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Você já subiu o Pico da Tijuca ou tomou um banho gelado na Cachoeira das Almas? Se sim, provavelmente notou uma coisa. O mato por lá é fechado e bonito, mas o bicho quase nunca aparece. A fauna da Floresta da Tijuca está voltando aos poucos, espécie por espécie. Isso já muda o que dá pra ver numa caminhada por lá.
Um levantamento recente da Mongabay Brasil mostra algo importante. A floresta, encravada no meio do Rio de Janeiro, vive um processo silencioso de reconstrução. Depois de mais de um século sendo replantada, ela agora está sendo repovoada, animal por animal. Um projeto já trouxe de volta cinco espécies diferentes, com uma sexta em planejamento.
A gente já trilhou boa parte desses caminhos. Foi do Pico da Tijuca à Cascata Diamantina, passando pela Cachoeira das Almas. Conhecemos bem esse silêncio de bicho que qualquer trilheiro frequente percebe. Entenda por que a floresta ficou vazia e quais animais já estão de volta. Veja também o que muda pra quem pretende trilhar por lá nos próximos meses.
Por que a Floresta da Tijuca ficou vazia de bichos?

A Floresta da Tijuca é, na prática, uma floresta plantada por seres humanos a partir de 1861. Ela cresceu sem boa parte dos animais que a mata original tinha. Isso porque a mata original foi derrubada, tempos atrás, para dar lugar a plantações de café. Isso criou o que os pesquisadores chamam de síndrome da floresta vazia. É uma mata que parece saudável de longe, mas funciona incompleta por dentro.
O reflorestamento começou a mando de D. Pedro II. O objetivo era recuperar as nascentes que abasteciam o Rio depois de décadas de desmatamento. A árvore voltou rápido. O bicho, não. Ninguém reintroduziu fauna junto com as mudas na época. Boa parte das espécies originais já tinha desaparecido da região havia gerações.
Segundo a reportagem da Mongabay, cerca de 9 em cada 10 plantas da Mata Atlântica dependem de animais. Esses animais ajudam a espalhar as sementes das plantas. Sem bicho, a floresta não se regenera sozinha, por mais verde e frondosa que pareça nas fotos.
Quem caminha pela Tijuca sente esse silêncio na pele. São trilhas com dossel denso e cachoeiras bonitas. Mas os avistamentos de mamíferos são raríssimos, e há poucas aves além dos pássaros mais comuns da cidade. O parque é reconhecido como Reserva da Biosfera pela UNESCO desde 1991. A Mongabay também aponta ele como a unidade de conservação mais visitada do Brasil. Mesmo assim, precisava de mais do que árvore pra voltar a funcionar como floresta de verdade.
Quais animais estão voltando para as trilhas da Floresta da Tijuca?

O projeto de refaunação da Tijuca já trouxe de volta cinco espécies, com resultados bem diferentes entre si. A mais bem-sucedida até agora é a cutia-vermelha, reintroduzida a partir de 2009. Hoje são mais de 60 indivíduos vivendo soltos. Já é a quarta geração nascida na mata, segundo o Parque Nacional da Tijuca.
O pioneiro de tudo isso foi outro bicho: o tucano-de-bico-preto, solto ainda em 1970. Naquela época, o conceito de refaunação nem existia formalmente. Foram 47 indivíduos soltos naquela época. Um estudo publicado na revista científica Oikos foi conduzido pela bióloga Flávia Zagury, doutoranda em ecologia na UFRJ. Ela acompanhou os tucanos por 520 horas de observação em campo. O resultado é animador: a espécie hoje recupera 76% das interações esperadas com as plantas de sua dieta original. Um destaque vai para a palmeira juçara. Ela sozinha responde por 13,4% de tudo que os tucanos comem por lá, segundo o estudo publicado na Oikos.
Os bugios-ruivos entraram no radar depois, com a primeira soltura em 2015, e hoje já reproduzem naturalmente na floresta. Menos conhecido, mas igualmente importante, é o jabuti-tinga. Essa tartaruga terrestre estava localmente extinta havia cerca de 200 a 300 anos, e voltou a partir de 2020. Foram 50 indivíduos soltos, com uma população atual estimada em 41 animais, segundo o levantamento do site Outras Palavras.
O que aconteceu com as araras-canindés e o que vem por aí?
O capítulo mais recente e mais delicado é o das araras-canindés. Três fêmeas, batizadas de Fernanda, Fátima e Sueli, foram soltas em janeiro de 2026, depois de sete meses de treinamento. Elas precisaram ser recapturadas. O motivo foi a dispersão excessiva e a proximidade perigosa com áreas habitadas, conforme relatou o Portal Tela. Uma arara-canindé não sobrevoava o Rio de Janeiro há cerca de 200 anos. O desafio, portanto, era grande desde o início.
Para o futuro, o plano inclui papagaios-chauás e araçaris-banana. Mais adiante, a ideia é soltar carnívoros de médio porte, como iraras e gatos-do-mato. Jaguatiricas também estão nos planos, segundo aponta o Parque Nacional da Tijuca.
Quem está por trás da recuperação da fauna da Floresta da Tijuca?

