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O passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns é um dia inteiro de barco, praias quase desertas, imersão numa comunidade ribeirinha e uma das cenas mais impressionantes que já vivemos na Amazônia: centenas de tartarugas com até um metro de comprimento emergindo à superfície de um lago escuro, ao mesmo tempo, tão perto que dá para contar as escamas.
Saindo de Alter do Chão, no Pará, o roteiro leva ao Rio Arapiuns (afluente do Tapajós com água de outra cor, outro sabor, outra energia) e desembarca na Comunidade Coroca, onde moradores preservam tartarugas amazônicas há décadas em parceria com o IBAMA, criam abelhas nativas sem ferrão e servem o almoço mais gostoso que comemos em toda a viagem.
O passeio dura aproximadamente 10 horas, inclui paradas em praias selvagens, avistamento de botos, visita ao meliponário, alimentação das tartarugas no Lago Coroca, almoço comunitário e encerramento com pôr do sol. Não está incluído no valor da lancha: a taxa comunitária (R$ 25 por pessoa), o almoço (R$ 50 por pessoa) e os extras na loja da comunidade.
Fizemos esse passeio em família, com nosso filho Nicolas, em julho de 2024, e aqui vai o relato completo, com horários reais, preços atualizados, cada parada, cada detalhe que não aparece em nenhum outro guia. Se você ainda está montando o roteiro da viagem, nosso primeiro dia em Alter do Chão tem um bom ponto de partida para entender a logística de chegar e se instalar na vila.
O que é o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns?

O passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns é uma excursão de barco de dia inteiro que sai de Alter do Chão, cruza o Rio Tapajós, entra no Rio Arapiuns e chega à Comunidade Coroca, uma pequena vila ribeirinha dentro da RESEX Tapajós-Arapiuns, na margem esquerda do rio. O roteiro combina praias selvagens, avistamento de botos, um meliponário de abelhas nativas e o Lago das Tartarugas, ponto alto da experiência.
Na Coroca, o turismo existe para sustentar a preservação. Os moradores criaram um modelo que funciona há décadas: quem visita paga uma taxa, circula pelos projetos da comunidade, come no restaurante local e vai embora com mel, artesanato de palha de tucumã e, se tiver sorte, a certeza de que acabou de viver algo que não se encontra em mais nenhum destino do Brasil.
O ponto alto é o Lago das Tartarugas, um lago dentro da comunidade onde vivem cerca de 500 tartarugas-da-Amazônia, algumas chegando a 70 cm e outras ultrapassando 1 metro de comprimento. Você embarca numa balsa não motorizada, puxada por corda até o centro do lago, e a ração que o guia joga na água faz o resto: dezenas de cabeças surgem ao mesmo tempo, em silêncio, tão perto que o instinto é recuar.
Mas o passeio é muito mais do que o lago. Há praias de areia branca quase desertas ao longo do Arapiuns, a chance real de ver botos cor de rosa e tucuxi nadando perto do barco, um meliponário com abelhas sem ferrão onde você prova méis com sabores que nunca imaginou existir, e um pôr do sol sobre o rio que, dependendo do ângulo e do dia, parece pintado à mão.
Para quem é ideal: famílias (o Nicolas tinha quase 2 anos e aproveitou cada parada), ecoturistas, quem quer ir além das praias do Tapajós, e qualquer pessoa disposta a passar um dia inteiro no rio sem celular, sem pressa e com mente aberta para o que vem.
Sobre o Rio Arapiuns

O Rio Arapiuns é um afluente do Tapajós com cerca de 7.000 km² de área de drenagem. Quem olha o mapa acha que é mais do mesmo, mais Amazônia, mais rio largo. Mas quem entra nas águas entende a diferença na hora.
As águas do Tapajós têm tom esverdeado e uma translucidez que parece de mar. As do Arapiuns são mais escuras, mais ácidas, com pH entre 4,4 e 6,2, e cristalinas de um jeito diferente: você mergulha e enxerga o fundo com clareza, mas a cor é outra, mais fechada, como se o rio guardasse segredos. Quem trabalhou com geologia compararia com “água destilada”, pobre em nutrientes e quase sem plâncton, o que explica por que as praias do Arapiuns têm uma limpidez que as do Tapajós não têm.
Na prática, para o viajante, isso significa praias mais selvagens, menos visitadas, com uma sensação de lugar intocado que é difícil de encontrar em outros destinos.
O nível das águas oscila 5 a 6 metros entre a cheia e a seca. Na seca, entre julho e dezembro, os bancos de areia emergem e viram praias que na cheia ficam completamente submersas. É por isso que o passeio tem cara diferente dependendo da época do ano.
A Comunidade Coroca, no coração do Rio Arapiuns

