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A primeira vez que ouvi falar no Jalapão, a descrição não fazia o menor sentido: um deserto cheio de água. Dunas douradas de até quarenta metros de altura no meio do cerrado do Tocantins, e logo ali do lado, rios tão cristalinos que você consegue ver os peixes nadando, cachoeiras que parecem ter saído de um comercial de chocolate, e um fenômeno tão único no mundo que não existe nem tradução: o fervedouro, uma nascente subterrânea que borbulha com tanta pressão que não deixa você afundar. Nem que você queira.
Fui ao Jalapão pela primeira vez em 2016, movido pela curiosidade. Voltei em janeiro de 2024 para ver o que tinha ficado de fora, desta vez com a família inteira: Samara, Nicolas, Heitor e Sophia. O lugar fez exatamente o que os melhores destinos fazem: deixou uma lista de pendências que a gente não consegue ignorar. Neste guia, reúno tudo o que aprendi nessas viagens para você chegar lá preparado e aproveitar cada minuto.
O Jalapão está no Tocantins, no coração do Brasil, a cerca de 300 km de Palmas. A região tem 34.000 km² de área total (tamanho do estado de Sergipe), com temperatura média de 30°C, vegetação de cerrado e densidade populacional de 0,8 habitante por quilômetro quadrado. Em boa parte do percurso, você vai passar dias sem ver outra pessoa.
Sobre o Parque Estadual do Jalapão
O Parque Estadual do Jalapão foi criado em 12 de janeiro de 2001, pela Lei nº 1.203 do estado do Tocantins. São 158.970 hectares de proteção integral, distribuídos principalmente pelos municípios de Mateiros e São Félix do Tocantins. Mas quando a gente fala em “Jalapão” como destino turístico, estamos falando de algo maior: a região abrange também Ponte Alta do Tocantins, Lizarda, Rio Sono, Novo Acordo, Santa Tereza, Lagoa do Tocantins e Rio da Conceição.
O parque faz parte de um complexo de cinco unidades de conservação: além do próprio PEJ, há a APA do Jalapão, a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba e a APA Serra da Tabatinga. Juntas, elas formam um dos maiores blocos de cerrado preservado do planeta.
O nome vem de uma planta nativa chamada jalapa-do-brasil, usada como medicinal pelos quilombolas desde que se estabeleceram na região. A raiz é cortada em pedaços e colocada em infusão na cachaça, que fica com um tom alaranjado. Quando o pedido é de uma dose pequena, vem a “Jalapinha”. Quando a dose é grande, “Jalapão”. Você vai ter a oportunidade de experimentar essa cachaça por lá. Você vai entender por que o nome pegou.
A região ganhou atenção internacional em 2008, quando a Rede CBS gravou o reality show Survivor: Tocantins por lá. E ganhou visibilidade nacional de vez em 2017, com a novela O Outro Lado do Paraíso, da TV Globo, que usou as paisagens do Jalapão como cenário.
Características da Região
O Jalapão é, acima de tudo, um paradoxo. É chamado de deserto (e de fato tem dunas de areia dourada que mudam de forma com o vento) mas é cortado por uma teia densa de rios cristalinos: o Sono, o Soninho, o Novo, o Balsas, o Preto e o Caracol, entre outros. A vegetação vai do cerrado ralo e campo limpo às matas de galeria que surgem próximas aos cursos d’água, com veredas de buritis pontuando a paisagem como palmeiras de oásis.
Os chapadões chegam a 800 metros de altitude. As serras esculpem formações rochosas de arenito que parecem ter sido desenhadas por um artista. E no subsolo, o lençol freático é tão rico que pressiona água para a superfície com força suficiente para criar os fervedouros, talvez o fenômeno natural mais impressionante que já presenciei.
Fauna e Flora
A vida selvagem do Jalapão é a da fauna do cerrado em sua versão mais preservada. Veado-campeiro, tamanduá-bandeira, anta, capivara, lobo-guará, onça-pintada, jacaré, macacos e raposas dividem o território com sucuris, jiboias e cascavéis. No céu, araras-azuis, tucanos, papagaios, siriemas e emas completam o quadro, e você tem boas chances de avistar a maioria deles se estiver atento nas estradas e nas trilhas ao amanhecer.
A flora é a do cerrado clássico: pequizeiro, pau-santo, barbatimão, buriti nas veredas e a jalapa-do-brasil espalhada por todo o parque. E, no campo limpo, aquela que se tornou o símbolo mais reconhecido do Jalapão.
Capim Dourado: O Ouro do Cerrado
O capim dourado não é capim. É a haste de uma sempre-viva (a Syngonanthus nitens) que nasce nas veredas e campos úmidos do cerrado com uma textura fina e um brilho naturalmente dourado que, de longe, faz a paisagem parecer coberta de ouro.
A planta precisa de fogo para germinar (o fogo do cerrado que limpa o campo e libera as sementes) e cresce entre abril e maio para ter suas hastes secas e prontas para colheita em setembro. A colheita é regulamentada por lei e só pode ocorrer entre 20 de setembro e 30 de novembro. Fora desse período, a extração é proibida.
A história do artesanato com o capim dourado começa no início do século XX, quando índios da etnia Xerente passaram pela Comunidade Quilombola Mumbuca (um pequeno povoado do município de Mateiros, fundado por descendentes de ex-escravos vindos da Bahia) e ensinaram os moradores a “costurar capim” com a seda do buriti. A técnica passou de geração em geração, e hoje é a principal fonte de renda das comunidades da região.
As artesãs do Mumbuca (e de outras comunidades) produzem bolsas, chapéus, joias, mandalas, bandejas e abajures que são exportados para o mundo todo. A Associação Capim Dourado foi fundada em 2000, tem cerca de 140 membros associados, e garante que cada peça vendida seja produzida com manejo sustentável e preço justo direto para quem faz. Quando você visitar o Mumbuca (e vai visitar, está no roteiro de praticamente todas as agências), compre ali mesmo. É o jeito certo de levar um pedaço do Jalapão para casa.
