamos nosso barco para outra praia.

A Praia da Valéria foi a segunda parada do passeio. Eu e Leandro (meu antigo chefe) até brincamos que era o nome da nossa atual chefe do trabalho. Ela possui um banco de areia grande que lembra uma ponta. Andamos um pouco por ele e exploramos a parte da faixa de areia. Em seguida, ficamos relaxando na água por cerca de uma hora, conversando e apreciando a paisagem.

Pra fechar o passeio, paramos na Ilha do Amor, o cartão postal de Alter do Chão. O local é muito movimentado e com vários restaurantes disponíveis.
O passeio de 1 hora valeu muito mais do que o de 30 minutos custaria. Não pensamos duas vezes na hora de escolher, e a gente recomenda a mesma decisão para todo mundo. Se quiser ler com mais detalhes como foi todo o nosso segundo dia em Alter do Chão, incluindo a Ilha do Amor e a Serra da Piraoca, confira o relato completo aqui.
A Praia da Valéria

A Praia da Valéria fica no Lago Verde, um banco de areia calmo e cercado de mata densa, sem infraestrutura nenhuma, nada de barraca, quiosque ou restaurante por perto. É só você, a areia, o silêncio e o som dos pássaros. A gente chegou lá depois do passeio de canoa pela Floresta Encantada, e ficou ali tentando (e falhando feio) em identificar as espécies de aves pelo canto.

É esse tipo de parada que mostra o que diferencia Alter do Chão de qualquer destino de praia mais badalado: existe um lugar onde literalmente não tem ninguém, e o Lago Verde reserva justamente isso. O acesso é rápido, por barco curto saindo da vila, e as águas são rasas e tranquilas, ideais pra quem quer só sentar, descansar e deixar o tempo passar sem pressa.
Outros passeios de Alter do Chão
Canal do Jari e Trilha das Preguiças
Um dia inteiro de barco com paradas para ver macacos, iguanas e aves, visita ao Jardim de Vitórias-Régias da Dona Dulce (com degustação de pratos feitos com a planta) e passagem pelo Encontro das Águas do Tapajós com o Amazonas. Um dos roteiros mais completos da região.
Passeio de Praias do Tapajós
Dia de navegação entre praias quase desertas: Catajuba, Maguari, São Domingos, Pindobal e Ponta do Muretá para o pôr do sol. A Praia do Maguari, com o banco de areia que vira ilha no meio do rio, foi a mais bonita que visitamos, e é onde o drone faz o trabalho da vida. Contamos essa aventura completa no relato do nosso quarto dia em Alter do Chão.
Floresta Nacional do Tapajós, FLONA Jamaraquá
9,1 km de trilha na mata primária, com guia obrigatório (R$ 200 dividido entre até 5 pessoas). A Sumaúma centenária (árvore de 300 a 400 anos e mais de 50 metros de altura, que precisaria de 25 pessoas de mãos dadas para ser abraçada) é um dos pontos mais impactantes de toda a viagem. No meio do caminho, o Igarapé do Paulo, com águas cristalinas e geladas que parecem inventadas. Exige disposição física, mas é o tipo de dia que fica para sempre. Contamos esse dia inteiro no relato da nossa visita à FLONA do Tapajós.
Rio Arapiuns: Tartarugas e Meliponário
Passeio de barco pelas águas mais escuras e cristalinas do Arapiuns, com parada na Comunidade Coroca. Lá tem um meliponário com abelhas nativas sem ferrão (canudo e jandaíra) e um projeto de preservação de tartarugas amazônicas: você vê dezenas delas, algumas com quase 70 cm, num lago aberto. O almoço comunitário foi o melhor que comemos em toda a viagem. Detalhamos esse dia no relato do Rio Arapiuns e as tartarugas amazônicas.
