Trilha da Poaia: o que fazer em Vila Bela da Santíssima Trindade (MT)

Tempo de leitura: 6 minutos

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A gente acordou antes do alarme. Isso já diz tudo sobre o nível de expectativa.

Tinha aquela vibe específica de manhã de aventura: a mochila já meio pronta da noite anterior, o silêncio do hotel ainda pesado, o café rápido e o carro carregado no escuro. Vila Bela da Santíssima Trindade ainda dormia quando saímos — e quinze quilômetros de estrada de terra depois, chegamos ao início da Trilha da Poaia com o sol ainda baixo e a mata exalando aquele cheiro de umidade que mistura folha seca com barro fresco.

Vale um segundo para falar sobre onde a gente estava, porque Vila Bela não é um destino qualquer. A cidade foi fundada em 1752, às margens do Rio Guaporé, como primeira capital da Capitania de Mato Grosso. Os portugueses vieram pelo ouro, mas ficaram — pelo menos por um tempo — numa terra que hoje carrega história afro-brasileira densa, as ruínas de uma catedral barroca que nunca foi terminada e um parque estadual encostado na fronteira com a Bolívia. O nome do parque é Serra de Ricardo Franco, e é lá dentro que a maioria das trilhas acontece, num ponto de transição entre o cerrado e a Amazônia onde tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Aliás, quem chega até aqui costuma ter passado por Cáceres no caminho — e se não parou na Dolina Água Milagrosa, está deixando uma das formações geológicas mais estranhas do Mato Grosso passar em branco.

A Trilha da Poaia fica dentro desse contexto. O nome vem de uma planta medicinal que crescia bastante na região e que já foi bastante explorada no passado. Hoje, o que resta é a memória no nome e um roteiro de cerca de oito quilômetros que alterna subida pesada, mata fechada, mirantes sem proteção nenhuma e uma sequência de poços com água numa tonalidade de azul-verde que parece editada por alguém com muito tempo livre.

A subida inicial deixa claro logo de cara que não é um passeio de domingo. O terreno sobe firme, com pedras soltas e alguns trechos onde o chão ainda guardava umidade da última chuva. Existem cordas instaladas nos pontos mais íngremes, e a gente usou sem cerimônia. Não tem vergonha nisso. Tem bom senso.

Depois que o terreno nivela um pouco, a trilha abre para a mata e o ritmo muda. A sombra fecha, o calor diminui, os passos ficam mais constantes. E então, sem aviso, aparece o primeiro mirante.

A gente estava em cima da Cachoeira dos Namorados. Uma queda de cerca de setenta metros que desce entre paredões de arenito. Dali de cima, o que se vê é o rio serpenteando entre as rochas antes de desaparecer lá embaixo, e o som chega abafado pelo vento, como se a cachoeira estivesse acontecendo em outro plano. Não tem grade, não tem corrente, não tem nada separando a gente da queda. O tipo de lugar que faz a pessoa ficar bem parada e olhar com cuidado antes de dar qualquer passo.

A gente ficou ali por um tempo que não soube medir direito.

Depois do mirante, começou a descida até o leito do rio, e foi aí que a trilha virou outra coisa. Se antes era trekking, agora era exploração. A ideia era subir o rio, passando pelos poços em sequência, cada um com suas próprias características.

O primeiro já causou estrago. Água translúcida numa variação entre azul e verde que depende do ângulo em que o sol bate nas pedras. Profundo o suficiente para mergulho. A temperatura, naquele horário de manhã, estava no limite do tolerável — o que é uma forma delicada de dizer que o primeiro contato gelou bastante. A gente entrou mesmo assim.

Mais acima, um segundo poço com cara completamente diferente: mais raso, com formações rochosas que pareciam trabalhadas, uma queda pequena caindo por cima das pedras numa espécie de massagem natural. A gente ficou ali mais tempo do que planejava.

Havia um terceiro poço no caminho, mas decidimos guardar para a volta. Continuamos subindo até chegar em uma grande laje de pedra que se estendia por um bom trecho. Na época de cheia, aquilo tudo fica coberto d’água e vira um espelho. Como estávamos na seca, o que a gente viu foi a rocha exposta, cinza e larga, com o verde da mata em volta formando um contraste que funciona muito bem.

E então chegamos ao Poço da Poaia.

Uma queda de uns três metros distribuída em degraus de pedra alimenta um poço de cor azul-esverdeada intensa, com partes rasas nas bordas e uma profundidade considerável no centro. A luz batia de um ângulo que fazia a água parecer iluminada por baixo. Ao redor, borboletas. Não poucas, não discretas. Muitas, voando de um lado para o outro numa intensidade que, em qualquer outro contexto, pareceria exagerada. Ali parecia óbvio.

A gente também encontrou aranhas pelo caminho, algumas bem grandes. Faz parte do pacote.

Paramos no poço para o lanche, sentados nas pedras com os pés ainda molhados, ouvindo o som da água e sem muita pressa de ir a lugar nenhum. Tem momentos numa viagem em que o roteiro para por conta própria e a experiência acontece sozinha. Foi um desses.

A volta cobra o seu pedágio. Tudo que tinha descido na ida voltou a ser subida, e os músculos já estavam no acumulado do dia. Curiosamente, a parte mais exigente foi a descida final, com o terreno irregular pedindo atenção nos joelhos a cada passo. Paramos no poço que tínhamos pulado na ida. Duas quedas, profundo, água mais fria com o sol mais alto. O banho foi intenso.

Quatro poços no total, mais o mirante acima da Cachoeira dos Namorados. Cada um diferente, nenhum decepcionante. Se você quiser entender a escala do que o Parque Serra Ricardo Franco guarda, vale dar uma olhada no nosso guia completo sobre o que fazer em Barra do Garças — outra região do Mato Grosso que também entrega esse tipo de cachoeira e piscina natural de água cristalina.

No final da tarde, depois do banho no hotel e de reabastecer o estoque de lanches para o dia seguinte, a gente foi até a orla. O Rio Guaporé na hora do pôr do sol é uma coisa simples e absurdamente bem feita: uma pracinha tranquila, o céu mudando devagar, o reflexo na água. Ficamos até o laranja virar roxo.

O jantar foi no Quiosque Coisas de Vila Belense. Peixe pintado à parmegiana, R$ 35, porção bem servida. Já era a segunda vez que eu pedia o mesmo prato. Não foi por falta de opção.

A Cachoeira do Jatobá estava prevista para o dia seguinte. A trilha mais difícil do roteiro. Mas isso ainda estava longe — e naquele momento, o que havia era o prato na mesa, o som de cidade pequena à noite, e a sensação de quem passou o dia inteiro no lugar certo.

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