A visita à Comunidade Mumbuca em si é uma parada curta mas de valor alto. Você passa por uma rua principal com casas simples, barracas de artesanato abertas na frente das casas e um restaurante comunitário que serve galinha caipira no fogão à lenha. Nas nossas visitas, sempre paramos em pelo menos duas barracas antes de entrar no restaurante: é a oportunidade de ver de perto o processo, entender o que diferencia uma peça artesanal de qualidade de uma produção em série, e conversar diretamente com quem faz. Leve dinheiro em espécie: a maioria das artesãs não tem maquininha.
Palmas e Taquaruçú: A Porta de Entrada
A maioria das pessoas trata Palmas como escala obrigatória, o lugar onde se dorme antes de pegar a estrada de terra. Mas a capital do Tocantins merece pelo menos um dia de exploração, e Taquaruçú, seu distrito serrano a 35 km, é um destino por si só.
Palmas foi construída em 1989 como uma das últimas capitais planejadas do Brasil, mais jovem que qualquer pessoa com mais de 35 anos. Tem uma das maiores praças públicas do mundo, a Praça dos Girassóis, e uma praia fluvial urbana que deixa muita gente de queixo caído: a Praia da Graciosa, com 520 metros de areia às margens do Lago de Palmas e um pôr do sol de parar o trânsito. Um detalhe importante: cuidado com as piranhas na Praia da Graciosa. Não é lenda, acontece mesmo. Na minha primeira visita, um amigo foi mordido. Tome cuidado.
Taquaruçú é chamado de “Portal do Jalapão”, e o apelido faz sentido: o distrito fica exatamente no caminho entre Palmas e o parque. O lugar tem mais de 80 cachoeiras abertas à visitação, trilhas bem sinalizadas e uma vibe de aldeia de montanha que faz você querer passar mais tempo do que o planejado. É aqui que ficam a Cachoeira da Roncadeira e a Escorrega Macaco, que a maioria dos roteiros cobre no primeiro dia de expedição, antes de entrar de vez no Jalapão. Veja nosso guia completo sobre as Cachoeiras da Roncadeira e Escorrega Macaco.
Se você quiser se hospedar em Taquaruçú antes ou depois do Jalapão, a Pousada Casa das Flores é uma boa pedida: jardim exuberante, decoração rústica, jantar servido sob o céu estrelado do cerrado.
A Praia da Graciosa merece pelo menos uma tarde. São 520 metros de areia às margens do Lago de Palmas, com quiosques de comida tocantinense, cadeiras na beira d’água e um pôr do sol que junta meio que a cidade toda. Chegamos lá no primeiro dia, ainda com o pó do avião, pedimos uma cerveja gelada num quiosque e ficamos olhando o sol descer sobre o lago enquanto o Nicolas explorava a areia como se fosse uma praia de mar. É exatamente esse tipo de chegada que prepara o espírito para o que vem depois. Um detalhe que vale saber: piranhas circulam pelo lago, e na minha primeira visita em 2016 um amigo foi mordido na perna. Dá para tomar banho normalmente, mas se você preferir mais tranquilidade, a Ilha da Canela é uma boa alternativa: um pedaço de terra acessível de barco a partir da própria Graciosa, com águas mais calmas e longe da área de circulação da marina. O passeio de barco custa em torno de R$ 100 por pessoa (ida e volta, partindo do Píer 1, ao lado da Ponte Fernando Henrique Cardoso).
Porque eu resolvi ir para o Jalapão?
Eu resolvi ir para o Jalapão pelas suas belezas naturais. Vi vários artigos na internet falando sobre os Fervedouros e achei incrível. Fiquei muito curioso pra saber como eles funcionavam, vi fotos e vídeos do deserto e era algo tão único, tão diferente, que eu tinha que conhecer de qualquer maneira.
Como chegar ao Jalapão?
A porta de entrada para o Jalapão é Palmas, capital do Tocantins e cidade com o aeroporto mais próximo: o Aeroporto Brigadeiro Lysias Rodrigues (PMW). Os voos costumam sair de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e algumas outras capitais, mas os horários são inconvenientes (muitos chegam de madrugada), então planeje pelo menos uma noite em Palmas antes de começar a expedição.
De Palmas até os primeiros atrativos, a viagem é toda feita por terra:
- Palmas → Ponte Alta do Tocantins: cerca de 150 km pela TO-030 + TO-130, trecho totalmente asfaltado. Mais ou menos 2 horas.
- Ponte Alta → Mateiros: cerca de 240 km de estrada de terra e areia. De 4 a 6 horas dependendo das condições da estrada e do motorista.
- Mateiros → São Félix do Tocantins: mais 60 km, também de terra.
No total, de Palmas até as primeiras atrações perto de Mateiros, conte com 7 a 8 horas de viagem no dia de chegada. É longo, mas as paisagens ao longo do caminho já começam a compensar.
Um 4×4 não é opcional. As estradas de areia fofa do Jalapão são tecnicamente impossíveis para veículos comuns e até desafiadoras para quem nunca dirigiu em areia. Se for alugar carro em Palmas, reserve com muita antecedência: os 4×4 esgotam rápido na alta temporada (junho a setembro). E leve dois estepes, combustível extra e mapas offline baixados, porque o sinal de celular é praticamente inexistente na maior parte do percurso.
Cidades-base: Mateiros é a cidade-base mais procurada, fica no coração da região e é a mais próxima da maioria dos fervedouros e das dunas. Ponte Alta do Tocantins é a entrada mais acessível da região, boa opção para quem chega primeiro ou quer aproveitar as atrações das Serras Gerais. São Félix do Tocantins é menor e mais afastada, mas cercada de fervedouros paradisíacos e mirantes.
Devo ir com guia para o Jalapão?
Sim. Com toda a honestidade, não tem como recomendar ir ao Jalapão sem guia para a grande maioria das pessoas, mesmo para quem tem experiência de viagem.
O problema não é a dificuldade dos atrativos em si. É a logística: as estradas não têm sinalização, o GPS falha em boa parte do percurso, o sinal de celular desaparece por horas, e atolar o carro em uma estrada de areia sem ninguém por perto é uma situação que pode arruinar a viagem. Um resgate no meio do Jalapão pode custar mais caro do que o pacote inteiro.
