Trilha da Cachoeira do Funil: o que fazer em Vila Bela da Santíssima Trindade (MT)

Tempo de leitura: 4 minutos

youtube-mato-grosso-vila-bela-cachoeira-do-funil-vamos-trilhar

A tarde em Vila Bela começa a pesar por volta das duas horas. O sol do oeste mato-grossense não negocia, e foi exatamente nesse horário que a gente calçou o tênis e decidiu encarar a trilha da Cachoeira do Funil. Ninguém falou nada, mas todo mundo sabia que não ia ser leve.

O acesso começa a 25 quilômetros da cidade, por estrada de terra, entrando pelo restaurante da Meire. Tem cobrança de taxa no local, e guia é obrigatório, o que, depois de ver o estado da trilha, faz todo sentido. Os primeiros metros já avisam o que vem pela frente: pasto aberto, zero sombra, sol direto na nuca. A gente caminhava devagar, mais por resignação do que por estratégia. O calor prensava.

Vila Bela da Santíssima Trindade tem esse feitio de cidade que parece estar no limite do mapa. A viagem até lá já tem atrativo próprio — no caminho, passando por Cáceres, a gente ainda parou na Dolina Água Milagrosa, uma formação geológica que aparece do nada no meio do cerrado e que é difícil de descrever sem parecer exagero. Fica no extremo oeste do Mato Grosso, encostada na Bolívia, e foi a primeira capital do estado, fundada pelos portugueses em meados do século 18 justamente para garantir que a terra não fosse parar nas mãos dos espanhóis. A cidade durou pouco como capital: em 1835 perdeu o posto para Cuiabá, e boa parte da população foi embora, deixando casas, objetos e até escravos. Esses escravos ficaram, formaram comunidade, e a presença deles ainda pulsa na cidade hoje. É um lugar com camadas. E o parque que guarda a serra ao fundo, o Serra Ricardo Franco, tem as mesmas camadas, só que em rocha e vegetação. É um Mato Grosso que a maioria das pessoas ainda não conhece.

Depois de uns quinze minutos a pleno sol, a trilha entrou na mata ciliar e o mundo mudou de temperatura. A sombra fechou, o rio apareceu do lado esquerdo e ficou lá durante quase todo o percurso, companheiro de caminhada. O cheiro de barro úmido tomou conta. As pernas começaram a funcionar de outra forma, mais à vontade, menos defensivas.

A primeira cachoeira aparece sem aviso. A da Laje é menor, cai em degraus, e tem um lajeado de pedra embaixo que reflete a montanha ao fundo de um jeito que faz todo mundo parar e tirar foto. Não tem piscina pra banho, mas o visual compensa a parada. Ficamos alguns minutos, bebemos água, seguimos.

A Cachoeira da Samambaia foi outra história. Com uns 20 metros de altura, ela despenca numa piscina de água azul-turquesa que parece pintada. Do lado da queda tem uma pequena gruta, e na frente um conjunto de pedras que serve de mirante natural. É o tipo de lugar que faz a gente olhar pra um lado, olhar pro outro, e não saber muito bem onde focar. Um dos nossos pegou um carrapato ali. Parada técnica, remoção cuidadosa, seguiu em frente.

Depois da Samambaia começa o trecho que machuca de verdade. A subida fica mais íngreme, aparece um barranco ou dois que pedem atenção, e a sinalização vai ficando cada vez mais escassa. Não é nada que exija equipamento técnico, mas também não é hora de relaxar. O coração acelera, as pernas reclamam um pouco, e a trilha vai ficando mais silenciosa, como se ela fosse afunilando junto com a paisagem.

E aí a Cachoeira do Funil aparece.

A água cai de mais de cem metros, dividida em dois jatos que batem nos paredões antes de chegar ao poço embaixo. A formação rochosa cria exatamente aquilo que o nome promete: um corredor estreito que comprime a água antes de soltá-la. A piscina inferior é funda, escura no centro e transparente nas bordas. Mesmo com o cansaço das pernas e a subida ainda pulsando nos músculos, ninguém cogitou não entrar. A água estava gelada, do tipo que faz a gente soltar um barulho involuntário quando molha o peito. Ficamos um tempo sem falar muito, só curtindo.

O retorno foi pela mesma trilha, agora no sentido contrário, com a luz mudando e a mata começando a ficar mais escura. Perto do final, quando as pernas já pediam cama, as araras apareceram. Primeiro um par de azuis, depois algumas vermelhas, voando baixo e ruidosas. Atrás delas, uma ema atravessando o campo aberto no passo largo e levemente ridículo que a ema tem. Seriemas cantando ao fundo. A gente parou, assistiu, e não disse muita coisa.

De volta em Vila Bela, banho longo, hotel, e depois um quiosque perto dali com pintado à parmegiana. Quem curte esse tipo de aventura em cachoeiras e piscinas naturais vai encontrar boas referências no blog. O peixe do Guaporé, servido quente, com aquela crosta de molho por cima. Depois de um dia desse, qualquer coisa seria boa. Mas o pintado foi especialmente boa.

Confira o vídeo:

? MEU BLOG: https://www.vamostrilhar.com.br

? MINHAS REDES SOCIAIS:
Instagram – 
http://www.instagram.com/vamostrilhar
Facebook – 
http://www.facebook.com/vamostrilhar
Pinterest – 
https://www.pinterest.com/vamostrilhar
Tiktok – 
https://www.tiktok.com/@vamostrilhar

? SE INSCREVE AQUI NO CANAL: http://bit.ly/24Q5stg

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *