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A gente chegou em Cuiabá quase meia-noite — e já de cara levou um choque que nem estava no roteiro. O fuso horário. Aquele detalhe simples, que qualquer pessoa que mora no Rio de Janeiro tende a ignorar até que o celular mostre uma hora a menos do que o esperado. Foi um começo um tanto desorientador para uma viagem que prometia exatamente o contrário: surpresas boas.
O Hits Pantanal Hotel mandou o transfer, o que salvou a noite. Check-in, mochila no chão, cama. O quarto cabia a equipe toda com espaço sobrando — confortável, sem frescura. Não era pra ser experiência, era pra recarregar. E cumpriu o papel.
Às 5h30 a gente estava de pé, ainda no escuro, descendo pro café da manhã com aquela resignação de quem sabe que o dia vai ser longo. Mas o café do hotel surpreendeu. Variedade de verdade, tudo abastecido, nenhuma daquelas bandejas com resto de fundo. Tomamos café com calma, demos uma volta pela estrutura — porque a gente sabia que voltaria — e fomos esperar a van da CNP Turismo na recepção.
A proposta do dia era simples no papel: pegar a estrada de Cuiabá até Barra do Garças, mas com uma parada no meio do caminho. Uma lagoa. Diziam que era bonita. A gente ouvia esse tipo de descrição com uma certa reserva — bonita pode ser muita coisa.
O trecho inicial da BR já dá o contexto do Mato Grosso sem rodeios. São quilômetros de plantação abrindo dos dois lados da estrada, soja e milho e algodão se alternando num horizonte quase infinito. O estado é o maior produtor de soja do Brasil, e isso não é informação abstrata quando você atravessa essa paisagem dentro de uma van num dia de sol. A escala impressiona. Mas também exige atenção: o movimento de carretas é constante, e dois acidentes graves na estrada nesse mesmo dia foram o lembrete de que esse trajeto pede respeito.
Chegamos em Primavera do Leste por volta das 11h30. Cidade fundada nos anos 1980 dentro do contexto da grande expansão agrícola do cerrado mato-grossense, hoje com mais de 60 mil habitantes e um PIB fortemente atrelado ao campo. Mas o que interessa ao viajante — e que pouquíssima gente sabe — é que ali na periferia da cidade existe uma lagoa que não tem nada a ver com plantação de soja. Tem tudo a ver com calcário.
O almoço foi num buffet a quilo no centro, o tipo de lugar que não tem pretensão nenhuma e entrega exatamente o que promete: comida caseira, bem temperada, preço justo. Saímos satisfeitos e seguimos.
Da cidade até a propriedade são cerca de 30 km de asfalto. Depois, 1 km de estrada de terra até a recepção — onde ficam o banheiro, os coletes salva-vidas obrigatórios e o snorkel. Esse último é tecnicamente opcional. Na prática, deixar o snorkel pra trás seria um arrependimento difícil de justificar. Mais 2 km de terra até o estacionamento, uma caminhada plana de 280 metros pelo cerrado, e a lagoa aparece.
Não tem como preparar ninguém pra esse momento.
A água é azul de um jeito que o cérebro recusa na primeira fração de segundo. Não é o azul suave de piscina, nem o azul profundo do mar em dia limpo. É um turquesa intenso, quase irreal, que muda de tom conforme a luz muda de ângulo. O fenômeno tem explicação — o solo calcário filtra e reflete a luz de uma forma específica, deixando a água com transparência e coloração que variam entre azul e verde-esmeralda dependendo da hora do dia — mas saber disso não ajuda muito na hora em que você está parado na beira com os pés na terra seca do cerrado olhando pra aquilo.
A gente ficou parado por alguns segundos. Sem falar.
Em volta da lagoa tem cadeiras, mesas, um balanço pendurado numa árvore, um deck. A estrutura é simples, sem pretensão. O drone subiu, e do alto a cena ficou ainda mais estranha: dava pra ver com clareza as manchas mais claras no fundo — nascentes subaquáticas, como pequenos fervedouros que brotam de dentro da pedra e mantêm a lagoa abastecida e transparente o ano inteiro.
Entrar na água foi outra camada de experiência.
A temperatura estava agradável — nem fria demais, nem morna. Com o snorkel, o que antes parecia uma lagoa bonita se transformou em algo completamente diferente. O fundo tem entre dois e três metros, e cada centímetro é visível. Plantas subaquáticas que a gente não saberia nomear, peixes que não se importam com a presença humana, e — no momento que mais ficou na memória — algumas tartarugas passando devagar, como se aquele fosse o lugar mais calmo do mundo. Que, talvez, seja.
A lagoa não dá pé em nenhum ponto, e o colete não é frescura: é o que permite que qualquer pessoa — criança, adulto que não nada bem, quem for — fique uma hora ali flutuando sem tensão. A gente nadou por toda a extensão, de um lado ao outro, sem pressa.
Um detalhe que chama atenção quando você sai da água: o Rio das Mortes fica ali do lado. Literalmente a metros da lagoa. É o mesmo rio que corta boa parte do leste mato-grossense antes de desaguar no Araguaia, um rio de águas escuras, marrom-avermelhadas, com a coloração típica de rios de planície que carregam matéria orgânica em suspensão. O contraste com a lagoa cristalina é absurdo. Uma pequena trilha leva até uma ponte onde dá pra ver os dois ao mesmo tempo — o azul e o marrom, lado a lado, sem se misturar. A lagoa fica num nível mais alto, o que impede a mistura na maior parte do ano. Nas cheias, essa separação some, e a coloração da lagoa muda. Outro motivo para visitar no período certo.
Ficamos duas horas. Praticamente sem dividir o espaço com ninguém além do nosso grupo — o que é, em si, um luxo que os destinos mais badalados nunca conseguem oferecer.
Depois, van, devolução dos equipamentos, estrada.
A expectativa era chegar em Barra do Garças em três horas. Não chegamos. Um acidente grave entre caminhão e 4×4 interrompeu a rodovia por mais de uma hora. Depois, obras. A gente fez parada pra comer no meio do caminho — cansados, já sem conversa — e chegou na Pousada Sol do Araguaia às 23h15.
Às margens do Rio Araguaia, com piscina, redário, parquinho e um deck que, mesmo no escuro, deixava escapar a dimensão do rio lá embaixo. A gente viu tudo isso e pensou exatamente numa coisa: banho e cama.
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