Mas o argumento mais prático é outro: o guia sabe os horários certos. Os fervedouros mais famosos (Buritizinho, Buriti, Bela Vista) podem ter filas de duas horas na alta temporada. Um bom guia coordena com outros guias locais, sabe qual fervedouro está vazio naquele momento e faz um roteiro de contrafluxo que garante você chegar com o lugar praticamente para você. Isso por si só já justifica o custo.
Dá para ir por conta própria? Dá, mas exige experiência real de off-road, não apenas “já fui em estrada de terra uma vez”. Se for, leve dois estepes, galão de combustível extra, mapas offline completos (Google Maps e Wikiloc baixados antes de sair) e uma pessoa no grupo que saiba trocar pneu em areia fofa. E pesquise bem as condições da estrada antes de sair.
Quanto custa uma viagem ao Jalapão?
O Jalapão não é barato, mas é justo pelo que entrega. Os principais custos são:
- Passagem aérea para Palmas: entre R$ 700 e R$ 1.500 ida e volta, dependendo da cidade de origem e da época. Junho a setembro (alta temporada) costuma ser mais caro. Comprar com antecedência faz diferença.
- Pacote com agência (o mais comum): de R$ 1.200 a R$ 4.730 por pessoa, para roteiros de 2 a 8 dias. Os pacotes geralmente incluem transporte em 4×4, guia, hospedagem, todas as refeições e entrada nos atrativos. Sobra muito pouco para pagar fora do pacote: artesanato, frigobar e atividades opcionais são os principais extras.
- Atividades opcionais (cobradas à parte):
- Rafting no Rio Novo ou Rio Sono: ~R$ 200
- Trekking na Serra do Espírito Santo ou Morro do Sereno: R$ 150–250
- Tirolesa na Lagoa do Japonês: R$ 50
- Tirolesa em Taquaruçú: R$ 120–140
- Rapel na Cachoeira da Roncadeira: ~R$ 150
- Subida no Morro do Jacurutu (nascer do sol): ~R$ 150
- Hospedagem (se for por conta própria): de R$ 150 a R$ 400 por casal/diária.
- Alimentação: cerca de R$ 80 por dia por pessoa. A comida caseira do Jalapão é um dos pontos altos da viagem: galinhada, arroz com pequi, carne de sol, feijão.
(Valores verificados em janeiro de 2024, confirme antes de viajar.)
O que levar para o Jalapão?
O Jalapão vai te pegar de surpresa em pelo menos um ponto logístico. Aqui vai uma lista honesta do que não pode ficar de fora (veja também nosso guia completo do que levar para o Jalapão):
- Roupas de banho (muitas): você vai passar a maior parte do dia dentro d’água. Leve pelo menos 3 ou 4 opções.
- Sapatilha de neoprene: essencial para cachoeiras e lagoas com fundo de pedra cortante, especialmente a Lagoa do Japonês. Se não tiver, entre com chinelo.
- Protetor solar e repelente bio (para usar fora dos fervedouros, jamais dentro): nos fervedouros, qualquer produto é proibido. Mas fora deles, o sol castiga e os mosquitos aparecem no fim do dia.
- Chapéu e óculos de sol: a temperatura média é de 30°C e as horas no 4×4 entre atrativos somam muita exposição ao sol.
- Lanterna ou headlamp: útil nas pousadas mais isoladas e nas trilhas de nascer do sol (Serra da Catedral, Serra do Espírito Santo).
- Dinheiro em espécie: muitos atrativos, restaurantes e artesãos, especialmente no Mumbuca, não têm maquininha confiável. Saque antes de sair de Palmas.
- Mapas offline baixados: Google Maps e Wikiloc, baixados com antecedência. O sinal de celular desaparece poucos quilômetros depois de Ponte Alta.
- Mochila pequena para o dia: esqueça a mala de rodinha durante os passeios. Você vai precisar de algo leve e fácil de carregar.
- Roupas leves (e poucas): de noite não tem muito o que fazer nas cidades, não precisa de roupa de sair. Priorize roupas de secagem rápida.
- Medicamentos básicos e repelente em abundância: na região de cerrado, mosquitos aparecem ao entardecer sem avisar.
Uma dica que aprendi da pior forma: não leve roupa demais. Fui com uma mala grande e quase nunca a abri de verdade. No Jalapão, menos é mais.
Quem pode ir ao Jalapão?
O Jalapão é acessível para a maioria dos perfis. Os atrativos principais (banho nos fervedouros, visita às cachoeiras, pôr do sol nas dunas) não exigem condicionamento físico especial e são adequados para pessoas de diferentes idades.
Crianças: a maioria das agências recomenda a partir dos 10 anos, não por causa dos atrativos em si, mas pelo cansaço do deslocamento (horas em estrada de terra a bordo de um 4×4 que chacoalha bastante). Em janeiro de 2024 fomos com o Nicolas, nosso filho então bem pequeno, e ele adorou as dunas e os fervedouros. Contamos todos os detalhes dessa experiência no nosso guia sobre viajar ao Jalapão com bebê e criança pequena. Para crianças menores, vale conversar com a agência para entender o roteiro e as condições.
Idosos e pessoas com mobilidade reduzida: é possível aproveitar boa parte dos atrativos, mas o acesso a alguns fervedouros e trilhas envolve caminhadas curtas em terreno irregular. Avise a agência antes de reservar para que adaptem o roteiro.
Grávidas: melhor evitar por conta do tempo prolongado em estradas esburacadas.
No geral: se você consegue caminhar 2 a 3 km em terreno irregular sem dificuldade, vai aproveitar tudo.
Qual a melhor época para visitar o Jalapão?
O Jalapão funciona o ano todo (temperatura média de 30°C garante calor em qualquer mês), mas as duas estações têm características muito diferentes. Temos um guia completo sobre a melhor época para visitar o Jalapão com todos os detalhes mês a mês.
Estação Seca (maio a setembro)
Esta é a melhor época na visão da maioria dos viajantes e guias. As estradas de terra ficam mais firmes e seguras (sem lama), o céu fica mais limpo para fotografia, e a água dos fervedouros e cachoeiras fica mais cristalina, especialmente entre julho e outubro, quando a visibilidade dentro dos fervedouros é máxima.
