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O último dia de uma viagem tem um sabor diferente. A gente acorda sabendo que é o último café, a última mochila montada, o último arranque de manhã cedo. E aí a expectativa fica misturada com aquela melancolia antecipada de quem já sabe que o fim está chegando. Em Barra do Garças, esse dia foi diferente. A expectativa estava lá, mas a melancolia ficou do lado de fora. O que estava na frente era grande demais pra dar espaço pra tristeza.
Saímos da pousada por volta das 7h, estômago cheio, mochila nas costas, destino certo: a Estância Favo de Mel, base de operações pra uma das trilhas mais comentadas da região. Foram cerca de 1h30 de estrada até chegar lá, uma combinação de asfalto e chão batido que, dependendo das chuvas recentes, exige atenção. Ao chegar, fizemos a parada obrigatória na recepção: banheiro, ajuste de alça, cadarço bem amarrado. Nesse dia a gente começou a trilha direto dali, o que é uma mão na roda em termos de logística.
A Estância Favo de Mel não é só um ponto de largada. É uma propriedade que funciona como entrada para um conjunto de passeios dentro da Serra do Roncador, cada um com personalidade própria, desde o Cânion do Cipó até o Santuário das Araras. No dia que a gente esteve lá, a estrutura estava funcionando bem: produtos artesanais, degustações, almoço caseiro. Mas isso ficou pra depois. Primeiro, a trilha.
Barra do Garças está encravada na divisa entre Mato Grosso e Goiás, num pedaço do Brasil que muita gente não consegue localizar no mapa de cabeça mas que entrega paisagens que não ficam devendo nada a lugares muito mais badalados. A Serra do Roncador, que envolve a cidade por vários lados, tem uma história carregada: foi aqui que o explorador britânico Percy Harrison Fawcett desapareceu em 1925, em busca de uma cidade perdida que ele chamava de Z. O sumiço alimentou décadas de teorias e transformou a serra num ímã pra pesquisadores, místicos e aventureiros. Hoje a mesma serra que engoliu Fawcett recebe turistas em trilhas bem marcadas, e a contradição é parte do charme.
O Complexo da Bateia fica dentro de uma propriedade na Serra do Taquaral, extensão da Serra do Roncador que se abre em direção a General Carneiro. Existe muita coisa lá dentro: são mais de cem cachoeiras na região, mas só algumas recebem visitantes. A trilha que a gente escolheu foi a parte baixa, um percurso de cerca de 6 km no total, com ida e volta, que leva a duas quedas d’água de porte considerável: a Cachoeira do Jatobá e a Cachoeira das Furnas.
Os primeiros 1,5 km são do cerrado raiz. Vegetação baixa, sol na cara, terreno cheio de cascalho solto e pedra que pode surpreender em dia de chuva recente. Não tem como escapar do calor nesse trecho, e é aí que a gente percebe por que a recomendação de sair cedo faz sentido. O horizonte fica largo, o céu fica enorme, e a sensação de estar completamente exposto à paisagem tem um charme próprio, daquele jeito que só o cerrado consegue oferecer: sem enfeite, sem sombra, sem moleza.
Depois de um tempo andando nessa abertura, a trilha entra na mata ciliar e o mundo muda completamente. As árvores fecham por cima, o clima cai vários graus, a luz vira outra coisa, filtrada e difusa. O som da água aparece antes de qualquer visão de rio, e aí a gente começa a margear o curso d’água, passando por poços que se formam naturalmente entre as pedras, todos com aquela transparência que é marca registrada da região. Em vários momentos deu vontade de parar. A gente não parou, mas ficou registrado o aviso interno de que aquele lugar merecia mais tempo.
No caminho, a gente passa sob jatobás grandes. São árvores que carregam uma história comprida no cerrado brasileiro: o nome vem do tupi e significa, a depender da fonte, “árvore de frutos duros” ou “árvore com frutos duros”. Elas chegam a 40 metros de altura e têm uma madeira tão valorizada que estão ameaçadas em várias regiões. Os povos indígenas as consideravam sagradas, serviam os frutos antes de rituais de meditação. Por aqui, uma delas empresta o nome pra uma das maiores cachoeiras da trilha, o que faz sentido: tem árvore que é grande demais pra ter nome pequeno.