Turismo de Cura na Costa do Macaco
Para quem quer ir além das praias. Trilha do Breu Branco, canoagem pelo Lago Azul e chegada à comunidade ribeirinha da Costa do Macaco, onde moradores realizam rituais ancestrais: puxada de mãe (massagem com óleos da floresta), chá de segredo e banho de ervas medicinais. Inclui almoço comunitário e oficina de artesanato em palha de tucumã. Vivemos essa experiência de perto no relato do Turismo de Cura no Rio Arapiuns.
City Tour por Santarém
O Mercadão 2000 com frutas exóticas e ervas medicinais, o Centro Cultural João Fona com cerâmicas tapajônicas de refinamento impressionante, a vista do Encontro das Águas da Praça Fortaleza dos Tapajós e o pirarucu com creme de milho do restaurante Rayane: um dia que muda o que você pensa sobre cidades amazônicas. Contamos tudo no relato do nosso city tour por Santarém.
Outros atrativos próximos
Ilha do Amor
O cartão-postal de Alter do Chão. Banco de areia que emerge do Tapajós na seca, com restaurantes pé na areia e mesas dentro d’água. A travessia de catraia sai a R$ 5. No auge da seca, dá para chegar a pé pela areia. É por lá que também começa a trilha da Serra da Piraoca.
Trilha da Serra da Piraoca
Caminhada de cerca de 2 km saindo da Ilha do Amor, com subida íngreme de 110 metros no trecho final. No topo: vista panorâmica de 360° com o Tapajós, o Lago Verde, a Ponta do Cururu e a vila de Alter do Chão. A subida leva uns 40 a 45 minutos. Use tênis fechado, não chinelo.
Praia do Cajueiro e Praia do CAT
As mais próximas do centrinho, acessíveis a pé em 5 a 10 minutos pela orla. A Praia do Cajueiro tem areia fina, água morna e a sombra do cajueiro centenário que deu nome ao local. Boa para um banho tranquilo no começo ou no fim do dia, sem o movimento da Ilha do Amor.
Onde nos hospedamos em Alter do Chão
Pousada Sombra do Cajueiro, nossa escolha
Ficamos na Pousada Sombra do Cajueiro, a menos de 2 minutos a pé da Praia do Cajueiro. Hospedagem familiar, chalés de madeira, varanda com rede e café da manhã com açaí fresco, tapioca e frutas regionais. O que mais usamos foi a cozinha: com o Nicolas pequeno, ter autonomia para fazer mingau à noite e não depender de restaurante em todo momento foi fundamental.
O staff foi atencioso em todos os momentos: ajudaram com transfer, indicações de passeios e dicas de onde sacar dinheiro (faça isso antes de sair de Santarém, aprenda com nossos erros). Preços em torno de R$ 250 a R$ 350 por noite para casal com café incluído, dependendo da temporada. Na alta temporada, reserve com antecedência.
Outras opções por perfil
- Mais estruturado: Villa Eden ou Beloalter Hotel, com vistas para o Tapajós e estrutura mais completa
- Mais econômico: Pousada do Mingote, com boa localização sem pesar no bolso
- Com cozinha própria: acomodações de temporada no Airbnb, ideal para famílias com criança
Uma dica que vale ouro: hospede-se em Alter do Chão, não em Santarém. Fazer o trajeto de 40 minutos de ida e volta todo dia cansa e desperdiça tempo de viagem. Estar a pé dos passeios, do centrinho e das praias vale muito mais.
Perguntas frequentes sobre a Floresta Encantada em Alter do Chão
O passeio funciona na época de seca?
Sim, ao contrário do que a maioria dos artigos diz, a Floresta Encantada não fecha na seca. O formato muda: em vez de canoa pelo igapó, o passeio é feito a pé pela mata do Caranazal. No final do percurso ainda é possível tomar banho no igarapé. Ligue com antecedência para o Restaurante Caranazal para confirmar disponibilidade e formato.
Quanto custa o passeio de canoa na Floresta Encantada?