O capim dourado fica no pico do dourado entre julho e setembro. As trilhas também estão em melhores condições: o terreno é mais seco e previsível. A contrapartida é o turismo: junho a setembro é a alta temporada, com os fervedouros mais movimentados e preços de pacotes mais altos.
Estação Chuvosa (outubro a abril)
Quem foge de multidão pode considerar a chuvosa: há menos turistas, os preços caem e a paisagem fica mais verde. Mas a água dos fervedouros pode ficar turva depois das chuvas, as estradas ficam mais complicadas e alguns atrativos podem ter acesso limitado. Fomos em janeiro de 2024, que é chuvosa, e a experiência foi incrível mesmo assim. Alguns fervedouros estavam com água levemente turva e um trecho de estrada exigiu mais atenção do que o esperado.
| Período | Estradas | Fervedouros | Fotografia | Turismo |
|---|---|---|---|---|
| Maio–setembro | ✅ Ótimas | ✅ Cristalinos | ✅ Ideal | ⚠️ Alta temporada |
| Julho–setembro | ✅ Ótimas | ✅ No melhor | ✅ Melhor época | ⚠️ Mais cheio |
| Outubro–novembro | ⚠️ Razoáveis | ⚠️ Pode turvar | ⚠️ Nublado | ✅ Menos gente |
| Dezembro–março | ❌ Complicadas | ❌ Turvas | ❌ Nublado | ✅ Bem vazio |
Quanto tempo ficar no Jalapão?
O mínimo razoável é 4 dias, e mesmo assim você vai ter que deixar atrativos de fora. O ideal é 5 a 6 dias, que permite ver as principais cachoeiras, a maioria dos fervedouros, as dunas, a Serra da Catedral ao amanhecer e ainda ter uma tarde mais tranquila na comunidade Mumbuca.
Se quiser fazer o roteiro combinado com as Serras Gerais, some pelo menos mais 3 a 5 dias. Com a Jalapada (Jalapão + Chapada das Mesas), o roteiro completo gira em torno de 10 a 14 dias.
O que engana muita gente é o tempo de deslocamento. Em estradas de areia, você não vai rápido, e a distância entre os atrativos dentro do Jalapão é grande. Um dia inteiro pode facilmente ter 4 a 5 horas de carro: isso come o tempo sem que você perceba. Confira como encaixamos tudo em uma semana no nosso roteiro completo de 7 dias pelo Jalapão e na viagem completa dia a dia pelo Jalapão.
Onde ficar no Jalapão?
Não existe hotel de luxo no Jalapão, e isso é parte do charme. A acomodação é sempre em pousadas simples e aconchegantes, com ar condicionado, banheiro privativo e café da manhã farto. Algumas são ecolodges com estrutura mais completa; outras são pousadas familiares onde o proprietário também é o cozinheiro.
Mateiros tem a maior concentração de opções e é a melhor base para quem quer focar nos fervedouros e nas dunas. Ponte Alta do Tocantins é boa opção para o primeiro ou último dia. Alguns roteiros dormem em locais diferentes a cada noite (o chamado “circuito de pousadas”), o que reduz o deslocamento diário mas exige mala leve e organização.
Foi exatamente esse o esquema que usamos em janeiro de 2024: ficamos na Pousada Coelho, em Pindorama, logo no início do roteiro; depois na Pousada do Fervedouro Por Enquanto, em São Félix do Tocantins, onde tivemos direito ao banho noturno exclusivo para hóspedes; e fechamos a viagem na Pousada Casa das Flores, em Taquaruçú, na última noite antes de voltar para Palmas.
A Culinária do Jalapão: Uma Surpresa que Ninguém Conta
A comida é um dos pontos altos da viagem ao Jalapão. Nos restaurantes simples de Mateiros e São Félix, e nas pousadas espalhadas pelo parque, você come como se alguém tivesse cozinhado para você especificamente.
Os pratos típicos giram em torno do cerrado: galinhada (arroz cozido junto com o frango, com urucum e temperos locais), arroz com pequi (prato base do Centro-Oeste, o gosto do pequi é adquirido, mas vale tentar), carne de sol com mandioca frita, frango caipira no fogão à lenha com guariroba (o palmito amargo típico da região, que muita gente estranha na primeira colherada e ama na segunda), feijão tropeiro e maxixe refogado.
Antes de chegar no Jalapão, vale a parada no Bar da Dona Benedita, que fica bem no meio da estrada que leva para Mateiros, em frente à virada para as Dunas. É ponto de parada quase obrigatório para água, lanche e, se tiver sorte, a cachaça de jalapa, que dá nome ao parque. A raiz da jalapa-do-brasil fica em infusão na cachaça e deixa a bebida com um tom alaranjado levemente amargo e muito aromático. Não tive sorte na minha primeira visita (estava em falta). Na segunda, tomei. Vale.
No Mumbuca, a comunidade quilombola oferece comida caseira no restaurante da vila, galinha caipira no fogão à lenha, feijão com maxixe. Comer ali é parte da experiência tanto quanto comprar o artesanato.
Atrativos do Jalapão
Cachoeiras e Lagoas
Lagoa do Japonês
A Lagoa do Japonês é uma das mais impressionantes do roteiro, e uma das que mais surpreendem quem chega sem muita expectativa. A água é azul intenso, cristalina até o fundo, cercada por vegetação densa. O nome vem da descendência nipônica do antigo dono da propriedade. No local há uma caverna que dá para explorar nadando (sim, você entra dentro da caverna pela água) e uma tirolesa (R$ 50) para quem quer mais adrenalina. Dá até para interagir com os peixes que nadam perto da margem.
Uma dica importante: o fundo da lagoa tem pedras cortantes. Se você tiver sapatilha de neoprene, leve. Se não tiver, entre com o chinelo mesmo ou alugue um colete salva-vidas (R$ 10) para navegar mais tranquilo. O ingresso custa R$ 40 por pessoa (verificado em janeiro de 2024, confirme antes de ir).
Cânion Sussuapara
Paredões de arenito avermelhado que criam um corredor natural impressionante: a sensação é de estar dentro de um filme de faroeste, com vegetação do cerrado ao fundo. É o ponto preferido para rapel (R$ 150) e também tem uma área de banho ao pé do cânion.