A Coroca existe formalmente desde a década de 1920, quando Manoel Santos e Maria Pereira estabeleceram os primeiros assentamentos naquela margem do Arapiuns. O nome pode vir do sobrenome do fundador ou da ave anu-coroca, comum na região. Ninguém sabe ao certo, e essa indefinição faz parte do charme do lugar.
O turismo de base comunitária começou nos anos 1990, com o incentivo de um padre alemão chamado José Gröis, que atuou na área por 14 anos e convenceu os moradores a criar um projeto de preservação de tartarugas em vez de caçá-las. A parceria com o IBAMA formalizou o que hoje é o Programa Quelônios da Amazônia na Coroca.
Hoje, a comunidade tem cerca de 20 famílias, e os três pilares que sustentam a renda local são a preservação de quelônios, a meliponicultura e o artesanato de palha de tucumã. Em 2025, a Coroca recebeu mais de 950 visitantes apenas no primeiro quadrimestre, um número que impressiona para uma vila tão pequena e tão distante do mundo.
A Associação de Trançados do Arapiuns (A.ARTA), fundada em 2006, reúne artesãos de oito comunidades ribeirinhas. Só entre janeiro e abril de 2025, a galeria de artesanato da Coroca movimentou mais de R$ 136 mil em vendas, com peças de palha de tucumã tingida com plantas nativas em formas de cestas, bolsas, mandalas e luminárias que valem muito mais do que o preço pedido.
O trabalho de preservação segue ativo e cresce a cada ano. Segundo reportagem do site Tapajós de Fato, em fevereiro de 2025 a comunidade devolveu ao rio cerca de 2.000 filhotes de tartaruga-da-Amazônia numa nova soltura, reforçando o ciclo de repovoamento que sustenta o passeio até hoje.
Informações práticas sobre o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns
Quanto custa o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns

Os custos do passeio se dividem em duas partes: o transporte de lancha e os gastos dentro da comunidade. Muita gente fica confusa porque alguns sites misturam tudo. Aqui vai o detalhamento real, com base no que pagamos em julho de 2024.
| Item | Valor |
| Passeio (lancha compartilhada via ATUFA ou operadora) | R$ 200 a R$ 300 por pessoa |
| Taxa comunitária Coroca (trilha + tartarugas) | R$ 25 por pessoa |
| Almoço no Restaurante Pés na Areia | R$ 50 por pessoa |
| Suco (taperebá, cupuaçu) | R$ 5 por unidade |
| Sobremesa (torta ou creme de cupuaçu) | R$ 7 por unidade |
| Artesanato e mel (opcional) | Variável |
O valor da lancha varia bastante dependendo do tamanho do grupo: quanto mais pessoas, mais barato por cabeça. Grupos de 4 a 6 pessoas pagam em torno de R$ 250 a R$ 300 cada, enquanto grupos de 8 a 10 pagam menos. Dinheiro em espécie é essencial para tudo dentro da comunidade, já que não há maquininha.
Como contratar o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns

A forma mais simples é pela ATUFA (Associação de Turismo Fluvial de Alter do Chão), com base no cais da orla de Alter do Chão. O telefone de contato mais recente que temos é (93) 99231-8513, mas confirme na chegada, pois os contatos podem mudar. O grupo mínimo é de 4 pessoas e a embarcação comporta até 10.
Quem viaja em grupo pequeno, com 2 ou 3 pessoas, pode tentar juntar com outros interessados direto na ATUFA, ou contratar via operadoras locais como a Pérola Ecotour, a Selvagem Tours ou a Cuicuera Ecotour. A alternativa que funcionou pra gente foi pedir para a própria pousada intermediar: o Eduardo, da Pousada Sombra do Cajueiro, resolveu tudo em uma ligação.
Lanchas particulares, com frete privativo, são opção para quem quer mais flexibilidade de horário e paradas, mas saem mais caro.
Quanto tempo dura o passeio e qual é o roteiro completo

