Tudo sobre os fervedouros do Jalapão: o que são, onde ficam e quais visitar

Tempo de leitura: 27 minutos

Conheça tudo sobre os Fervedouros do Jalapão - TO

A primeira vez que entrei em um fervedouro, fiz exatamente o que todo mundo faz: corri em direção à água achando que ia tocar o fundo. Não toquei. A nascente me devolveu para a superfície antes mesmo de eu perceber o que estava acontecendo. Abri um sorriso largo, olhei para a Samara e disse: “isso aqui é coisa de outro mundo.” E era, de certa forma.

Os fervedouros do Jalapão são a atração mais singular do Tocantins e, para muita gente, de todo o Brasil. Piscinas naturais de águas cristalinas onde a pressão da nascente subterrânea impede que qualquer pessoa afunde, por mais que tente. Cada fervedouro tem a sua personalidade: cor diferente, pressão diferente, vegetação diferente. Tem os pequenos e intimistas, os grandes com área para camping, os que ficam dentro de propriedades familiares, os que permitem visita noturna.

Neste artigo, conto tudo o que aprendi sobre os fervedouros (o que são, como funcionam, as regras, a melhor época) e apresento os 9 fervedouros que visitamos no Jalapão durante a nossa viagem de 7 dias em janeiro de 2024, além de um fervedouro bônus que encontramos no Amazonas, em Presidente Figueiredo. Se você está planejando a viagem, este guia vai te ajudar a montar o roteiro certo.

 

O que é um fervedouro?

O Fervedouro Encontro das Águas - Jalapão - TO - Vamos Trilhar

Um fervedouro é uma nascente de rio subterrâneo que aflora à superfície com tanta pressão que forma uma piscina natural onde ninguém consegue afundar. A água sobe do lençol freático atravessando camadas de areia finíssima, mantendo os grãos em suspensão constante. É exatamente essa combinação de areia suspensa e pressão ascendente que cria o efeito de “colchão líquido” tão característico do Jalapão.

O fenômeno tem nome técnico: ressurgência. Mas a experiência é mais simples e mais surpreendente do que qualquer definição científica consegue descrever. Você entra na água, tenta tocar o fundo, e a nascente te devolve. A areia do fundo vibra levemente. As bordas são rasas, mas o centro desce dezenas de metros. E mesmo assim, você flutua.

Por que não afundamos nos fervedouros?

Dicas para visitar o Fervedouro do Rio Sono - Jalapão - TO - Vamos Trilhar

A resposta mais comum, e um pouco incorreta, é que a densidade da água é maior, como no Mar Morto. O mecanismo é diferente: não é a densidade da água que muda, mas a força vertical da ressurgência que vence a gravidade. A água subterrânea sobe com tal pressão que empurra o corpo continuamente para cima. Como a densidade do corpo humano é próxima à da água, qualquer força ascendente constante é suficiente para manter a pessoa em flutuação.

Um detalhe que a maioria não percebe até entrar: você não flutua parado sobre a superfície como no Mar Morto. Você é jogado para cima ativamente. Se tentar mergulhar, a corrente ascendente te puxa de volta. É uma sensação completamente diferente, mais dinâmica, quase como se a água estivesse viva.

Qual é a profundidade de um fervedouro?

Regras de visitação do Fervedouro Buritis - Jalapão - TO - Vamos Trilhar

Bem mais funda do que parece. Os fervedouros do Jalapão têm profundidade muito variável: os menores têm poucos metros, mas os maiores chegam a números impressionantes. O Fervedouro Bela Vista, por exemplo, tem estimativa de 80 metros de profundidade com apenas 15 metros de diâmetro. Há relatos de fervedouros com profundidades ainda maiores na região.

E não, isso não é motivo para preocupação. Quanto mais fundo o fervedouro, mais intensa tende a ser a pressão da nascente e, portanto, mais forte a flutuação. A lógica é inversa à do que a maioria imagina: quanto mais fundo, mais seguro em termos de flutuação.