A caminhada até o interior do cânion é tranquila e leva uns 20 a 30 minutos. As paredes são úmidas, cheias de samambaias e musgos, com água pingando o tempo inteiro, o que dá um ar selvagem e um pouco perturbador ao lugar. Há pouquíssima iluminação natural no interior, então tirar fotos exige paciência. No final do percurso há uma pequena piscina com queda d’água de aproximadamente 5 metros.
Não entre sem prestar atenção na fauna: logo na minha primeira visita, já dentro do cânion, vi um cacará comendo um rato e em seguida uma cobra colorida cruzando o caminho. O Jalapão avisa desde o início que a natureza manda aqui. Leia o artigo completo do Cânion Sussuapara com todos os detalhes do acesso.
Cachoeira da Velha
A Cachoeira da Velha é a maior e mais famosa da região. São 20 metros de queda e 100 metros de largura, formando dois semicírculos de água que de longe lembram as Cataratas do Iguaçu, tanto que os locais a chamam de “mini Iguaçu”. Fica no Rio Novo, com acesso de 122 km de terra a partir de Palmas, passando pela Fazenda Triagro.
O volume de água é enorme mesmo na seca. Na cheia é ainda mais impressionante. Por razões de segurança, não é permitido se banhar diretamente na cachoeira, mas é possível descer do mirante e pegar uma escadinha que leva para a base, de onde a vista é de tirar o fôlego. Logo abaixo há a Prainha do Rio Novo, com águas bem mais calmas para o banho.
Uma nota histórica que o guia conta no caminho: a propriedade que você vai passar para chegar à cachoeira, a Fazenda Triagro, é a antiga fazenda atribuída ao Pablo Escobar. Há até uma pista de pouso no terreno. A história local conta que era usada para refino de coca, e que os funcionários fugiram antes do exército invadir. Hoje está sob responsabilidade do estado do Tocantins e serve de ponto de parada para os roteiros. Verdade ou lenda, é um aperitivo perfeito para um lugar que tem mistério em cada curva. Confira o artigo completo da Cachoeira da Velha.
É na Cachoeira da Velha que acontece o rafting, um dos momentos mais comentados pelos viajantes. O percurso tem cerca de 6 km e dura até 3 horas. Custa aproximadamente R$ 200 por pessoa.
Cachoeira do Formiga
Pequena na queda, mas enorme no impacto visual. A cor da água é verde-azulada intensa, quase irreal. Em alguns dias está mais para azul, em outros mais para esverdeado, dependendo das chuvas recentes. O poço tem aproximadamente 8 metros de diâmetro e a água é tão cristalina que dá para abrir os olhos embaixo e enxergar tudo. Fica em propriedade particular a 25 km de Mateiros, e o acesso é controlado.
Chegar cedo é a única estratégia: depois das 9h da manhã, já tem fila. O guia que sabe o que está fazendo chega antes das 7h30. Você vai agradecer quando tiver o poço só para você por uns vinte minutos. Leia nosso artigo completo sobre a Cachoeira do Formiga.
Cachoeira da Roncadeira
A Roncadeira fica em Taquaruçú, no primeiro trecho do roteiro, e é uma das mais procuradas para rapel (R$ 150). Com 70 metros de altura, a queda é imponente, e o nome vem do barulho da água batendo nas pedras, que soava como uma roncadeira para os moradores antigos da região. A trilha de acesso tem 1,5 km e é bem sinalizada, com pontos de referência ao longo do caminho, e inclui uma escada de 143 degraus que é a parte mais cansativa do percurso.
Logo próximo fica a Cachoeira Escorrega Macaco, com 50 metros de altura: apenas para contemplação, sem banho, mas a 80 metros da Roncadeira. Os macacos são companhia garantida na trilha. Só é permitido ficar nas cachoeiras até às 17h30, não chegue tarde demais. Veja o artigo completo das Cachoeiras Roncadeira e Escorrega Macaco no blog.
Cachoeira da Arara
Menos visitada, mais selvagem. Tem duas quedas vigorosas e um poço amplo com águas que às vezes ganham uma tonalidade dourada, reflexo dos minerais e da luz do sol nas rochas. A sensação de chegar lá como os primeiros do dia (antes de qualquer outro grupo) é uma das experiências mais silenciosas e mágicas do Jalapão inteiro.
O nome vem da quantidade de araras que vivem na região. Com sorte, você vai escutar o barulho delas antes de ver a cachoeira. Um alerta para quem tem drone: nos arredores da cachoeira há gaviões que nidificam e atacam objetos voadores. Nossa câmera quase virou presa. Veja o artigo completo da Cachoeira da Arara.
Fervedouros
Vou ser direto: os fervedouros são o que torna o Jalapão único no mundo. Não existe nada igual em nenhum outro lugar do planeta, não da mesma forma, não com a mesma experiência.
Um fervedouro é uma nascente de rio subterrâneo que aflora na superfície através de uma camada de areia fina. A água sobe com tanta pressão (um fenômeno chamado de ressurgência) que impede fisicamente o seu corpo de afundar. Não importa o quanto você tente ir para o fundo: a água te empurra de volta para cima. A temperatura gira em torno de 24°C, independentemente da época do ano, e a água é cristalina ao ponto de você ver cada grão de areia se movendo no fundo.
Os fervedouros do Jalapão são alimentados pelo Aquífero Urucuia, uma das maiores reservas de água doce do Brasil. A formação geológica única da região (camadas de arenito poroso sobre rochas impermeáveis) concentra esse lençol freático e cria a pressão que faz a água brotar com tanta força. Ao todo existem 122 fervedouros catalogados na região do Jalapão, mas apenas alguns estão abertos à visitação. Confira nosso comparativo dos fervedouros que conhecemos no Jalapão.
Algumas regras que valem para todos os fervedouros sem exceção: proibido entrar com protetor solar, bronzeador, repelente ou shampoo. Qualquer produto contamina a água e afeta a fauna local. Lave-se antes de entrar. A capacidade é limitada, geralmente de 4 a 8 pessoas por vez, e o tempo médio de banho é de 15 a 20 minutos por grupo. Respeite. Esses lugares existem porque as comunidades locais os preservam.