O passeio dura em média 10 horas, com saída por volta das 9h e retorno após o pôr do sol. Veja o resumo das etapas:
| Etapa | Duração | Destaques |
| Navegação Alter do Chão → Arapiuns | 1h a 1h30 | Travessia do Tapajós, mudança das águas |
| Ponta do Icuxi | ~30 min | Banco de areia, banho, brisa amazônica |
| Praia do Toronó | ~45 min | Botos perto do barco, águas calmas |
| Comunidade Coroca | 2h a 3h | Meliponário, tartarugas, almoço, redário |
| Praia de Caracaraí | ~30 min | Águas rasas, boa para crianças |
| Pôr do sol (Praia do Jacaré ou Ponta do Cururu) | ~1h | Contemplação, frutas |
Melhor época para fazer o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns

A Comunidade Coroca funciona o ano todo, mas o passeio completo, com as paradas nas praias do Arapiuns, só acontece de verdade no verão amazônico, entre julho e dezembro, quando o nível do rio baixa e os bancos de areia emergem. É nesse período que a Ponta do Icuxi, o Toronó, Caracaraí e a Ponta Grande aparecem do jeito que você vê nas fotos.
No inverno amazônico, de janeiro a junho, as praias somem ou ficam bem menores. O passeio pode ser adaptado, mas perde parte do roteiro.
Setembro é especialmente bom: verão no auge e Festival do Sairé em Alter do Chão. Mas é também o momento de maior demanda, então reserve com semanas de antecedência.
O roteiro completo do passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns
Embarque e navegação: do Tapajós ao Arapiuns

A gente acordou com o som suave da natureza ao redor. Não foi tão cedo quanto nos outros dias, mas foi aquele despertar gostoso. Tomamos café da manhã em ritmo acelerado (a ansiedade de descobrir mais do Arapiuns fala mais alto), com bolos, café quente e frutas tropicais, e saímos rumo ao cais da orla com mochilas leves e corações prontos.
Chegamos uns cinco minutos atrasados. A vibe já era de “ops, será que perdemos o barco?”, mas o guia também atrasou, alívio total. Por volta das 9h20 começamos a navegar.
Diferente dos outros dias, não ficamos fazendo paradas nas praias do Tapajós. A viagem foi longa: mais de uma hora até o ponto onde os rios se encontram. E foi ali que sentimos a primeira nuance do dia.
As águas começam a mudar. Não de uma vez, é gradual, quase imperceptível no começo. O Tapajós tem aquele tom esverdeado, amplo, de uma translucidez de mar. O Arapiuns é mais escuro, mais íntimo, cristalino de outro jeito. É como entrar num lugar secreto, de sensações mais delicadas. Quem estava olhando para o rio, e não para o celular, pegou o momento exato da transição.
Ponta do Icuxi: a primeira praia do Arapiuns

Nossa primeira parada foi na Ponta do Icuxi, cujo nome vem dos botos tucuxi que outrora abundavam ali. Hoje eles aparecem menos por lá, segundo o guia, mas a praia mais do que compensa: um grande banco de areia branca no meio do nada, sem barraca, sem quiosque, sem ninguém além do nosso grupo.

Ficamos uns 30 minutos ali, molhando os pés, sentindo a brisa, respirando fundo aquele pedaço de Amazônia sem filtro. Foi o tipo de parada que parece curta demais quando acaba.

Atenção: em praias do Arapiuns, o guia recomenda entrar na água apenas por determinados lados, porque há arraias no fundo arenoso. A dica é arrastar os pés em vez de dar passos normais. O ferrão de arraia pode causar dor intensa, inchaço e necrose local. Não é pra ter medo, é pra ter respeito.
Praia do Toronó: onde os botos aparecem

Rumamos para a Praia do Toronó. No momento em que ancoramos, cinco botos estavam nadando perto do barco, um deles até saiu fora d’água. Show da natureza ao vivo, sem qualquer aviso prévio.