Qual é a temperatura da água de um fervedouro?

Perguntas Frequentes sobre o Fervedouro Bela Vista - Jalapão - TO - Vamos Trilhar

Aqui mora uma das maiores surpresas para quem nunca foi. O nome “fervedouro” lembra água fervida, quente, borbulhante. A realidade é que a água é morna, em torno de 24°C, e vem das profundezas do aquífero, longe da influência do sol. As bolinhas que dão nome ao fenômeno não são de calor: são microbolhas de areia e sedimento em suspensão, subindo com a corrente de água.

No calor do Jalapão, que facilmente passa dos 35°C no período seco, a água de 24°C é refrescante de manhã e absolutamente deliciosa no meio da tarde. A Sophia, nossa filha de 8 anos, não queria sair de jeito nenhum.

Sobre o Jalapão

Sobre o Jalapão - TO - Vamos Trilhar

O Jalapão fica no extremo leste do Tocantins, um estado que ocupa o coração do Brasil e que muita gente ainda não colocou no mapa. A região está entre as cidades de Mateiros e São Félix do Tocantins, a aproximadamente 350 km de Palmas (capital do estado) e cerca de 1.000 km de Brasília.

O território do Parque Estadual do Jalapão tem mais de 34 mil km² de cerrado preservado. Para ter uma ideia de escala: é maior do que o estado de Alagoas. O bioma é o cerrado clássico, com chapadas, rios de areia branca, buritis por todo lado, calor intenso no seco e chuvas pesadas no período úmido. Se você ainda não conhece o destino, leia também o nosso guia com os principais atrativos e roteiros de viagem para o Jalapão antes de fechar o roteiro.

O Jalapão ficou famoso para o grande público quando a novela O Outro Lado do Paraíso (Globo, 2017-2018) gravou cenas no Fervedouro Bela Vista. Depois disso, o destino decolou. Hoje é um dos ecoturismos mais procurados do Brasil, e com razão.

Além dos fervedouros, a região tem cachoeiras belíssimas, dunas de areia que parecem transplantadas do Nordeste, o Cânion Sussuapara, a Pedra Furada, a Lagoa do Japonês e a Prainha do Rio Novo. Dá para passar tranquilamente 7 a 10 dias explorando sem repetir atrativo.

Qual a melhor época para visitar os fervedouros do Jalapão?

Fervedouro Dona Glorinha (do Ceiça) - Jalapão - Vamos Trilhar

A melhor época para visitar o Jalapão (e os fervedouros) é entre maio e setembro, no período seco. Os motivos são práticos.

As estradas do Jalapão são, em sua grande maioria, de terra e areia. No período chuvoso (outubro a março), muitas ficam intransitáveis mesmo para carros 4×4. Já no seco, a circulação é mais segura, embora ainda exija veículo adequado e atenção. Além disso, as chuvas turbinam a água dos fervedouros. Isso aconteceu conosco no Fervedouro Bela Vista e no Buritis, que estavam com a água marrom quando chegamos, logo após uma chuva forte na tarde anterior. Na nossa viagem de janeiro de 2024, ainda no período de transição entre chuvas, esse risco esteve presente.

Julho e agosto são os meses de pico da temporada: cheios, com filas nos fervedouros mais famosos e preços de hospedagem mais altos. Se quiser mais tranquilidade, maio, junho e setembro são ótimas pedidas: estradas boas, fervedouros com menos gente, clima ainda agradável.

Evite o período chuvoso se puder. A região tem atrativos o ano todo, mas fervedouro com água marrom é uma decepção que dá para evitar com planejamento.

Regras de visitação dos fervedouros

Fervedouro do Rio Sono - Jalapão - Vamos Trilhar

As regras existem para preservar um ecossistema muito sensível. Respeitar cada uma delas não é burocracia: é o que garante que os fervedouros continuem existindo para as próximas gerações.