O terreno vai mudando conforme a trilha avança. Aparecem raízes cruzando o caminho, o chão fica mais irregular, e em certos pontos a gente literalmente sobe o leito do rio pelas pedras, com cuidado redobrado porque elas estão cobertas de limo e não perdoam quem pisa sem atenção. Foi a trilha mais tranquila da viagem em termos de esforço, mas exige presença constante dos pés.
Depois de pouco mais de uma hora caminhando, chegamos na Cachoeira do Jatobá e decidimos não parar ali. Seguimos por mais uns dez minutos subindo o rio e chegamos na Cachoeira das Furnas, dentro de um cânion que já fecha o horizonte dos dois lados. A queda tem algo em torno de 40 metros e forma um poço amplo com áreas rasas de areia, ideal pra sentar e ficar olhando. No dia que a gente foi, tinha uma árvore enorme caída dentro do poço, provavelmente arrastada por uma cabeça d’água recente, o que deixava o cenário com uma cara ainda mais selvagem, como se a natureza tivesse acabado de redecorar o espaço do jeito dela. Ficamos ali uns 40 minutos, na água e fora dela, sem pressa.
No retorno, paramos na Cachoeira do Jatobá. E aí a coisa ficou séria. A queda cria um vento constante mesmo antes de você entrar na água, daquele tipo que faz o cabelo molhar antes do mergulho. O poço é fundo em praticamente todos os pontos, não dá pé em quase nenhuma parte, então é preciso saber nadar ou ter algum suporte. A gente entrou, encarou a temperatura (baixa, inevitável), e foi até perto da queda. Dá pra sentir claramente onde a força da água é maior e onde ela afrouxa, e navegar entre essas variações é parte da experiência. Enquanto a gente estava no poço, conseguimos subir o drone e ver a cachoeira de cima. Aquela perspectiva que só o ar dá: a queda branca cortando a rocha escura, o poço formando um espelho embaixo, a mata fechando por todos os lados. Ficamos mais 30 minutos antes de começar o retorno de verdade.
Voltamos pela mesma trilha, mais devagar, absorvendo as coisas que a gente passa rápido quando está animado na ida. A mata ciliar de volta é outra mata: mais silenciosa, mais conhecida, e com uma luz diferente conforme o sol avança. Chegamos na Estância Favo de Mel cansados do jeito bom.
O almoço estava na mesa. Macarrão, feijão, farofa, salada, linguiça, bife. Comida simples que depois de trilha vira outra coisa completamente. R$ 60 por pessoa, e vale cada centavo. Depois de comer, ainda teve tempo pra explorar o que a estância oferece além das trilhas. Provamos diferentes méis produzidos ali mesmo: o da abelha europeia e o da jataí preta, uma abelha nativa sem ferrão que coincidentemente tem o mesmo nome da árvore que vimos na trilha, porque as flores do jatobá são uma das suas fontes preferidas. O mel da jataí foi nosso favorito: mais escuro, mais denso, com um sabor que não se parece com nada que a gente compra em supermercado. Veio com a gente. Também compramos uma lembrança do Santuário das Araras, passamos pela degustação de cachaça sem parar, tomamos banho e trocamos de roupa.
Com tudo pronto, pegamos estrada rumo a Cuiabá. Foram 8 horas de deslocamento, chegando por volta das 22h20. Aquele tipo de retorno em que o cansaço e a satisfação chegam juntos e é difícil separar um do outro. A Trilha da Bateia (parte baixa) entregou o que a gente esperava e um pouco mais: não só pelas duas cachoeiras, mas pelo conjunto todo de experiências que só fazem sentido quando você está lá, com os pés molhados e a mochila nas costas.
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