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Às 06h30 a gente já estava na estrada. O café da manhã tinha sido rápido, meio mecânico, daquele jeito que acontece quando a cabeça já está em outro lugar. E estava: o Cânion do Cipó era o objetivo do dia, e a gente sabia que para pegar aquela luz dentro do cânion precisava chegar cedo.
No caminho ainda paramos num mercado para comprar lanche. Como o almoço viria horas depois do que qualquer pessoa consideraria horário de almoço, era melhor ir com alguma coisa na mochila. Então, lanche comprado, mais de uma hora de estrada, e a gente chegou à Estância Favo de Mel sem parar na recepção. Direto para a trilha.
A Estância fica a cerca de 50 km do centro de Barra do Garças, dentro da Serra do Roncador, e é uma propriedade privada que vem abrindo as portas para o ecoturismo com uma coleção de atrativos que vai se revelando aos poucos, trilha por trilha. O Cânion do Cipó é um deles, e provavelmente o mais emblemático: um corredor natural aberto pela água entre paredões de rocha, por onde corre um rio de tom azul que varia entre o cristalino e o esmeralda dependendo da estação. A gente estava ali no tempo certo.
O início da trilha é o mesmo que leva ao Santuário das Araras. Depois de um trecho compartilhado, tem uma bifurcação à direita. Sem placa, sem seta. Esse é o tipo de lugar que não existe sem guia, seja pela navegação ou pelas pedras que vêm logo depois. Seguimos.
Boa parte da trilha é aberta, sem sombra. Protetor solar, chapéu, manga comprida com proteção UV. Não é opcional. Mas o terreno em si foi mais fácil do que os dias anteriores, com poucas subidas longas, o que a gente recebeu como presente. A dificuldade apareceu quando o caminho começou a seguir o leito do rio: pedras cobertas de musgo, lisas como sabão, exigindo atenção em cada passada. Dá para imaginar o que acontece se a cabeça fica nas fotos enquanto o pé não está seguro.
Depois de 1h40 de caminhada, a gente chegou no cânion. A primeira visão é de parar. A água fica mais azul conforme o sol vai entrando, e quando o ângulo de luz acerta o corredor, o tom fica quase irreal. A gente parou, respirou, comeu alguma coisa, tirou foto. Mas sabia que o essencial ainda estava lá dentro.
Vestimos os coletes salva-vidas e entramos. A água era gelada, mas o frio que pegava de verdade vinha de outra direção: o vento que escorrega pelo cânion acima e chega até quem está na água. Tremi bastante, mais pelo ar do que pelo rio.
Nadamos por cerca de 100 metros até o primeiro obstáculo: uma escada de ferro cravada diretamente na rocha. Subimos, chegamos a um patamar mais alto e de lá conseguimos ver o cânion de cima. É um ângulo diferente, que mostra a escala da formação de um jeito que a entrada não entrega.
Continuamos subindo o rio. E na primeira curva, a gente se deparou com a Cachoeira dos Amigos. Com cerca de 40 metros de queda, ela despenca num poço fundo e transparente. O som é de outro mundo: o barulho da água bate nas paredes de pedra e volta amplificado. Nas fendas das rochas ao redor, morcegos. A gente conseguiu ouvi-los, esse chiado seco que eles fazem. Ficamos 30 minutos ali. Parecia pouco.
Na descida, alguns do grupo resolveram pular de uma saliência dentro do cânion. Uns 7 metros de altura, direto para a água. Preferi não ir dessa vez. Desci pela escada até a metade e pulei a partir daí. Adrenalina na medida certa.
De volta à trilha, a gente parou num poço menor para descansar e lanchar antes do próximo atrativo. Naquele momento o cansaço tinha chegado, uma preguiça instalada nas pernas depois de horas de pedra e água fria. Mas aí apareceu a Cachoeira do Sossego, e o cansaço sumiu.
Ela fica escondida entre as rochas de um jeito que não dá para imaginar de longe. Quando a gente vira a última curva e ela aparece, o cenário é outro: poço amplo, várias quedas de diferentes alturas, e uma delas caindo dentro de uma pequena gruta. A gente tomou banho em todas. Ainda achamos um buraco natural na pedra que funciona como escorrega, passa direto para o outro lado do rio. Dói um pouco na descida porque a rocha arranha, mas ninguém deixou de usar. Ficamos 40 minutos ali recarregando tudo.
O último ponto antes do retorno foi a Pedra do Sacrifício. O nome é preciso: ela tem o formato e o porte de uma mesa de rituais antigos, larga, plana, imponente. Subimos para tirar foto com os paredões ao fundo, mais um registro antes de fechar o dia.
Daí foi uma hora de trilha de volta, a van, e a recepção da Estância para o que o guia chamou de almoço, mas que pelas 16h já era outra coisa. Comi macarrão, feijão, legumes, beterraba, farofa, ovo e galinha. Parecia o melhor prato do mundo.
Uma coisa deu errada no caminho: minha bota abriu o solado no meio da trilha. O guia tinha uma sandália de água resistente à venda por 80 reais. Comprei na hora, sem negociar. Os próximos dias pediam calçado fechado, e não tinha outra opção. Lição que a trilha dá e a gente ignora até acontecer: equipamento não é capricho.
Mais de uma hora de estrada de volta à pousada. A janela estava aberta, o vento batendo, e ninguém falava muito. Tinha sido um dia desses que cansa o corpo de um jeito bom, o tipo de cansaço que não pede desculpa.
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