Proibido usar protetor solar ou repelente antes de entrar na água. Qualquer produto químico contamina a nascente e afeta a microbiologia local. Se precisar de proteção solar, use roupas com fator UV, que são permitidas e recomendadas.

Não pise nas bordas do poço. As margens dos fervedouros são frágeis e podem desmoronar com pisada inadequada. Sempre use as áreas de acesso indicadas pelos proprietários.

Respeite o limite de pessoas e o tempo de permanência. Cada fervedouro tem sua capacidade: os menores aceitam até 4-6 pessoas por vez; os maiores chegam a 10. O tempo padrão de banho é de 15 a 20 minutos por grupo. Se não chegar ninguém depois, muitos proprietários deixam você ficar mais, mas não conte com isso nos períodos de alta temporada.

Ingresso: a entrada custa entre R$15 e R$30 por pessoa (valores verificados em 2024; confirme na chegada). Quase todos os fervedouros ficam em propriedades privadas ou são administrados por comunidades tradicionais. Leve dinheiro em espécie: sinal de internet é instável ou inexistente na maioria dos locais, e maquininha de cartão raramente funciona.

Existem fervedouros fora do Brasil?

Fervedouro do Buritizinho - Jalapão (TO) - Vamos Trilhar

Essa é uma das perguntas que mais aparece. A resposta curta: sim, existem fenômenos parecidos, mas não iguais.

Em outras partes do mundo, principalmente na Islândia, Nova Zelândia e algumas regiões dos Estados Unidos, existem nascentes termais com pressão ascendente que criam efeito de flutuação. Há uma diferença crucial, porém: essas nascentes são geotérmicas, a água é aquecida por atividade vulcânica e pode chegar a temperaturas extremas. Entrar nelas, quando é possível, é uma experiência completamente diferente.

Os fervedouros do Jalapão são alimentados por aquíferos profundos, sem influência geotérmica. A água é morna (~24°C), cristalina, sem cheiro de enxofre, e o fenômeno de flutuação por pressão de ressurgência com areia fina é uma combinação que, até onde se sabe, não encontra equivalente em nenhum outro lugar do mundo com as mesmas características.

Para floats naturais em nascentes de água fria, cristalina, em meio ao cerrado, o Jalapão é único. E isso não é marketing: é o que qualquer pessoa que já visitou outro “fervedouro” no mundo vai confirmar.

Fervedouros do Jalapão: os que visitamos

Ao longo da nossa viagem de 7 dias pelo Jalapão em 2024, visitamos 9 fervedouros e cada um foi uma experiência completamente diferente da anterior. Abaixo, conto como foi em cada um deles, com as informações práticas que você precisa para planejar o seu roteiro.

Fervedouro do Ceiça

Fervedouro Dona Glorinha (do Ceiça) - Jalapão - Vamos Trilhar

O Ceiça é o mais antigo dos fervedouros abertos à visitação no Jalapão e provavelmente o mais tradicional de todos. Antigamente era chamado de Fervedouro da Dona Glorinha, em referência à matriarca da família que abriu o local para o turismo. Com o tempo, o filho dela, Ceiça, assumiu o lugar e o nome mudou. Essa história toda você ouve chegando lá: a família conta com orgulho.

O acesso é feito de carro, por estrada de terra, saindo de Mateiros. Fica em propriedade particular e, na nossa visita, a entrada custava R$20 por pessoa. A capacidade é de até 10 pessoas por vez com permanência de 10 a 20 minutos, dependendo da demanda.

A pressão da nascente do Ceiça é das mais intensas que sentimos. Você entra, tenta ir para o fundo e a água simplesmente não deixa. A água tem um tom azulado com vegetação densa em volta, bananeiras de todos os lados criando um cenário que parece saído de uma tela. Se chegar antes do grupo seguinte, peça para ficar mais um pouco. Quase sempre consegue.