A praia em si é maravilhosa: areia fina, águas calmas e rasas perto da beira, perfeitas para quem viaja com crianças pequenas. Fiquei brincando de “voar” com o Nicolas, erguendo ele sobre a água e deixando ele pousar suavemente. Ele adorou, risadas borbulhando a cada vez. Ficamos uns 45 minutos ali.

Se você estiver com sorte, e na época certa, os botos podem aparecer de novo. É uma das paradas em que vale ter a câmera na mão desde quando o barco começa a ancorar.
Comunidade Coroca: o coração do passeio

Desembarcamos na Coroca no início da tarde e sentimos imediatamente uma mudança de ritmo. Não é só o silêncio, é o jeito em que as coisas estão organizadas, a maneira com que os moradores nos recebem sem aquela pressa de roteiro turístico. O redário com redes estendidas à entrada, o jardim bem cuidado, os barracões com telhado de palha traçada. O tempo parece passar de outro jeito ali.
O passeio dentro da comunidade é organizado em grupos menores quando há muita gente, então todo mundo consegue fazer as perguntas com calma e ter proximidade real com os monitores, que são moradores do próprio lugar.
A trilha pela comunidade

Antes de chegar às colmeias, caminhamos por uma trilha curta dentro da própria comunidade, ladeada por árvores frutíferas e nativas que os moradores plantaram ao longo dos anos. O guia ia parando a cada poucos metros para apontar uma espécie diferente: cupuaçuzeiro, açaizeiro, andirobeira, castanheira, sempre com uma história ou um uso medicinal associado. Era o tipo de caminhada sem pressa, mais aula ao ar livre do que deslocamento.

O chão da trilha é de terra batida, sombreado quase o tempo todo pela copa das árvores, o que ajuda bastante no calor do meio-dia amazônico. O Nicolas foi boa parte do trajeto no colo, distraído com os pássaros que cortavam a trilha e com o barulho de galhos quebrando ao longe (provavelmente algum bicho que a gente nunca chegou a ver). Foi nesse trecho, ainda antes do meliponário, que a gente sentiu de verdade que estava dentro do dia a dia da comunidade, e não só de passagem por ela.
O meliponário: as abelhas sem ferrão

O guia local nos levou direto para o meliponário, onde ficam as colmeias de abelhas canudo e jandaíra, ambas nativas, ambas sem ferrão. Tivemos uma aula completa sobre como funciona o cultivo do mel, por que essas espécies são essenciais para a floresta (polinizam árvores que as abelhas comuns não alcançam, como copaíba e andiroba) e quais são os desafios de manutenção das 300 caixas que a comunidade mantém.

Enquanto percorríamos o meliponário, passamos por árvores com placas identificando as espécies, da castanheira às frutíferas menos conhecidas. O guia contou histórias e usos medicinais de cada uma. E o Nicolas, que até então era o único pré-escolar na Amazônia com mais energia do que o calor, resolveu parar tudo para correr atrás da filha pequena do guia. Eles riam, corriam, se misturavam com a comunidade. É desse tipo de coisa que a gente se lembra anos depois.

Na loja da comunidade, experimentamos os dois méis. Surpreendentemente, os sabores são bem distintos: o mel da jandaíra é mais suave e floral, e o da abelha canudo tem uma acidez delicada e um corpo diferente. Nós gostamos dos dois, mas o canudo nos conquistou. Saímos com alguns potinhos.
O Lago das Tartarugas: a cena de documentário

Do outro lado da comunidade, depois de uma trilha de cerca de 4 km pela mata, chegamos ao Lago das Tartarugas. Antes de ir para o lago em si, o guia nos mostrou o tanque de filhotes, pequenas tartarugas recém-nascidas que ficam protegidas até atingir um tamanho mais seguro para a soltura. Ele explicou que, na natureza, sem intervenção humana, apenas cerca de 10% dos filhotes sobrevivem, entre predadores, condição climática e competição. A taxa de sobrevivência dentro do projeto é significativamente maior.