Fervedouro do Ceiça
Um dos mais fotografados do Jalapão e o mais tradicional: foi o primeiro fervedouro aberto ao turismo na região. Cercado por pés de buriti e bananeiras que tingem a água de tons esverdeados, a pressão da água é intensa. Capacidade máxima de 6 pessoas por vez. Ingresso: entre R$ 20 e R$ 35 (verificado em 2024). Saiba tudo no nosso guia do Fervedouro do Ceiça.
Fervedouro Macaúbas
O maior fervedouro aberto ao turismo em Mateiros, com água em tom verde-esmeralda único entre todos os fervedouros da região. Cercado pelas palmeiras macaúbas, tem uma das nascentes mais potentes do circuito. Chegamos cedo e ficamos praticamente sozinhos por meia hora. Saiba tudo sobre o Fervedouro Macaúbas.
Fervedouro Buritizinho
O menor do circuito (cabe no máximo 6 pessoas), mas um dos mais bonitos. A água tem azul-turquesa intenso, o fundo é o único com pedras aparentes entre todos os fervedouros da região, e a profundidade chega a cerca de 6 metros. A sensação é parecida com flutuar num aquário natural. Conheça tudo sobre o Fervedouro Buritizinho.
Fervedouro Encontro das Águas
O ponto onde duas nascentes se encontram, com a maior pressão de todo o circuito turístico do Jalapão. Tem capacidade para apenas 4 pessoas por vez, e a força é tanta que é praticamente impossível afundar mesmo tentando com toda a força. Perfeito para quem quer sentir o fenômeno ao máximo. Leia mais sobre o Fervedouro Encontro das Águas.
Fervedouro do Rio Sono
O único com água visivelmente mais fria. Em um dia de calor de 35°C, entrar no Rio Sono é um choque refrescante que vai te tirar o fôlego por uns segundos, e depois vai parecer o melhor banho da vida. Saiba mais sobre o Fervedouro do Rio Sono.
Fervedouro Buritis
Um dos mais bem estruturados da região. O caminho de acesso já é bonito (uma trilha curta por entre buritis) e a nascente é generosa em espaço e pressão de água. Confira o artigo do Fervedouro Buritis.
Fervedouro Beija-flor
Um dos mais novos do roteiro, descoberto há poucos anos e ainda pouco frequentado. A trilha de acesso é curta e sombreada, e o poço é circular, com uma água tão azul que parece iluminada por dentro. Limite de 10 pessoas por vez e 20 minutos por grupo, o que garante uma das experiências mais tranquilas entre todos os fervedouros. É o tipo de lugar que os guias que conhecem a região de verdade indicam para quem quer fugir da aglomeração. Veja o guia do Fervedouro Beija-flor.
Fervedouro Bela Vista
O mais famoso de todos. Foi aqui que parte da novela O Outro Lado do Paraíso foi gravada. Tem uma torre de observação com vista 360° do fervedouro, além de pousada e restaurante no local. A água é azul intenso, a flutuação é estável, e a foto da torre é a mais repostada do Jalapão inteiro. E há uma surpresa: a pousada ilumina o poço com refletores subaquáticos à noite, transformando o banho noturno em algo quase surreal. Leia o guia completo do Fervedouro Bela Vista.
Fervedouro Por Enquanto
Calmo, sem pressa, reservado. E tem uma surpresa guardada: a pousada anexa ao fervedouro ilumina o poço com refletores subaquáticos à noite. Entrar no fervedouro Por Enquanto depois do escuro, com a água ganhando tons de azul neon e bolhas surgindo do fundo como estrelas cintilantes, é uma das experiências mais surreais que o Jalapão oferece. Se o seu roteiro pernoitar por lá, não pule o banho noturno. Conheça o Fervedouro Por Enquanto.
Praias
Prainha do Rio Novo
Logo abaixo da Cachoeira da Velha, o Rio Novo forma uma das praias fluviais mais bonitas do Jalapão: faixa de areia branca fininha com uma piscina natural translúcida emoldurada por mata virgem. A parada perfeita depois da Cachoeira da Velha.
Praia do Caju
Menos visitada, mais preservada. Um banco de areia generoso em uma curva do Rio Novo, com vegetação cerrada em volta criando uma sensação de isolamento total (do tipo bom). Em nossa visita em janeiro de 2024, a chuva nos surpreendeu, mas ficamos no redário aguardando, e quando a chuva passou, o rio estava mais cheio e o cenário ficou ainda mais bonito. Veja o artigo sobre a Praia do Caju no Jalapão.
Trilhas e Vistas no Jalapão
Dunas do Jalapão
Formadas pela erosão milenar das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo, as Dunas do Jalapão se estendem por mais de 100 km² e chegam a 40 metros de altura. São as únicas dunas não litorâneas do Brasil, um fenômeno geológico que resulta do vento e da chuva carregando a areia da Serra ao longo de séculos. Ficam a 282 km de Palmas pela TO-255, e o acesso exige 4×4 até o estacionamento. A partir daí, uma trilha de 350 metros planos leva até o campo de dunas, cruzando alguns riachos pelo caminho. O horário de funcionamento é das 6h às 18h30, com entrada máxima até as 17h30.
Vá no fim de tarde. Quando o sol começa a se pôr, as dunas mudam de cor progressivamente (do dourado para o laranja, depois para o vermelho) enquanto a Serra do Espírito Santo ao fundo vai escurecendo. Com o Nicolas correndo e escalando duna engatinhando, esse foi um dos momentos mais alegres de toda a viagem com a família. É um dos pôr do sol mais bonitos que já vi no Brasil, sem exagero.
Pedra Furada
Formação rochosa de arenito com um arco natural esculpido pelo tempo. Ao redor há uma área de banho em um poço de águas claras, perfeita para um mergulho depois da caminhada. Fotogênica de qualquer ângulo e sem muito esforço físico para chegar. Confira o artigo da Pedra Furada no Jalapão.
Serra da Catedral
O lugar para ver o nascer do sol. Acorde às 4h, embarque no 4×4 ainda no escuro, e chegue no topo antes do sol aparecer. O que você vai ver é uma vista 360° do cerrado iluminando progressivamente. Atividade opcional, R$ 150–200, que vale cada real e cada segundo de sono perdido.
