Cachoeira Azul na Fazenda Recanto da Serra: o que fazer em Barra do Garças (MT)

Tempo de leitura: 7 minutos

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O despertador tocou às 06h30 e a primeira coisa que a gente fez foi olhar pela janela. Céu aberto, luz ainda baixa — o tipo de manhã que pede pressa antes que o sol suba alto demais. Descemos para o café da manhã na Pousada Sol do Araguaia com apetite de quem sabe que vai precisar de energia: tinha frutas, pão, frios, ovos. Mais do que suficiente para o que estava por vir.

Às 07h30, a van estava carregada e a gente ainda fez uma parada num mercado no caminho para comprar lanche. Detalhe que parece pequeno, mas faz toda a diferença — não existe almoço no meio do percurso, e o tempo que a gente passa na cachoeira sempre dura mais do que o planejado.

O trajeto até a Fazenda Recanto da Serra é de cerca de 1h30. Começa no asfalto, vai mudando para estrada de terra, e o cenário acompanha a transição: a cidade vai sumindo aos poucos, e no lugar aparecem chapadas, formações rochosas, o cerrado mais fechado. É o tipo de viagem em que a distância não cansa — pelo contrário, vai construindo expectativa.

Barra do Garças fica no extremo leste do Mato Grosso, bem na divisa com Goiás, e a Serra do Roncador começa a se impor no horizonte quilômetros antes de você chegar. É uma formação montanhosa que atravessa o estado e carrega uma história densa: foi por aqui que o explorador britânico Percy Fawcett passou no início do século XX em busca de uma civilização perdida que ele chamava de “Z” — e nunca voltou. Os Xavante, povo indígena que habita a região há séculos, conhecem esse território como ninguém. E o próprio nome “Roncador” vem do som que a serra faz quando o vento passa pelas formações rochosas de um jeito específico — um ronco surdo que os moradores mais antigos descrevem como se a montanha estivesse respirando. Independentemente do que se acredita sobre os mistérios do lugar, o ambiente tem uma presença difícil de ignorar.

A fazenda fica aos pés de uma dessas ramificações da serra. Ao chegar, ainda tivemos tempo de organizar os equipamentos: perneiras nos tornozelos — obrigatórias para esse tipo de trilha, onde o risco de encontrar animais peçonhentos existe de verdade — e a mochila com água, lanche e protetor solar. Depois, a van nos levou até o ponto de partida da trilha, dentro da propriedade.

A caminhada começa tranquila. Atravessa uma ponte de madeira sobre o rio e chega, logo adiante, a uma bifurcação. Um caminho vai para a Cachoeira Azul. O outro, para a Cachoeira Perdida. A gente foi pela esquerda, com a intenção de deixar a Perdida para outro dia. Boa escolha — acabou sendo uma das melhores decisões da viagem.

A trilha tem seis quilômetros no total, ida e volta, e é classificada como fácil a moderada — o que, na prática, significa que não exige preparo especial, mas tampouco é uma caminhada no parque. O trecho mais delicado foi a travessia de um rio sobre pedras irregulares, úmidas e levemente escorregadias. A gente foi devagar, um por vez, seguindo o guia. Sem drama, mas com atenção.

O que vai chamando atenção ao longo do percurso é a cor da água. Em cada poço, em cada remanso ao lado da trilha, o tom cristalino puxado para o azul já avisa o que está por vir. Em alguns trechos, dava vontade de parar ali mesmo — o calor batia forte e aqueles poços menores eram um convite quase irresistível. A gente resistiu. Valeu a pena.

Quarenta minutos de caminhada. E então o cânion se abriu.

Não tem forma certa de descrever o impacto. Nenhuma foto tinha preparado a gente para aquilo — e a gente tinha visto bastante foto. A Cachoeira Azul tem cerca de 45 metros de altura. Despenca com força dentro de um cânion fechado, formando um poço amplo que tem áreas rasas com fundo de areia branca e trechos mais profundos onde o azul fica mais intenso conforme aumenta a profundidade. Os paredões rochosos ao redor criam uma espécie de anfiteatro natural — isolado, com escala própria, como se aquele espaço existisse fora do tempo. E havia uma pequena caverna à lateral da queda, parcialmente escondida pelo véu d’água, que adicionava mais uma camada ao cenário.

Chegamos e não havia ninguém. Só a gente, o barulho da água e aquele azul impossível.

A primeira coisa que fizemos foi soltar o drone. Do alto, o cânion revelou um formato que não dá pra perceber do nível do solo: mais alongado, mais profundo, com a queda encaixada num ângulo que concentra a luz no início da manhã. Dava pra ver também a parte de cima da cachoeira, que pode ser visitada num roteiro separado — um mirante que a gente ficou devendo para uma próxima vez.

Depois das fotos, entrou na água.

Estava gelada. Não do tipo desagradável — do tipo que acorda o corpo de uma vez. O sol iluminava a queda, mas não chegava diretamente ao poço, então a sombra do cânion mantinha a temperatura baixa o suficiente para que o vento gerado pela força da água fizesse diferença. Mesmo assim — ou talvez por isso — a vontade de sair era zero.

Nadamos em direção à queda. A força da água aumenta conforme a gente se aproxima, e há um ponto em que o jato bate no peito com uma pressão que surpreende. Chegar até lá exige esforço, mas é uma daquelas conquistas pequenas que ficam. Ficamos mais de duas horas completamente sozinhos. Sem pressa, sem barulho de outro grupo chegando. Só a gente, a cachoeira, e de vez em quando o som de um pássaro que a gente não conseguia identificar lá em cima nas bordas do cânion.

Na nossa opinião — e já estivemos em muitas cachoeiras pelo Brasil — a Cachoeira Azul não perde para a Santa Bárbara nem para a Cachoeira do Formiga. É facilmente uma das mais bonitas que já encontramos. E a maioria das pessoas ainda não faz ideia de que ela existe.

Fizemos o lanche ali dentro, sentados numa pedra com os pés na água, olhando para a queda. O tipo de momento em que a gente para de pensar em coisas para pensar e simplesmente está no lugar.

A volta foi tranquila. De volta à fazenda, devolvemos as perneiras, comemos mais um pouco e embarcamos na van para o próximo ponto do dia.

O Arco de Pedra ficou para a tarde — uma formação rochosa impressionante à beira de um penhasco, com trilha curtíssima e vista que compensa cada passo. Depois, paramos para observar as figuras que os guias chamam de guardiões da região: o Índio, o Dedo de Deus e a Santa, três formações rochosas que surgem do alto da chapada com uma presença estranha, quase narrativa, como se tivessem sido posicionadas ali de propósito.

Encerramos o dia no Tucunaré na Telha, um clássico da cidade. Peixe frito com acompanhamentos, cerveja gelada e a conversa lenta de quem gastou tudo que tinha num dia bom. Voltamos para a pousada cedo, dormimos rápido.

A Cachoeira Azul não saiu do assunto durante o jantar. E continua não saindo da memória até hoje.

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