O trabalho é conduzido pela Refauna, iniciativa que reúne pesquisadores da UFRJ, UFRRJ, IFRJ e do grupo GEASur da Unirio. A parceria inclui ainda o ICMBio e outras instituições, como o INEA e a Fiocruz. Entre os nomes à frente do projeto estão a bióloga Alexandra Pires e o diretor-executivo Marcelo Rheingantz. A chefe do parque, Viviane Lasmar, também integra a equipe.
Não é um trabalho de soltar o bicho e sair andando. Cada animal passa por quarentena e aclimatação em recintos dentro do próprio parque. No caso de espécies mais complexas, como a arara, ainda tem treinamento comportamental antes da soltura. É ciência, tentativa e, às vezes, recomeço, como mostrou o episódio das araras recapturadas.
As três araras-canindés soltas em 2026, por exemplo, não vieram do nada. Elas chegaram ao parque em junho de 2025, vindas do Parque Três Pescadores, em Aparecida (SP). De lá, passaram sete meses de aclimatação antes da primeira tentativa de soltura. O treino incluiu voo progressivo, fortalecimento muscular e adaptação alimentar a frutas nativas, segundo o ICMBio. A meta declarada do projeto é reintroduzir 50 araras-canindés ao longo de cinco anos. Mais dois casais já estão prontos numa instituição parceira.
Quais são os desafios de repovoar uma floresta cercada por 6 milhões de pessoas?

Reintroduzir fauna numa floresta urbana é bem diferente de fazer o mesmo numa reserva isolada. A Tijuca fica encravada numa região metropolitana com mais de 6 milhões de habitantes. Isso trouxe complicações que o projeto ainda enfrenta todos os dias.
Em 2016, um surto de febre amarela interrompeu as reintroduções por um tempo. Elas só recomeçaram depois que uma vacina específica para os animais foi desenvolvida. Fora isso, os pesquisadores relatam problemas recorrentes de adaptação. Animais que vieram de cativeiro nem sempre sabem se comportar na vida selvagem. Há também risco constante de ataques de cães e gatos domésticos, além de choques em fiação elétrica. Existe ainda o risco de tráfico de animais silvestres, de acordo com o levantamento da Mongabay.
Some a isso o fato de que o parque recebe mais de 3 milhões de visitantes por ano. É uma área de quase 4 mil hectares, e dá pra entender por que o equilíbrio é frágil. Cada trilheiro que passa por lá também é, de certa forma, parte desse ecossistema em recuperação. Por isso, o comportamento e a consciência do visitante fazem parte direta do resultado do projeto.
O que muda para quem faz trilha na Floresta da Tijuca?