Trilha da Serra do Espírito Santo
O trekking mais exigente do roteiro. A subida é feita no início da manhã para chegar no mirante no momento exato do nascer do sol: a vista das dunas lá de cima, com o cerrado ao fundo, é uma das imagens que ficam para sempre. Atividade opcional, R$ 150–250. Veja o relato no artigo do sexto dia pelo Jalapão.
Cabana da Jane
É fácil passar pela Cabana da Jane sem perceber, fica às margens da estrada, no caminho para a Cachoeira do Formiga, e parece só mais um ponto de parada. Mas é um dos melhores lugares para levar uma lembrança autêntica do Jalapão. Jane é uma artesã local que vende desde capas de almofadas feitas com capim dourado até biojoias e cerâmicas inspiradas na cultura tocantinense. Nada de artesanato industrial ou genérico: tudo produzido por ela mesma e pelas mulheres da região. Peça para ver o processo de confecção enquanto estiver ali. Vale cada minuto da parada.
Outros Atrativos da Região
Lagoa dos Jacarés
Fica no caminho para as Dunas, logo antes de chegar ao estacionamento. É uma lagoa grande, com vegetação bonita ao redor, e jacarés de verdade, como o nome claramente avisa. É um ponto de parada para fotos e observação, não para banho. Vale a parada para registrar a vida selvagem e perceber como o Jalapão é, de fato, território de fauna preservada.
Comunidade Quilombola Rio Novo
No caminho da Cachoeira da Velha e da Praia do Caju, você vai passar pelo Quilombo Rio Novo, uma comunidade que oferece almoço caseiro aos visitantes. Na nossa passagem em janeiro de 2024, paramos lá depois da Praia do Caju: frango caipira, arroz, feijão e uma farofa de banana que rivalizou com qualquer coisa que comemos no roteiro. A refeição é simples, preparada com ingredientes da região, e parte do valor vai direto para a comunidade. É exatamente o tipo de parada que transforma uma viagem de turismo em experiência real.
Morro Vermelho (Morro do Gorgulho)
No caminho de volta para Palmas, há uma parada que quase todo mundo ignora, e não devia. O Morro Vermelho tem formações rochosas únicas que lembram chaminés esculpidas pelo vento, com a coloração avermelhada típica do arenito da região. A caminhada até o topo é curta e tranquila: na minha visita, quem me guiou foi o filho de 7 anos do dono do bar que fica na beira da estrada. O pôr do sol visto de lá, com o laranja do céu encontrando o vermelho do morro, deve ser espetacular. Na minha visita, o tempo não colaborou. Fica na lista de pendências para a próxima volta.
Cânion Encantado (Almas)
Um pouco fora do circuito padrão, mas que aparece na lista dos 32 lugares imperdíveis da região. Fica em Almas, no Tocantins, e tem quatro quedas d’água simultâneas com mais de 70 metros de altura, formando um lago na base. Pouco explorado pelos turistas, o que é exatamente o motivo para ir. Recomendado no período da manhã para melhor visualização.
Atividades de Aventura
- Rafting no Rio Novo ou Rio Sono: percurso de aproximadamente 6 km, até 3 horas, cerca de R$ 200.
- Tirolesa na Lagoa do Japonês (R$ 50) ou em Taquaruçú (R$ 120–140).
- Rapel no Cânion Sussuapara ou na Cachoeira da Roncadeira: cerca de R$ 150.
Lendas e Mistérios do Jalapão
O Jalapão é um lugar que coleciona histórias. Algumas são folclore puro; outras têm documentos e testemunhas. Aqui estão as que você vai ouvir no caminho, com ou sem guia.
A Fazenda do Pablo Escobar. No caminho para a Cachoeira da Velha, você vai passar pela Fazenda Triagro, uma propriedade grande, com uma pista de pouso construída no meio do cerrado. Os guias contam, e os moradores confirmam, que a fazenda era usada por Pablo Escobar para refinar cocaína nos anos 80. A história diz que os funcionários fugiram pouco antes do exército invadir. Verdade ou mito? Difícil saber. Mas a pista de pouso existe, o isolamento da região faz sentido, e os locais contam a história com muita convicção.
A lenda da Cachoeira da Velha. O nome da maior cachoeira do Jalapão não é aleatório. A lenda local conta que havia uma senhora tão apegada à cachoeira que passava horas sentada nas pedras, observando as quedas. Quando morreu, seu espírito ficou vagando pela região. Os moradores mais antigos dizem escutar a presença dela nos dias de névoa.
As pedras de desejo do Cânion Sussuapara. No fundo do cânion, na chamada Cascata dos Desejos, você vai notar pedras brancas espalhadas pelo chão e outras colocadas nas paredes rochosas. A tradição diz que as pedras do chão estão esperando que alguém as colete, faça um pedido e as posicione na parede, para que os seres que vivem na mata façam o pedido se realizar. Por via das dúvidas, não custa fazer um pedido.
Os 122 fervedouros. A maioria das pessoas sabe dos 9 ou 10 fervedouros que aparecem nos roteiros. Mas existem 122 catalogados em toda a região. A maioria ainda não está aberta à visitação. O que está escondido nessas nascentes que ainda não foram encontradas pelos turistas? Essa pergunta por si só já justifica uma segunda visita.
Turismo Sustentável e Regras de Visitação
O Jalapão é preservado porque há regras, e porque as comunidades locais as fazem cumprir. Antes de chegar, vale entender o que é esperado de você como visitante:
- Nos fervedouros: sem protetor solar, bronzeador, repelente, shampoo ou qualquer produto químico antes de entrar. Respeite os limites de pessoas por vez e os tempos máximos de banho. Não tente entrar fora do horário ou burlar a fila: é o desrespeito que transforma um lugar paradisíaco em ponto de degradação.
- Nas trilhas e atrativos: siga as placas e não saia dos caminhos demarcados. O cerrado tem fauna que você prefere não perturbar por acidente.
- Com o capim dourado: é proibido retirar capim-dourado in natura da região. Compre apenas peças artesanais finalizadas, diretamente das comunidades produtoras.
- Na estrada: o Jalapão não tem postos de gasolina a cada 50 km. Abasteça com folga, sempre.
- Com os animais: não alimente animais silvestres. Não tente se aproximar de jacarés, cobras ou qualquer fauna que cruzar seu caminho. Observe com respeito e siga em frente.