Uma dica prática: enquanto espera a sua vez, você pode tomar banho de rio ali pertinho. Tem artesanato local para comprar também.

Fervedouro Macaúbas

Conheça tudo sobre o Fervedouro das Macaúbas – Jalapão – TO - Vamos Trilhar

O Macaúbas é um dos fervedouros mais novos abertos à visitação e um dos maiores da região. A água tem um tom verde-piscina intenso, diferente da maioria dos outros fervedouros, que costumam variar entre azul e verde mais discreto. O fundo de areia branca some na profundeza e a água é cristalina o suficiente para você ver tudo enquanto flutua.

A capacidade é de 10 pessoas por vez e a entrada custava entre R$20 e R$25 por pessoa na nossa visita. O diferencial em relação aos fervedouros menores é que, se o local estiver vazio quando você chegar, dá para ficar na água por um bom tempo sem a pressão do relógio. Foi o que aconteceu com a gente: chegamos cedo e praticamente ficamos sozinhos na água por quase meia hora.

A infraestrutura é simples, com banheiros no local. Fica em Mateiros, fácil de combinar no roteiro com o Ceiça e o Buritizinho no mesmo dia.

Fervedouro Buritizinho

Fervedouro Buritizinho conheça tudo sobre a joia íntima do Jalapão (TO) - Vamos Trilhar

O Buritizinho é o menor dos fervedouros que visitamos e um dos mais bonitos. Cabe no máximo 6 pessoas por vez e isso, longe de ser um defeito, é um charme. A experiência é mais íntima, mais silenciosa, mais especial.

A água tem um azul intenso que impressiona pela transparência: dá para ver cada detalhe do fundo arenoso enquanto você flutua. O fundo do Buritizinho é diferente de todos os outros: além da areia, tem pedras aparentes e fendas de onde a nascente borbulha, como se a terra estivesse respirando. A pressão da nascente aqui é mais suave que no Ceiça, mas a sensação de flutuar sem esforço é a mesma. Para quem gosta de cenários mais tranquilos (e para famílias com crianças), o Buritizinho é uma das melhores pedidas do Jalapão.

O tempo de permanência vai de 20 a 30 minutos. No local tem restaurante, área de descanso e a possibilidade de tomar um banho no Rio Formiga, que fica pertinho. Se quiser fazer boia cross ou pular do balanço, também tem.

Fervedouro Encontro das Águas

Fervedouro Encontro das Águas conheça tudo sobre o mais forte do Jalapão (TO) - Vamos Trilhar

O nome diz muito: aqui, a força de um aquífero profundo emerge em uma única nascente dentro do mesmo poço, criando uma pressão concentrada sem comparação na região. É pequeno (cabe apenas 4 pessoas por vez) mas a intensidade da nascente é das maiores que sentimos em toda a viagem.

Fica bem perto do Quilombo da Mumbuca, o que faz desse fervedouro uma parada com contexto cultural rico. A comunidade quilombola do Mumbuca é famosa pelo artesanato com capim dourado, a mesma planta que dá nome ao símbolo maior do Jalapão. Se der para parar por lá, vale muito.

A pressão da água no Encontro das Águas é tão forte que manter a posição vertical dentro do poço exige esforço. Você não flutua tranquilo: você é empurrado. Para quem quer sentir ao máximo o fenômeno, esse fervedouro é imperdível. A areia fina em suspensão cria um efeito visual único: as partículas sobem e descem ao redor em câmera lenta. E elas entram na roupa. Por dentro. Não tem como evitar. Na saída, a Sophia estava cheia de areia por todo canto, e o riso que isso gerou ficou mais na memória do que qualquer foto.