Embarcamos numa balsa não motorizada, puxada por corda até o centro do lago. O guia jogou a ração na água. E aí aconteceu. Eram impossíveis de contar. Tartarugas com 70 cm de comprimento, outras claramente maiores, chegando perto de 1 metro, emergindo ao mesmo tempo, cabeças e cascos por toda parte, algumas quase encostando na balsa. Nunca tínhamos visto tantas, tão grandes, tão perto. O tipo de cena que você olha e pensa “isso parece filmado”. Mas não era. Era só a Amazônia, funcionando.

O lago tem hoje aproximadamente 500 tartarugas, com perspectiva de dobrar o número nos próximos anos. Por lei, 10% dos animais que nascem são devolvidos ao habitat natural, uma forma de repovoar os rios sem comprometer o projeto.
Almoço no Restaurante Pés na Areia

Saímos do lago com fome e calorosos, e o restaurante comunitário estava esperando.
Pedimos tambaqui e pirarucu assados para o grupo todo, com suco de taperebá e cupuaçu. Os peixes chegaram inteiros, frescos, bem temperados com ervas locais, servidos com arroz, feijão, farofa e vinagrete. Foi, sem exagero, a melhor refeição da viagem inteira. Tem uma diferença entre peixe comprado e peixe que foi do rio para a panela no mesmo dia, e ali dava pra sentir.
De sobremesa: uma torta de cupuaçu e um creme de cupuaçu com chocolate. Doce, leve, amazônico, difícil de descrever para quem não experimentou. Eram R$ 7 cada, valor que, frente ao que entregavam, parecia uma oferta.
Os custos nessa parte do passeio: R$ 25 a taxa da trilha e das tartarugas por pessoa, R$ 50 o almoço, R$ 5 cada suco e R$ 7 cada sobremesa.

Depois do almoço, ficamos um tempo no redário, redes ao ar livre suspensas entre as árvores, com brisa, canto de pássaro e a mata fechada ao redor. “Mini cochilo espiritual” é a descrição mais honesta que temos. O Nicolas aproveitou para brincar no balanço local e subir em montinhos de areia enquanto a gente se recuperava do almoço.
Praia de Caracaraí: banho com sombra

Despedimo-nos da Coroca e seguimos até a Praia de Caracaraí. O plano original era parar na Ponta Grande, mas o guia, atento ao grupo que tinha crianças, optou por um local com sombra disponível. Boa decisão.

Ficamos uns 30 minutos. O trecho raso era perfeito para o Nicolas se aventurar sozinho: ele entrou e saiu da água umas dez vezes, correndo da areia para o rio gelado com aquele sorriso aberto de quem está no melhor dia da vida. Depois fomos para a parte mais funda curtir com calma.
Pôr do sol na Praia do Jacaré

A ideia original era encerrar na Ponta do Cururu, o ponto clássico de pôr do sol de Alter do Chão. Mas era sábado, e a Cururu no fim de semana pode estar lotada de barcos ancorados lado a lado, o que tira um pouco da magia.

Insistimos no Jacaré, e foi a melhor escolha do dia. A praia do Jacaré tem pedras no fundo do rio, diferente das outras paradas, e uma pedra grande no centro que vira mirante natural. Nuvens pontilhavam o céu, dando textura ao pôr do sol sem apagar a cor. Em dado momento começou a chuviscar levemente. Quase poético.

O guia nos serviu abacaxi ali mesmo, cortado na hora, naquele momento suspenso entre céu, pedras, rio e calor suave. Foi como se a natureza dissesse: aproveitem, porque isso daqui não dura.