O passeio de 30 minutos custa R$ 70 por canoa (até 4 pessoas). O de 1 hora custa R$ 100 por canoa (até 4 pessoas). O valor é por embarcação, não por pessoa: quatro pessoas dividindo saem a R$ 25 cada no passeio de 1 hora. Leve dinheiro vivo ou PIX; maquininha pode não funcionar no local. Valores verificados em julho de 2024.
Qual a diferença entre o passeio de 30 minutos e o de 1 hora?
O de 30 minutos faz o percurso circular pelo igapó e volta. O de 1 hora vai até uma praia no final do canal: tem banho de rio, mergulho e mais tempo de contemplação dentro do igapó. Quem foi nos dois recomenda unanimemente o de 1 hora. Trinta minutos é curtinho demais para absorver o que o lugar tem a oferecer.
Quais animais dá para ver na Floresta Encantada?
Com frequência: iguanas nas árvores das margens e macacos nas bordas do canal. Aves são constantes: tucanos, martins-pescadores, garças e araras. Raramente: preguiças (possível, mas não conte com isso) e ariranhas (mais prováveis no Lago Verde do que dentro do igapó). Botos ficam nas águas abertas do Tapajós, não no canal fechado.
Precisa contratar guia?
Não separadamente: o canoeiro que conduz a embarcação é o guia e está incluso no preço. Não é necessário contratar nada adicional. A qualidade varia com o condutor: alguns são excelentes narradores; outros são mais silenciosos. A beleza do lugar compensa qualquer coisa.
Qual a melhor época para visitar a Floresta Encantada?
Para o passeio de canoa pelo igapó: março a maio, no pico da cheia, quando o nível da água está mais alto e a imersão é total. Para quem vai na alta temporada das praias (setembro a dezembro): o passeio existe no formato a pé pela mata. Agosto é época de transição: confirme a disponibilidade da canoa antes de ir.
Por que se chama Floresta Encantada?
O nome turístico surgiu dos próprios visitantes, que saíam sem conseguir descrever o que tinham visto. A lenda mais contada: índios que entravam na floresta alagada para pescar e nunca voltavam, diziam que “ficavam encantados”. O local é também associado às lendas da Iara (sereia dos rios) e do Curupira (protetor da floresta). O nome geográfico oficial é Igarapé Cuicuera, dentro da comunidade do Caranazal.
Como chegar saindo do centro de Alter do Chão?
De barco pela ACFA (orla principal): o trajeto pelo Lago Verde leva uns 15 minutos, a forma mais comum em passeios organizados. Por conta própria: táxi (R$ 30), mototáxi (R$ 10) ou bicicleta alugada (R$ 30 por dia) até o Restaurante Caranazal, onde começa o passeio de canoa. A pé são uns 40 minutos, possível, mas cansativo com o calor.
Dá para ir à Floresta Encantada e à Ilha do Amor no mesmo dia?
Sim, esse é o roteiro clássico de Alter do Chão. Floresta Encantada de manhã, Ilha do Amor ao meio-dia para almoço com os pés na água e, se tiver energia, Trilha da Serra da Piraoca no começo da tarde para o pôr do sol lá de cima. Um dia longo, mas dos que justificam a viagem inteira.
O que é igapó?
Igapó é uma floresta alagada amazônica, adaptada a longos períodos de inundação: algumas espécies ficam submersas por até 10 meses por ano. O nome vem do tupi e significa “raízes d’água”. Os igapós cobrem cerca de 300.000 km² da bacia amazônica e são habitat crucial para espécies endêmicas como o tambaqui, o tracajá e dezenas de aves. A Floresta Encantada de Alter do Chão é um igapó de água clara, o que cria os reflexos espelhados característicos que tornam o passeio visualmente único.
A Floresta Encantada não é o passeio mais longo de Alter do Chão, nem o mais físico, nem o mais desafiador. Mas tem algo naquele silêncio dentro do canal, naquele jogo de luz entre os troncos submersos, que fica. A gente saiu de lá com a sensação de ter estado em algum lugar que a maioria das pessoas nunca vai ver, e isso tem um valor que nenhuma planilha de roteiro consegue calcular.
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