Fervedouro do Rio Sono

Fervedouro do Rio Sono - Jalapão - TO - Vamos Trilhar

O Rio Sono foi o fervedouro mais tranquilo da nossa viagem. Ele é bem pequeno, cabe poucas pessoas, e muita gente o pula no roteiro por isso. Mas é exatamente esse detalhe que torna a visita especial: você chega, a fila é curta (ou inexistente), e a experiência tem uma qualidade de silêncio que os fervedouros maiores raramente oferecem.

A água aqui tem uma temperatura perceptivelmente mais baixa que nos outros fervedouros: o Rio Sono é notoriamente mais frio. Se você for sensível ao frio, coloque isso no planejamento. Se for em julho, a água de manhã cedo pode dar aquela travada.

Fica próximo a um restaurante, o que facilita combinar a visita com o almoço. A entrada é uma das mais baratas da região, em torno de R$15 por pessoa na nossa visita.

Fervedouro Buritis

Fervedouro dos Buritis (TO) como é, quanto custa e a melhor época para visitar - Vamos Trilhar

O Buritis faz parte do Parque Estadual do Jalapão e fica a 18 km do centro de Mateiros, pela mesma estrada que leva ao Ceiça. A capacidade é de 6 pessoas por vez.

O nome vem das palmeiras buritis que cercam o local por todos os lados: altas, majestosas, criando uma moldura natural que nenhum cenário construído conseguiria imitar. Dependendo da hora do dia, a luz que entra entre as palmeiras muda a cor da água: às vezes azul, às vezes verde, às vezes os dois ao mesmo tempo numa transição que parece irreal. Visto de cima pelo drone, o poço tem formato de coração.

Na nossa visita, tinha chovido na tarde anterior e a água estava turva. Foi a única vez na viagem em que a expectativa não bateu com a realidade, e a culpa foi da chuva, não do fervedouro. Dica concreta: nunca visite o Buritis logo após uma chuva. Espere pelo menos um dia para a água clarear.

Fervedouro Beija-flor

Fervedouro Beija-flor no Jalapão (TO) tudo o que você precisa saber antes de visitar - Vamos Trilhar

O Beija-flor foi uma das descobertas mais agradáveis da nossa viagem. Menos conhecido que o Ceiça ou o Bela Vista, mas com um charme próprio que conquistou todo o grupo, inclusive o Heitor, que estava mais interessado nos peixinhos do que na flutuação.

A vegetação ao redor é densa e bem preservada, criando aquela sensação de oásis escondido no cerrado. A pressão da nascente é moderada, o que torna a experiência mais relaxante e menos intensa: ótimo para quem prefere curtir devagar. A água varia entre verde e azul dependendo da incidência de luz. Você pode ver mais detalhes da nossa visita ao Beija-flor e outros atrativos no quinto dia pelo Jalapão.

Fervedouro Bela Vista

Fervedouro-Bela-Vista-no-Jalapao-tudo-o-que-voce-precisa-saber-Vamos-Trilhar

O Bela Vista é o maior fervedouro do Jalapão em diâmetro: 15 metros de piscina com profundidade estimada em 80 metros (equivalente a um prédio de 25 andares). É também o mais famoso: foi aqui que a novela O Outro Lado do Paraíso gravou as cenas que colocaram o Jalapão no mapa do turismo nacional.

Fica a apenas 3 km de São Félix do Tocantins, com estrada de terra acessível. Tem restaurante com comida típica, área de camping, banheiros, duchas, torre de observação com vista aérea do poço e pousada no local. É o fervedouro com melhor infraestrutura de toda a região.

A água do Bela Vista varia entre azul intenso e tons de turquesa quando o sol bate de frente, e pode ficar verde-esmeralda após chuvas recentes, quando sedimentos chegam das partes mais altas. Dá para ver peixinhos no fundo, e isso é sempre uma fonte de alegria instantânea para as crianças. A Sophia ficou ali tentando “pegar” os peixes por uns vinte minutos.

Infelizmente, quando chegamos, tinha chovido na véspera e a água estava marrom. Mesmo assim, a estrutura do local, a vegetação e o tamanho do fervedouro deixam claro por que ele é o queridinho dos turistas. Nos períodos de pico (julho, feriados longos), o Bela Vista pode ter fila de espera considerável. Chegue cedo, de preferência antes das 9h.

Fervedouro Por Enquanto

Fervedouro Por Enquanto no Jalapão (TO) como chegar, quanto custa e o banho noturno - Vamos Trilhar

O Por Enquanto fecha a nossa lista de fervedouros visitados no Jalapão e foi uma grata surpresa. Fica em propriedade privada com estrutura bem completa: tem pousada, área de camping e restaurante no local. Para quem quer passar mais de um dia explorando a região sem precisar se deslocar muito, é uma excelente base.

O fervedouro em si é um dos maiores que visitamos, com água em tom de azul turquesa bem marcante. A pressão da nascente é forte o suficiente para garantir a flutuação sem esforço, mas sem a intensidade extrema do Ceiça ou do Encontro das Águas. É o fervedouro mais “confortável”: aquele onde você realmente relaxa.

O nome, Por Enquanto, vem de uma história que o proprietário conta com muito bom humor. Perguntaram a ele como ia chamar o fervedouro quando estava preparando para abrir ao público. Ele respondeu “por enquanto, não sei ainda” e o nome ficou.

Existem fervedouros que podem ser visitados à noite?

Devo ir com guia ao Fervedouro Por Enquanto - Jalapão - TO - Vamos Trilhar

Sim, e é uma experiência completamente diferente. O Fervedouro Bela Vista permite visitação noturna, o que coloca o lugar em outro nível. Imagina flutuar numa piscina natural de água cristalina com o céu do Jalapão aberto acima de você, longe de qualquer poluição luminosa. O céu estrelado do cerrado já é extraordinário; dentro de um fervedouro à noite, é outra coisa.

Se você tiver a oportunidade de fazer esse passeio, não perca. Combine com antecedência com a pousada do Bela Vista e confirme a disponibilidade: a visitação noturna costuma ter limite de pessoas mais restrito que a diurna.

O Fervedouro Por Enquanto também oferece a experiência noturna para os hóspedes da pousada. Foi o que vivemos na nossa viagem: mergulhamos no fervedouro à noite, com refletores subaquáticos iluminando a água de azul neon. As bolhas que subiam do fundo pareciam estrelas. As luzes da pousada refletiam na água como um espelho quebrado, criando um efeito surreal. Vale cada segundo.

Outros fervedouros catalogados no Jalapão

Ao todo, são 122 fervedouros catalogados na região do Jalapão. A maioria ainda não está aberta ao turismo. Dos que estão disponíveis para visitação, aqui estão os que não entraram no nosso roteiro mas que merecem atenção no seu:

Recanto do Salto — menos conhecido, boa opção para fugir dos fervedouros mais movimentados.

Pequizeiro — fica em área com presença forte de pequizeiros, árvores típicas do cerrado.

Borboleta — um dos menores fervedouros abertos à visitação. Experiência bem intimista.

Licuri — comparado por muitos visitantes a uma banheira de hidromassagem natural. Abriu em 2021, entrada em torno de R$15 (verifique o valor atualizado). Sem infraestrutura no local.

Alecrim — parecido com o Bela Vista em formato, mas com água em tons de verde. Várias nascentes conectadas por passarelas de madeira. Muito bonito e menos concorrido. Era o nosso plano original no quinto dia, mas trocamos pelo Beija-flor a pedido do guia: boa troca.

Capão Grande — de bom tamanho, boa opção para grupos maiores.

Veredas — cercado por veredas, a vegetação típica do cerrado com buritis e gramíneas.

Jatobá — rodeado de bananeiras, ainda pouco divulgado nos roteiros mais populares.

Korubo — exclusivo para clientes da agência Korubo. Não dá para visitar por conta própria. Várias nascentes, especialmente indicado para crianças por oferecer partes rasas.

Fervedouro que visitamos no Amazonas

Fervedouro do Maranhão (Presidente Figueiredo, AM)

O Fervedouro do Maranhão - Presidente Figueiredo - AM - Vamos Trilhar

Quem disse que fervedouro é exclusividade do Tocantins? Durante uma viagem ao Amazonas, descobrimos o Fervedouro do Maranhão, em Presidente Figueiredo, cidade a cerca de 107 km de Manaus que já é conhecida como a “terra das cachoeiras” e que guarda algumas surpresas que a maioria dos roteiros ignora.

O Fervedouro do Maranhão tem características bem diferentes dos fervedouros do Jalapão. A nascente existe, a pressão está lá, mas o ambiente é completamente outro: em vez de cerrado com buritis e bananeiras, você está dentro da floresta amazônica densa, com vegetação fechada por todos os lados e aquela umidade característica do Norte. A água é escura, com tons de marrom-âmbar típicos dos rios de água preta da Amazônia, não a água azul-turquesa do Jalapão.

A sensação de flutuação é real, mas mais discreta que nos fervedouros tocantinenses. A pressão da nascente é menor, o que torna a experiência mais suave. Para quem já conhece o Jalapão, a comparação é inevitável: e o Jalapão vence com folga em termos de espetáculo visual. Mas o Fervedouro do Maranhão tem o seu próprio encanto: a atmosfera da Amazônia, o silêncio interrompido só pelo barulho da floresta, a sensação de estar em um lugar que quase ninguém conhece.

Se você estiver em Manaus e quiser incluir Presidente Figueiredo no roteiro, vale muito a pena. Além do fervedouro, a cidade tem dezenas de cachoeiras acessíveis em um único dia de carro.

Outros atrativos do Jalapão

Os fervedouros são a estrela, mas o Jalapão tem muito mais para oferecer. Veja os principais atrativos que visitamos e que complementam qualquer roteiro pela região:

Pedra Furada — formação rochosa com arco natural que enquadra o cerrado como uma janela. Trilha curta e vista que compensa qualquer esforço. O guia nos avisou sobre onças e colmeias de abelhas registradas na área, mas a visita é tranquila se você seguir as orientações.

Lagoa do Japonês — em Pindorama do Tocantins, águas verde-esmeralda com gruta submersa, tirolesa de 300m e caiaque transparente. Visitamos no mesmo dia que a Pedra Furada.

Cânion Sussuapara — paredes de arenito vermelho, trilha de 100 metros e área para banho na base. Um dos cenários mais fotogênicos do Jalapão.

Cachoeira da Velha — a maior cachoeira do Jalapão em volume. No seco, as pedras criam uma sequência de quedas que se estendem por centenas de metros de largura.

Prainha do Rio Novo — orla de areia branca com água cristalina. Tranquila e perfeita para relaxar.

Praia do Caju (Rio Novo) — água potável direto da corrente, peixinhos que passam pelos pés e redário montado para descansar. Almoço no Quilombo Rio Novo.

Dunas do Jalapão — dunas de areia dourada no meio do cerrado, com rio de água fria na base. A vista do topo é uma das mais bonitas da viagem inteira. O pôr do sol lá é de parar tudo.

Cachoeira do Formiga — pequena e muito especial. Água azul-turquesa que rivaliza com qualquer fervedouro, acesso fácil com trilha de 100 metros.

Cachoeira da Arara — menos visitada, cenário preservado e muito bonito. Chegamos de manhã como primeiros visitantes do dia e foi mágico.

Serra da Catedral — paredão de rocha com panorâmica do cerrado. Visto no caminho para Taquaruçu, as formações lembram cúpulas góticas esculpidas pelo tempo. Pôr do sol imperdível.