Na prática, a chance de avistar fauna silvestre nas trilhas da Tijuca está crescendo, ainda que devagar. Quem já fez o roteiro do Pico da Tijuca sabe que o percurso corta trechos de mata bem fechada. É exatamente ali que bugios e tucanos costumam se movimentar em busca de fruta.
Já quem passa pela região da Cachoeira das Almas ou segue até a Cascata Diamantina tem passado perto das cutias. Elas andam soltas há mais tempo por ali, hoje já na quarta geração nascida livre. Se você notar um barulho de galho quebrando lá em cima da árvore, preste atenção. Pode ser um bugio comendo, não é só vento.
Isso não significa que virou um zoológico a céu aberto, longe disso, e ainda bem. Mas dá pra dizer que quem volta à Tijuca depois de alguns anos tem uma chance real, ainda que baixa. É a chance de topar com um animal que simplesmente não estava lá antes. Pode ser no trecho do Pico, ou perto de alguma das cachoeiras do setor Floresta.
Como agir se avistar a fauna silvestre reintroduzida na trilha?

Manter distância, não oferecer comida e não tentar tocar o animal são as três regras básicas. Valem sempre que você cruzar com fauna silvestre reintroduzida na Tijuca. Isso porque qualquer interação humana pode comprometer meses de trabalho de aclimatação e colocar o bicho em risco.
Alimentar um bugio ou uma cutia, mesmo com boa intenção, ensina o animal a associar humano a comida. Foi exatamente esse tipo de comportamento que contribuiu para a recaptura das araras soltas em 2026. Fotografar de longe, sem flash e sem se aproximar, é a atitude correta. Se avistar um animal ferido, preso ou em situação estranha, acione a administração do parque. Não tente resolver sozinho.
Vale lembrar também que cachorros não são permitidos soltos nas trilhas do parque. O motivo é o risco a essa fauna que está se reestabelecendo aos poucos. Isso vale tanto pras trilhas mais movimentadas, como a do Pico da Tijuca. Vale também pros cantos mais escondidos do Parque Nacional da Tijuca.
Perguntas frequentes sobre a fauna da Floresta da Tijuca
Reunimos aqui as dúvidas mais comuns de quem quer entender rápido o que está mudando na floresta.
Quais animais foram reintroduzidos na Floresta da Tijuca?
Cutias-vermelhas (desde 2009), tucanos-de-bico-preto (desde 1970), bugios-ruivos (desde 2015) e jabutis-tinga (desde 2020) já foram reintroduzidos. Mais recentemente, chegou a vez das araras-canindés (2026, ainda em fase de adaptação). Carnívoros como jaguatiricas e gatos-do-mato estão no planejamento futuro.
É comum ver esses animais nas trilhas da Tijuca?
Ainda não é garantido, mas a chance vem aumentando. As cutias têm a população mais estabelecida. Por isso, são as mais fáceis de avistar perto de áreas de mata mais densa e trilhas menos movimentadas.
Por que a Floresta da Tijuca precisou reintroduzir fauna?
Porque é uma floresta majoritariamente plantada a partir de 1861. Ela cresceu sem os animais dispersores de sementes necessários para se regenerar sozinha, fenômeno conhecido como síndrome da floresta vazia.
Quem cuida do projeto de reintrodução de fauna na Tijuca?
A iniciativa Refauna cuida do projeto, em parceria com o ICMBio e universidades como UFRJ e UFRRJ. O próprio Parque Nacional da Tijuca, que administra a unidade de conservação, também participa.
É seguro fazer trilha na Tijuca com essa fauna nova circulando?
Sim, todas as espécies reintroduzidas até agora são de baixo risco para humanos, entre frugívoros, aves e uma tartaruga terrestre. O cuidado recomendado é não se aproximar nem alimentar os animais.
Da próxima vez que você for até lá, vale prestar atenção no que se mexe na copa das árvores. Pode ser que você esteja repetindo o Pico da Tijuca. Ou talvez esteja conhecendo algum canto novo do Parque Nacional da Tijuca. Pode ser só vento. Ou pode ser um pedaço da floresta voltando a funcionar. Confira também nosso arquivo completo sobre a Floresta da Tijuca. E conta pra gente nos comentários se você já avistou algum bicho por lá!