O turismo sustentável aqui não é discurso: é o que mantém os fervedouros abertos, os quilombolas com renda e a fauna no lugar onde precisa estar. Você faz parte disso enquanto estiver lá.
Jalapada: Jalapão + Chapada das Mesas
A Jalapada é o nome dado ao roteiro que combina o Jalapão com a Chapada das Mesas, no sul do Maranhão, uma região de cânions avermelhados, cachoeiras impressionantes e lagoas de água azul intensa que poucos conhecem.
Saindo do Jalapão, dá para seguir até Carolina, no Maranhão, a cidade-base da Chapada das Mesas. O roteiro completo fica entre 10 e 14 dias e é uma das melhores viagens de ecoturismo que dá para fazer no Brasil em uma única expedição. Os cenários são complementares: o cerrado árido do Tocantins com fervedouros e dunas, depois os paredões rochosos e quedas d’água do Maranhão.
Jalapão + Serras Gerais
As Serras Gerais são a grande descoberta de quem já foi ao Jalapão uma vez e quer explorar mais o Tocantins. A maior cadeia de serras do Brasil atravessa o sudeste do estado, com cânions de 80 metros, cavernas e grutas em Dianópolis, a Cidade das Pedras (formações rochosas em torre que parecem um skyline de pedra) e rios de água tão cristalina que competem com os fervedouros.
A distância entre Mateiros e Dianópolis é de cerca de 200 km, umas 4 horas de carro. Não é próximo, mas é muito viável de combinar em uma viagem de 8 a 10 dias. A maioria das agências oferece pacotes de 6 a 8 dias combinando os dois destinos.
A recomendação de quem conhece os dois é ir com pelo menos 5 dias para cada região. Menos que isso e você vai sair com a sensação de ter visto só o começo.
Perguntas Frequentes sobre o Jalapão
O que é um fervedouro e por que não se afunda nele?
Um fervedouro é uma nascente de rio subterrâneo que aflora na superfície através de uma camada de areia fina, fenômeno chamado de ressurgência. A água sobe com tanta pressão que cria uma força constante de baixo para cima, impedindo fisicamente que o corpo afunde. Não importa a profundidade ou o quanto você tente: a água te empurra de volta. A temperatura é de aproximadamente 24°C o ano todo. Os fervedouros do Jalapão são alimentados pelo Aquífero Urucuia e esse fenômeno é exclusivo do Brasil, não existe nada igual com essas características em nenhum outro lugar do planeta.
O Jalapão é perigoso?
Não é perigoso, mas exige planejamento. O risco real não são os atrativos em si, mas a logística: estradas sem sinalização, ausência de sinal de celular por longos períodos e o risco de atolamento em areia fofa longe de qualquer socorro. Com guia, esse risco cai praticamente a zero.
Dá para ir ao Jalapão por conta própria?
Dá, mas com ressalvas sérias. Você vai precisar de um 4×4 em bom estado, dois estepes, combustível extra, mapas offline completos e experiência real de pilotagem em areia. Sem guia, você provavelmente vai perder atrativos por não saber os acessos, vai enfrentar filas nos fervedouros por não conhecer os horários certos e vai correr o risco de atolar sem ter quem ajude.
Crianças podem ir ao Jalapão?
Podem, mas a indicação mais comum é a partir dos 10 anos. O limite não é a dificuldade dos atrativos, mas o cansaço do deslocamento: horas em estrada de areia num 4×4 chacoalhando é pesado para crianças menores. Com planejamento e uma agência que adapte o roteiro, crianças mais novas também conseguem aproveitar: como o Nicolas, nosso filho, que foi conosco em janeiro de 2024 ainda bem pequenininho e adorou as dunas e os fervedouros.
Quantos dias são suficientes para o Jalapão?
O mínimo razoável são 4 dias, mas você vai sair querendo voltar. O ideal é 5 a 6 dias para cobrir as principais cachoeiras, os fervedouros mais importantes, as dunas e a Serra da Catedral. Com as Serras Gerais, some mais 3 a 5 dias. Com a Jalapada completa, conte com 10 a 14 dias.
O que é a Jalapada?
É o nome dado ao roteiro que combina o Jalapão (Tocantins) com a Chapada das Mesas (Maranhão). Os dois destinos ficam na mesma região do Brasil, são acessíveis em sequência por carro ou com agência, e oferecem paisagens complementares.
Posso usar protetor solar nos fervedouros?
Não. Proibido em todos os fervedouros sem exceção. Isso vale também para bronzeador, repelente, shampoo e qualquer produto químico. Qualquer substância contamina o ecossistema aquático da nascente. Aplique o protetor solar antes de sair da pousada e lave bem a pele antes de entrar no fervedouro.
Qual o melhor horário para visitar os fervedouros?
O mais cedo possível. Os fervedouros mais populares (Buritizinho, Buriti, Bela Vista) podem ter filas de 1 a 2 horas a partir das 9h na alta temporada. O guia que conhece a região faz um roteiro de contrafluxo, chegando primeiro nos lugares que estarão cheios mais tarde. É um dos principais argumentos para contratar guia.
Conclusão
O Jalapão é daqueles lugares que você vai visitar com expectativa alta (porque todo mundo fala que é incrível) e vai voltar com a certeza de que a expectativa ficou abaixo da realidade. As fotos não capturam a pressão da água te empurrando para cima no fervedouro. Os vídeos não transmitem o silêncio das dunas no fim do dia, quando o sol vai embaixo do horizonte e tudo fica laranja. E nenhum relato prepara você para a hospitalidade do povo local: a galinhada da Dona Santinha, a cachaça de jalapa, a música de viola de buriti no Mumbuca.
Se você ainda não foi, vai. Se já foi, você entende o que estou falando, e provavelmente já está pensando em quando volta.
Para montar seu roteiro, leia nosso resumo completo dos 7 dias de viagem pelo Jalapão e confira também os 32 lugares imperdíveis para conhecer no Jalapão e região. Conta nos comentários se ficou alguma dúvida, e boa viagem!
Vamos trilhar? 🌿













