E não durou. O sol entrou no horizonte. A gente ficou quieto, olhando. Às vezes é isso.
De volta a Alter do Chão

Retornamos já no escuro, molhados de chuvisco, cheios de memória. Alter do Chão havia chovido forte enquanto estávamos no rio, descobrimos ao chegar. A chuva ainda caía quando fomos ao centrinho jantar e nos abrigamos no restaurante X-Bom para dois hambúrgueres (X-Alter e X-Picanha Banana) e sucos de taperebá com abacaxi e morango com maracujá.
Voltamos para a pousada meio molhados, meio rindo. Dormimos com o som da chuva batendo nas folhas e a certeza de que aquele havia sido um dos dias mais fortes da viagem. Contamos essa jornada com ainda mais detalhes no relato do sexto dia da nossa viagem em Alter do Chão, dia a dia, direto do rio Arapiuns.
Dicas essenciais para aproveitar o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns

- Leve dinheiro em espécie: taxa da trilha, almoço, artesanato e mel só em dinheiro dentro da comunidade. Leve mais do que acha que vai gastar.
- Bolsa impermeável é obrigatória: a travessia do Tapajós pode ser agitada e a água borrifa na lancha. Celular, câmera e documentos precisam estar protegidos.
- Protetor solar, repelente e chapéu: o dia inteiro ao sol amazônico sem proteção é problema garantido.
- Arraste os pés ao entrar na água: arraias vivem no fundo arenoso das praias do Arapiuns. O ferrão pode causar dor intensa e necrose local. O guia orienta onde entrar, mas o hábito de arrastar o pé é uma proteção extra.
- Sapatilha de borracha ou tênis velho: para as praias com pedras, como o Jacaré, e para caminhar pela comunidade.
- Vacina de febre amarela: obrigatória para a Amazônia. Se não tiver, providencie com pelo menos 10 dias de antecedência.
- Água extra: leve além do que a lancha oferece. O calor amazônico consome mais do que parece.
- Reserve com antecedência: especialmente entre setembro e dezembro, o passeio lota. A ATUFA às vezes tem vagas sobrando para completar grupos, mas na alta temporada não dá para contar com isso.
Vale a pena levar crianças no passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns?

Sim, e foi muito melhor do que esperávamos.
O Nicolas tinha quase 2 anos e aproveitou cada parada à sua maneira. No Toronó, água rasa e calma, ele brincou sem ajuda. Em Caracaraí, mergulhou do mesmo ponto umas dez vezes seguidas com aquele sorriso aberto. Na Coroca, fez amizade com a filha do guia e correu pela comunidade enquanto a gente aprendia sobre abelhas.
O guia foi sensível ao grupo: adaptou paradas, escolheu praias com sombra e manteve o ritmo confortável para todos. Se você vai com criança pequena, avise na contratação, porque um guia experiente vai ajustar o roteiro.
Colete salva-vidas para quem não nada é recomendado. E paciência: o dia é longo, o calor é real. Mas a recompensa também é.
Dá para pernoitar na Comunidade Coroca?
Dá. A Casa Coroca comporta de 3 a 6 pessoas, com refeições incluídas. Também há opção de ficar no redário (a experiência de dormir em rede ao ar livre na floresta é outra Amazônia completamente) ou em casa de moradores. Para agendar, o contato direto é com Dona Neiva: (93) 99181-6365. Confirme disponibilidade com antecedência, especialmente na alta temporada.
Sobre Alter do Chão, o ponto de partida para o passeio

Alter do Chão é uma pequena vila balneária no município de Santarém, no Pará, conhecida pelas praias fluviais de areia branca e águas cristalinas do Rio Tapajós. O The Guardian já a elegeu como uma das praias mais bonitas do Brasil, mesmo sendo de água doce.
A vila tem pousadas, restaurantes, artesanato local e uma vibe completamente própria: pequena, sem pressa, amazônica de verdade. De Alter do Chão partem todos os grandes passeios da região, incluindo o do Rio Arapiuns.
Onde fica Alter do Chão?
Alter do Chão está no oeste do Pará, a aproximadamente 35 km de Santarém, na confluência dos rios Tapajós e Arapiuns.
Como chegar em Alter do Chão?
O caminho mais comum é voar até o Aeroporto Internacional de Santarém (STM), com voos diretos de Belém, Manaus e Brasília pela Azul, LATAM e GOL. Do aeroporto, o transfer para Alter do Chão dura cerca de 40 minutos por estrada asfaltada e custa em torno de R$ 100 de táxi. Há também ônibus municipais para o centro de Santarém (R$ 2,50), de onde se pega outro transporte para Alter.
Quem vem de barco de Belém conta com uma viagem de cerca de 2 dias pelo rio, uma experiência à parte, se você tiver o tempo.
Quando ir para Alter do Chão?
A melhor época é entre agosto e dezembro, quando o nível do Tapajós baixa, as praias aparecem e o tempo fica seco. Temperaturas entre 25°C e 35°C, pouca chuva e sol generoso.
De janeiro a julho, a cheia cobre as praias. Alguns passeios, como a Floresta Encantada e o Canal do Jari, são melhores na cheia, mas o Rio Arapiuns com todas as paradas é definitivamente programa de seca.
Onde nos hospedamos em Alter do Chão