Cachoeiras da Roncadeira e Escorrega Macaco — tobogã natural formado pela rocha lisa e queda de 70 metros onde fizemos rapel. Fechou nossa viagem com chave de ouro.

Perguntas frequentes sobre os fervedouros do Jalapão

O que são Fervedouros - Jalapão - Vamos Trilhar

Quanto custa entrar nos fervedouros do Jalapão?

A entrada nos fervedouros do Jalapão custa entre R$15 e R$30 por pessoa (valores verificados em 2024; confirme sempre na chegada). O preço varia conforme o fervedouro: Ceiça e Bela Vista cobram em torno de R$20; Rio Sono e Licuri ficam na faixa de R$15; os com mais infraestrutura podem chegar a R$30. Leve sempre dinheiro em espécie: a maioria dos locais não tem sinal para maquininha de cartão ou Pix.

Posso usar protetor solar antes de entrar nos fervedouros?

Não. O uso de protetor solar, repelente, hidratante ou qualquer produto químico antes de entrar na água é proibido em todos os fervedouros do Jalapão. Essas substâncias contaminam a nascente e prejudicam o ecossistema aquático local. A alternativa é usar roupas com proteção UV, que são permitidas e muito mais eficientes no calor do Jalapão.

Criança pode entrar nos fervedouros?

Pode, e em geral se divertem muito. A experiência de flutuar sem esforço é um baita programa para crianças. Alguns fervedouros têm partes rasas nas bordas onde os menores podem brincar sem precisar nadar. O Fervedouro Korubo é especialmente indicado para famílias com crianças pequenas. Nossos filhos (Nicolas, Sophia e Heitor) adoraram cada fervedouro que visitamos.

Quantos fervedouros existem no Jalapão?

Ao todo, são 122 fervedouros catalogados na região do Jalapão. Desse total, entre 15 e 20 estão abertos à visitação turística atualmente. Os demais ainda não têm infraestrutura ou não foram liberados pelas famílias e comunidades que cuidam das propriedades.

Qual é o fervedouro mais bonito do Jalapão?

Depende do que você valoriza. O Bela Vista é o maior e mais famoso. O Ceiça tem a nascente mais forte entre os tradicionais. O Buritizinho é o mais intimista e com a água mais transparente. Para flutuação mais intensa, o Encontro das Águas é difícil de superar. O Macaúbas tem a cor mais diferente, aquele verde-esmeralda único. Na prática, cada fervedouro vai surpreender de um jeito diferente: o melhor conselho é visitar o maior número possível.

Preciso de guia para visitar os fervedouros?

Não é obrigatório por lei, mas é altamente recomendado, especialmente se for sua primeira vez no Jalapão. A sinalização nas estradas de terra é simples, e quem não conhece a região pode perder tempo procurando a entrada certa. Além disso, um bom guia conhece o melhor horário para cada fervedouro, sabe quando a fila vai estar menor e consegue organizar o dia para que você não passe mais tempo esperando do que nadando. Nossa viagem de 2024 foi feita com guia local, e a diferença foi grande.

Sair de um fervedouro é sempre um processo lento. A água morna, a leveza de flutuar sem esforço, o silêncio quebrado só pelo barulho da mata ao redor: tudo isso cria uma sensação de que o tempo parou. E depois de um dia visitando dois, três, quatro fervedouros, você chega ao final com aquela canseira boa de quem aproveitou cada minuto.

Os fervedouros do Jalapão são um fenômeno natural raro, único na combinação de características que apresentam, e uma das experiências mais genuínas que o ecoturismo brasileiro tem para oferecer. Não existe roteiro pelo Tocantins que não precise incluir pelo menos dois ou três deles. Se você ainda está planejando, leia também nosso roteiro de 7 dias pelo Jalapão com tudo que aprendemos na estrada. E se já foi, conta nos comentários qual fervedouro conquistou mais o seu coração. Vamos trilhar?

 

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