Ficamos na Pousada Sombra do Cajueiro e foi ótimo. É uma pousada familiar, com chalés de madeira e varandas com rede, a poucos passos da Praia do Cajueiro. Café da manhã farto (açaí fresco, tapioca, frutas locais), ar-condicionado nos quartos e um staff que ajuda com tudo, inclusive com a intermediação dos passeios, como foi o nosso caso. Preços em 2024: em torno de R$ 250 a R$ 350 por noite para casal com café, dependendo da temporada.
Para quem quer algo mais luxuoso, a Vila Eden e o Beloalter Hotel têm estrutura premium com vistas para o Tapajós. Para mochileiros, a Pousada do Mingote é referência econômica. Em todos os casos: reserva com antecedência na seca, porque lota.
Outros passeios de Alter do Chão para combinar com o Rio Arapiuns
Alter do Chão tem roteiros para todos os perfis. Se você vai ficar mais de 3 dias, aqui está o que vale acrescentar.
Floresta Encantada
Passeio de canoa pelos igapós alagados, melhor no inverno amazônico, quando a floresta está submersa. Árvores emergindo da água, silêncio de mata fechada, fauna ao redor: um labirinto verde de fazer inveja a qualquer cenário de cinema. Temos um relato completo do passeio pela Floresta Encantada com tudo que você precisa saber antes de ir.
Canal do Jari
Dia inteiro de barco ligando o Tapajós ao Amazonas, com fauna variada (jacarés, iguanas, papagaios, botos), a Trilha das Preguiças com guia local, o Jardim de Vitórias-Régias da Dona Dulce (ela faz brownie, chips e torta com a planta, acredite) e o encontro das águas do Tapajós com o Amazonas. Contamos essa experiência inteira no nosso guia do Canal do Jari.
Ilha do Amor e Serra da Piraoca
O cartão-postal de Alter do Chão, com travessia de catraia e subida até o mirante mais bonito da região. Fizemos esse roteiro e você pode conferir tudo sobre a Ilha do Amor e a trilha da Serra da Piraoca nos nossos artigos completos.
Roteiro de Praias do Tapajós
Dia navegando entre praias quase desertas ao longo do Tapajós: Catajuba, Maguari, São Domingos e a Ponta do Muretá para o pôr do sol, cada uma com personalidade própria. Contamos um pouco desse dia de praias, incluindo a parada na Ponta do Muretá, no relato do quarto dia da nossa viagem em Alter do Chão, e você encontra o roteiro completo no nosso guia de praias de Alter do Chão.
FLONA Jamaraquá
Trilha de 9 km na mata primária da Floresta Nacional do Tapajós, com guia local obrigatório. No meio do caminho, uma sumaúma centenária de mais de 50 metros de altura. Depois, banho no Igarapé do Paulo, de águas cristalinas e geladas. Exige disposição física, mas é o tipo de dia que fica para sempre. Contamos tudo no nosso guia da FLONA Tapajós.
Outros atrativos próximos ao Rio Arapiuns
Além do passeio das Tartarugas Amazônicas, o Rio Arapiuns e os arredores de Alter do Chão guardam outras experiências que vale a pena combinar na mesma viagem.
Turismo de Cura no Rio Arapiuns
Roteiro voltado para espiritualidade e rituais ancestrais nas comunidades de Arimum e Urucureá, com puxada de mãe, chá de segredo, banho de ervas e oficina de artesanato. Não é para quem quer só praia. Vivemos esse dia inteiro e contamos como foi no relato do sétimo dia da nossa viagem em Alter do Chão.
City Tour em Santarém
Meio dia explorando o Mercadão 2000 (frutas, peixes, ervas medicinais), o Centro Cultural João Fona com cerâmicas tapajônicas e a vista do encontro das águas do Tapajós com o Amazonas. Vale o desvio para quem já está na região. Fizemos esse passeio e detalhamos tudo no relato do oitavo dia da nossa viagem em Alter do Chão.
Ponta do Muretá
Um dos pontos preferidos de quem busca pôr do sol longe da multidão da Ponta do Cururu, com águas calmas do Tapajós e uma atmosfera mais contemplativa. Costuma entrar no roteiro de quem faz o passeio de praias pelo Tapajós, como contamos no relato do quarto dia da viagem.
Festival do Sairé
Uma das maiores festas populares do Pará, realizada em Alter do Chão geralmente em setembro, com celebração religiosa e profana, mastros decorados e forte presença da cultura ribeirinha. Quem programa a viagem para essa época encontra a vila em outro ritmo, mais cheia e mais festiva, mas também mais disputada em termos de hospedagem e passeios.
Perguntas frequentes sobre o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns

Qual a melhor época para fazer o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns?
Entre julho e dezembro, o verão amazônico. As praias do Arapiuns emergem nesse período e o roteiro completo, com todas as paradas, fica disponível. Setembro é especialmente bom, mas coincide com o Festival do Sairé em Alter do Chão, então reserve com bastante antecedência. A Comunidade Coroca pode ser visitada o ano todo, mas o passeio perde as praias na época de cheia.
Quanto custa o passeio completo das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns?
A conta realista: R$ 200 a R$ 300 pela lancha (varia pelo tamanho do grupo e forma de contratação), mais R$ 25 de taxa comunitária, mais R$ 50 de almoço, mais extras (sucos a R$ 5, sobremesas a R$ 7, artesanato e mel conforme gosto). Para um casal com consumo moderado, o dia fica em torno de R$ 600 a R$ 700 no total.
O almoço está incluído no passeio das Tartarugas Amazônicas?
Não. O valor da lancha cobre só o transporte e o guia de barco. O almoço no Restaurante Pés na Areia da Coroca custa R$ 50 por pessoa e é pago diretamente na comunidade, em dinheiro. É caro para padrão amazônico? Pelo que entrega, não.
Precisa de grupo mínimo para contratar o passeio?
Pela ATUFA, sim: o mínimo é de 4 pessoas por embarcação, com capacidade para até 10. Quem viaja em grupos menores pode tentar se juntar a outros interessados na sede da ATUFA, o que é comum. Operadoras privadas podem ter outras condições.
Dá para fazer o passeio das Tartarugas Amazônicas com crianças pequenas?
Sim, e foi uma das melhores partes do nosso roteiro. As praias do Arapiuns têm trechos rasos e calmos, o guia adapta as paradas conforme o grupo, e a Comunidade Coroca tem um ambiente acolhedor para crianças. Avise na contratação que vai com criança pequena. Colete salva-vidas é recomendado para quem ainda não nada.
Dá para pernoitar na Comunidade Coroca?
Sim. Há a Casa Coroca (para 3 a 6 pessoas, com refeições incluídas), opção de redário e hospedagem em casa de moradores. Contato: Dona Neiva, (93) 99181-6365. Agende com antecedência, especialmente na alta temporada.
Vale a pena fazer o passeio das Tartarugas Amazônicas no Rio Arapiuns?

Sim, com uma ressalva: é um dia longo, com mais de uma hora de navegação para chegar ao Arapiuns, e o retorno acontece bem no fim da tarde. Quem precisa de conforto constante ou não gosta de sol intenso vai precisar de disposição extra.
Para todo mundo que se encaixa no perfil (famílias, casais, ecoturistas, aventureiros, gente que quer entender o que é turismo de base comunitária na prática) esse passeio é um dos melhores que Alter do Chão tem para oferecer. Talvez o melhor.
A cena das tartarugas no lago é inesquecível. A comida na Coroca também. O pôr do sol no Jacaré, com abacaxi na mão e os pés na água, fecha o dia de um jeito que é difícil de explicar para quem não foi.
Vai lá. E conta pra gente nos comentários como foi.